terça-feira, 19 de maio de 2015

Matilde (blognovela)

Sem estar à espera de uma cena destas na sua vida, Matilde não teve qualquer dúvida em tomar partido pela amiga Madalena. O sofrimento em que a mesma ficou quando o Duarte a abandonou, vê-la a culpar-se desse abandono e, depois, descobrir que, afinal, a culpada era uma amiga sua, deixou-a de rastos.
 
Chegou à conclusão de que, afinal, não conhecia a Isabel. Não assim, sem humanidade nenhuma. Admitia que uma pessoa pode apaixonar-se por outra sem querer, mesmo consciente do compromisso do outro, mas a forma como ela encarou a situação à beira da piscina e na conversa ao pequeno-almoço não lhe deixou dúvidas sobre o seu carácter.
 
Tinham-se conhecido há uns anos atrás por motivos profissionais. Pouco antes do trágico acidente que vitimou os pais da Isabel. Na altura a família Galvão tinha adquirido uma quinta no Algarve que precisava de ser remodelada. E por intermédio de uma empresa para quem trabalhava foi a arquitecta paisagista escolhida para dar vida a todo o espaço exterior.
 
Tinha uma forma muito particular de abordagem, procurando sempre o equilíbrio entre o comportamento da natureza e a acção humana. Criava na paisagem aquilo que os seus clientes lhe pediam, tornando o espaço uma mais valia em qualquer situação. No caso da quinta dos Galvão procurou a melhor forma de considerar e desenvolver os seus valores culturais e os seus recursos biofísicos, o que lhes permitiu, ao mesmo tempo, potenciá-la do ponto de vista económico, técnico e biológico. Tendo contribuindo, assim, para mais um negócio a acrescentar ao património da família.
 
Foi por causa deste projecto que nasceu a sua amizade com a Isabel. Considerava-a uma menina mimada, fruto de ser filha única e futura dona de um império. Considerava-a, até, um pouco fútil, mas desculpava-a por perceber que tinha tido a vida facilitada, porque não tinha precisado, como ela, de trabalhar para pagar os estudos ou de poupar todos os trocos para comprar "aqueles" sapatos da moda.
 
Na altura a Isabel entusiasmou-se de tal maneira com o projecto que acompanhou o mais que pôde a Matilde nas idas ao Algarve. Queria ver a obra a ganhar forma, queria perceber como é que tudo aquilo se fazia e, claro, queria dar a sua opinião. Dali a uma amizade foi um passo. Mesmo porque não gostar da Matilde era uma coisa muito difícil.
 
Dócil. De olhos negros, grandes e olhar profundo, que combinavam com um tom de pele bronzeado. Sempre bronzeado. Mesmo próprio de quem trabalhava na rua. E vê-la trabalhar com a delicadeza com que o fazia gerava uma empatia imediata com qualquer pessoa. Falava pouco, apenas quando necessário, especialmente em ambiente profissionais e o que dizia caía que nem uma moeda que dá prémio numa slot machine. Por isso era respeitada na sua profissão e o seu bom senso fazia dela amiga e confidente de muitos dos seus amigos.
 
Agora, chocada com a situação, Matilde não parecia a mesma. Não hesitou em chamar cabra à Isabel, porque disse o que sentia. O que sentiu desde o primeiro momento na  noite anterior na piscina. E perder os negócios que tinha com ela não era uma preocupação. O que a preocupava era a maldade revelada pela amiga mimada, solteira, rica, poderosa e vingativa. O que a preocupava era saber que tinha deixado a Isabel a ferver com aquele insulto e com o que poderia fazer à Madalena por causa disso. Também a preocupava saber que com o Duarte aquilo não iria chegar a bom porto e assim tinha-se arruinado um casamento.
 
Bebeu um café duplo. No ouvido tinha-lhe ficado a frase da Isabel Estás lixada comigo. Olhou para o relógio, 9h30. Pegou no telemóvel e ligou à Madalena.
- Sim? Bom dia?
- Bom dia...
- Já estás acordada? Como é que te sentes?
- Dói-me um bocado a cabeça... de resto estou bem.
- Então desce. Vem tomar o pequeno-almoço.
- Não... sobe tu. Vem ter comigo ao quarto. Não me apetece comer nada.
- Ok. Até já.
 
E subiu. A pensar na cabra da Isabel.
 
 
(Leia aqui todos os capítulos)

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