Mostrar mensagens com a etiqueta Blognovela. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Blognovela. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Um rosto conhecido

Cerca de duas horas depois de ter sido dado o alerta pela funcionária do hotel, os hóspedes continuavam sem arredar pé na esperança de virem a saber o que realmente se tinha passado. A polícia tinha vedado o espaço, não deixava que ninguém passasse para a zona exterior, mas as grandes paredes de vidro que davam para a piscina permitiam que as operações fossem acompanhadas a par e passo.

Do lado de fora pareciam peixes num aquário, à espera de serem alimentados. O que, na verdade, era o que se estava a passar. A fome e sede de informação superaram o cansaço acumulado de um descanso interrompido e de uma madrugada que parecia nunca mais acabar. Mas ali estavam. Resistentes.

Na piscina continuava o corpo envolto de uma mancha escura. De sangue. Cada vez maior. Na piscina, estava uma mulher. Vestida com um roupão, de cabelos soltos e virada para baixo. À espera de ver a sua identidade reconhecida.

- Nunca mais! Nunca mais me apanham cá! - Dizia uma senhora muito aborrecida.
- Isto é inadmissível. Está aqui uma pessoa há horas e não nos dizem nada!!
- Mas o que é que quer saber?
- Quero saber o que é quase passou!!
- Ó meu amigo. O melhor é esperar sentado. Estas coisas demoram muito tempo.
E assim iam as conversas...

Mas um movimento suspeito dos operacionais fazia adivinhar que estava na hora de perceber quem era aquela mulher. O corpo estava a ser retirado da piscina. O médico-legista a postos para avaliá-lo. A polícia judiciária também se encontrava no local. O mistério seria revelado em breve...

A luz era pouca para ver bem, à distância, o que se estava a passar. O corpo já estava à beira da piscina, prestes a ser retirado. O silêncio entre os hóspedes adensava-se na expectativa de verem o rosto da pessoa. Da morta. E quando, finalmente, o corpo foi retirado da água, ouviu-se um oooohhh geral. Pois tinha sido exactamente para a montra de curiosos que o corpo no chão pousava. Com a cara virada para quem quisesse ver.

- Não acredito... - Ouviu-se.
- Oh meu Deus... - Outra reacção.

E um vómito compulsivo deu início no meio daquelas pessoas. Uma mistura de sentimentos perante o cenário. Perante a realidade. Perante aquela cara ensanguentada.

Em auxílio da pessoa que vomitava, houve quem pegasse numa taça com flores secas em cima de uma mesa e arrancasse uma toalha branca com a louça do pequeno-almoço para a manhã seguinte. Fores para o chão, louça pelo ar. A taça para amparar o vómito a toalha para limpar. E os que assistiam, enojados, afastaram-se. Já bastava o que se passava lá fora.

- Toma querida. Apoia-te em mim.
- Tu viste?
- Vi... Vi... Mas agora tens de recuperar. O que é que comeste? Não páras de vomitar!!
- Não consigo... Tu viste?
- Vi Madalena. Eu vi a Isabel.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Um corpo... (blognovela)

Eram duas da manhã quando um grito aflitivo acordou os hóspedes do hotel. Sobretudo os que se encontravam hospedados nos quartos virados para a piscina. Uma a uma as luzes foram-se acendendo e nas varandas foram aparecendo curiosos e assustados os que ouviram o grito. Não se conseguia ver bem o que se passava lá em baixo, apenas se ouvia o choro murmurado da funcionária que tinha dado o alerta e que já se encontrava amparada por um colega. E para agravar aquele mistério ouviu-se ainda um outro grito histérico de alguém que tinha regressado ao hotel e procurava um lugar no lounge para descontrair.
 
Começaram a sair dos quartos todos os que deram conta daquela cena através das varandas e outros que ouviram e não viram nada. Encontravam-se nos corredores e nos elevadores e perguntavam-se se alguém sabia alguma coisa. Alguns de robe, outros com qualquer coisa vestida à pressa, dirigiam-se para o espaço exterior adivinhando alguma coisa má.
 
- Quem grita assim é porque está em apuros!
- Eu acordei com o grito. Meu Deus!
- Mas alguém sabe o que é que se passa?
 
E assim foram falando. E conjecturando.
 
No único acesso à piscina disponível àquela hora uma fila de funcionários e seguranças do hotel impediam a passagem de quem quer que fosse.
 
- Mas o que é que se passa? Nós queremos saber!
- Minha senhora, tenha calma! Tenha calma!
- Eu estou calmíssima, não vê? Agora ouvem-se gritos e não nos dizem o que é que se passa?
 
A insistência foi tanta e de quase todos os hóspedes que acabaram por ouvir num tom de voz mais forte:
- Ninguém pode passar! Estamos a aguardar que chegue a polícia. Por favor, regressem aos vossos quartos!
 
Logo uma reacção conjunta:
 
- A polícia?
- Mas o que é que aconteceu?
- Agora é que eu não saio daqui!
- Olha agora...
- Isto é inadmissível! Vou já fazer as malas!!
 
Ouviu-se de tudo. Até que a polícia chegou.
 
- Onde é que está o corpo? - Perguntou um dos agentes.
- Ali fora. Na piscina. Eu acompanho-o. - Respondeu o gerente do hotel.
- Primeiro que tudo, ninguém sai do hotel. Estão proibidos de fazerem check-out antes de apurarmos todos os factos.
- Com certeza! Vou já providenciar isso.
- E agora todos para os quartos. Desimpeçam esta zona para podermos vedá-la.
 
Sem palavras. Foi assim que ficaram os espectadores. Onde é que está o corpo? Era a frase que ecoava na cabeça de cada um. Mas tinha morrido alguém? Ali, onde estavam hospedados?!? Será que estavam em segurança? Mas o que é que se tinha passado? Podia ter sido com eles!
 
No entanto, apesar das indicações da polícia e de estarem assustados com a ideia de um corpo morto a boiar na piscina, ninguém arredou pé. Queriam perceber o que é que tinha acontecido e, se possível, ver o corpo a boiar.
 
(leia aqui todos os capítulos)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Duarte e Isabel (blognovela)

A surpresa de ter sido mandada para dentro da piscina levou a que a Isabel ficasse, de facto, mais calma. Nem ela algum dia tinha previsto acabar assim e muito menos resultado de uma acção do manso namorado que controlava com um estalar de dedos.
 
Enquanto a via recuperar, o Duarte olhou em volta, agarrou uma toalha largada numa cadeira e pôs-se de cóqueras à beira da piscina à espera dela e para ajudá-la. Ainda sorriu, discretamente, pela atitude que teve, por ter tido um papel preponderante para que a discussão acabasse e por ver a Isabel numa situação de vulnerabilidade total.
 
Esticou-lhe a mão.
- Vá, agarra aí que eu ajudo-te...
- Achas bem o que me fizeste?
- Vá Isabel. Agarra aí.
 
E a Isabel agarrou-se à mão dele. Subiu e sentou-se na borda com os pés dentro de água. Estava fula. E quando ele lhe pôs a toalha pelas costas...
- Não quero isso!
- É melhor... olha que arrefeces... estás toda vestida...
- Pois estou! TODA VESTIDA!
- Wow... Não vais começar, pois não?
 
Pôs as pernas para cima. Levantou-se. E frente a frente com o Duarte alçou da mão e deu-lhe um estalo.
 
- ISABEL!! Tu passaste-te ou quê?
- Sim, passei-me! Passei-me quando me envolvi contigo! Foi um erro!
- Desculpa?!? Um erro?
- SIM!! UM ERRO! Mas desde quando é que tu me tratas assim? Em vez de me ajudares atiras-me para dentro de água? A estúpida da tua mulherzinha publica aquele texto e tu ainda a defendes?
- Eu não defendi ninguém, está bem? Eu apenas quis que te controlasses. Não achas que já bastava teres todas as atenções sobre ti, depois da notícia que saiu? Fazeres um escândalo daqueles, assim, à frente de todos, Isabel? Tu estava a gritar feita louca!
- E então decidiste espetar comigo dentro de água!!
- Olha, sim. Foi isso! Nem tens noção da tua figura. Foi o que me ocorreu...
- FOI O QUE TE OCORREU?!? E A OUTRA? Saiu daqui a rir, não achas? Só espero é que não se tenha lembrado de tirar fotografias...
- Tinha piada... - Pensou em voz alta.
- O QUÊ? TINHA PIADA?
- Não grites! Pára com isso!
- NÂO GRITES?!? Tu realmente... tão meiguinho, tão dependentezinho, tão fofinho... e agora olha... é o que se vê...
- Desculpa lá! Mas é essa a tua opinião sobre mim? Que sou dependente? De ti?
- Não de mim! De alguém! Precisas de ter sempre alguém contigo, Duarte! Não tomas decisões sozinho, precisas de quem te oriente. És um sentimentalista de primeira. Estás comigo cheio de remorsos por causa dela e agora que a viste ficaste assim...
 
O Duarte não estava a gostar da conversa.
 
- Vá Isabel! Deita cá para fora! Pelos vistos tinhas aí muita coisa para me dizer!
- Queres ver que quando viste a Madalena ficaste indiferente... eu bem vi como a levaste ao colo para o quarto, na noite em que ela caiu. Eu bem vi como olhaste para ela. E isso magoou-me, sabes?
- E porquê?
- Porquê?!? Porquê o quê?
- Porque é que te magoou a maneira como eu olhei para a Madalena naquela noite? Porque gostas de mim ou porque te sentiste desprezada? Porque sentiste que podias perder-me? Porque ficaste com ciúmes de eu ainda ter sentimentos por ela? Ou será que me sentiste a escapar-te? A escorrer por entre os dedos?
- Mas o que é que estás para aí a dizer?
- Responde, Isabel! Responde!! Tu pensas que eu não sinto as coisas? Tu nunca, mas nunca disseste que me amavas! Nunca! E depois do que eu vi até agora desde que cá estamos, fiquei tão, mas tão desiludido... Deste-me a conhecer uma mulher que eu não conhecia...
- E?
- E?!? E não gostei! E começo a pensar que a notícia que saiu na revista tem algum fundo de verdade! Que se foi a Madalena a publicá-la ela viu em 2 segundos aquilo que eu demorei um ano a ver!
- Mas estás a falar de quê?
- Disto! Espera que eu leio para te relembrares. - E pegou no telemóvel - A mesma fonte informou-nos que o último capricho da menina Galvão foi o de cobiçar um homem casado a troco do interesse financeiro que o mesmo lhe proporciona para os seus negócios... É disto que eu estou a falar! Diz lá... foi isto que viste em mim, não foi?
 
A Isabel começou a sentir o cerco a apertar. Mas a raiva apoderou-se dela de novo. E a verdade também.
 
- FOI! FOI ISSO QUE VI EM TI! Dinheiro! O dinheiro que precisava para investir nos vinhos. TU foste o veículo perfeito para o empréstimo a juros mínimos. TU foste a melhor forma de negociar, de alcançar os meus objectivos. É VERDADE, DUARTE! Foi por isso que eu me meti contigo. Porque precisava de dinheiro e tu, tapadinho de todo, facilitaste-me a vida! Pronto, é isto!
 
Baixou a cabeça, o Duarte. Como é que não tinha percebido aquilo mais cedo. Como é que se tinha deixado enrolar daquela maneira. Teve vontade de apertar-lhe o pescoço. Teve vontade de pontapeá-la para dentro da piscina. Teve asno por ela. Teve nojo. E encarando-a disse-lhe:
 
- Vais-te embora daqui agora. Tens meia hora para fazer a mala. Põe-te a andar. Nunca mais falas comigo. Se me vires na rua muda de passeio. Fica longe de mim, da Madalena e da Matilde. E desejo que o teu negócio vá à falência. Aliás, no que depender de mim, irá. Acredita!
- Ó meu menino... mas quem é que tu pensas que és para me ameaçares desta maneira?Tu, um bebé grande que ainda anda de fraldas. Que precisa de uma mãezinha para tudo. A ameaçar-me?!? Tens noção do que estás a fazer? Tens noção daquilo que eu sou capaz?
 
- Estou cheio de medo... Tens meia hora... - E virou-lhe as costas.
 
A Isabel ficou ainda ficou mais raivosa e furibunda. Subiu ao quarto para ir buscar as suas coisas. Mas não se foi embora...
 

(Leia aqui todos os capítulos)


terça-feira, 26 de maio de 2015

O primeiro escândalo (blognovela)

Já no ginásio, e enquanto estava na passadeira, a Isabel recebeu um sms de uma amiga que dizia o seguinte:

Abre o link e lê. Não vais gostar... bjos

Abrandou o ritmo e premiu em cima do link. Ao ler o conteúdo começou a ficar verde, azul, doida de raiva. Não podia acreditar numa coisa daquelas. Só podia ser obra da Madalena! Pensou ela. E de imediato saltou da passadeira para ir ao seu encontro.

Não precisou de andar muito. Pois também a Madalena tinha planeado ir para o ginásio e acabara de chegar.

- PODES EXPLICAR-ME ISTO?!? - Gritou a Isabel na sua direcção enquanto lhe apontava o telemóvel para a cara.
- Ei! Estás a gritar para quê? Eu não sou surda!
- NÃO ÉS SURDA? 
- Não! Não sou surda. E agora tira-me o telemóvel da cara e sai-me da frente que eu não tenho nada para falar contigo!
- DESCULPA! Não tens nada para falar comigo? Então queres dizer que não tens nada a ver com ISTO, queres ver? - E apontou para o écran.

Uma autêntica peixeirada, era o que se estava a passar ali. Todos os clientes do hotel que estavam no ginásio ouviam os gritos e uma funcionária tentou intervir pedindo que ambas saíssem senão teria de chamar a segurança.

Saíram.

- Olha Isabel, eu só saí por respeito às outras pessoas. Agora vê lá se te acalmas que eu quero ir à minha vida.
- ISSO É QUE ERA BOM!! Ires à tua vida? Mas tu pensas que eu sou o quê? E tu pensas que és alguma sumidade? És uma cobarde! UMA COBARDE! Como não conseguiste o Duarte de volta resolveste atacar-me desta maneira!
- Não sei do que é que estás a falar...

Os gritos continuavam e como a entrada do ginásio era perto da piscina o Duarte não deixou de ouvi-los e reconhecer as vozes. Levantou-se e foi à procura da Isabel quando deu por ela em cima da Madalena aos berros e injúrias.

- O que é que se passa aqui? Que gritaria é esta Isabel?
- Foi a tua mulherzinha! Olha, olha bem para aqui! LÊ!

O Duarte pegou no telemóvel e viu que estava aberta uma notícia online de uma revista considerada cor de rosa sobre a Isabel que dizia o seguinte:

Isabel Galvão, de menina rica a destruidora de lares
A dona do império de vinhos Sobreiro & Galvão, cujo título conquistou com a morte trágica dos pais num acidente de viação, é também conhecida por ser muito mimada e habituada a ter tudo o que quer. Quem a conhece atura-lhe os caprichos apenas pelo poder que tem, mas fonte segura disse esta manhã à nossa revista que ninguém gosta dela, sobretudo pela falta de escrúpulos com que lida com os negócios, 
visando, apenas, alcançar o lucro sem olhar a meios.
A mesma fonte informou-nos que o último capricho da menina Galvão foi o de cobiçar um homem casado a troco do interesse financeiro que o mesmo lhe proporciona para os seus negócios destruindo, assim, uma família e o casamento de um jovem casal.
É-lhe apontada, também, a falta de conhecimentos sobre enologia e que o sucesso da marca construída e deixada pelos pais não tardará muitos anos a desmoronar-se.

- Já leste?!? Diz-me lá: quem é que pode ter escrito uma coisa dessas?
- Mas a Madalena não trabalha nesta revista, Isabel!
- TU, TU... És mesmo um ingénuo... não vês que a revista é do mesmo grupo?!? SERÁ QUE NÃO VÊS, DUARTE?
- Bom... com licença que eu tenho mais que fazer... - Disse a Madalena virando costas. Nisto uma mão forte agarrou-lhe um braço travando-lhe a marcha:
- ONDE É QUE TU PENSAS QUE VAIS?
- Larga-me... - Respondeu baixinho sem olhar, sequer, para a Isabel.
- Não te largo. Tu tens de pagá-las! - Sussurrou a outra.

E com muita calma e de voz baixa a Madalena levantou os olhos e encarou-a dizendo-lhe:
- Não Isabel... Tu é que vais pagá-las... e tããão caro...

Perante aquela cena o Duarte agarrou a Isabel e arrastou-a para fora dali.
- Vamos embora. Tens que te acalmar! Vamos daqui!
- LOUCA, TU ÉS UMA LOUCA! FRUSTRADA! PENSAS QUE VAIS CONSEGUIR ALGUMA COISA COM ISTO?!? ESTÁS MUITO ENGANADA! EU VOU DAR CABO DA TUA VIDA, MADALENA! JURO-TE!! CABO DA TUA VIDA!!

O Duarte viu-se aflito para conseguir acalmá-la e tirá-la daquele cenário. Pediu à Madalena que seguisse caminho e disse-lhe que depois falaria com ela. Continuou num grande esforço para que a Isabel se calasse com a gritaria, mas em vão. Até que lhe ocorreu uma medida simples e eficaz. Atirou-a para dentro da piscina.



(Leia aqui todos os capítulos)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

À beira da piscina (blognovela)

O Duarte estava tão distraído com a leitura que não deu pela Matilde chegar.
- Posso?
- Como? Ah, Matilde! Desculpa... não te vi...
- Posso sentar-me aqui ao pé de ti?
- Claro! - E levantou-se para puxar uma cadeira. - Já estiveste com a Madalena? - Perguntou.
- Já.
- E como é que ela está? Melhor?
- Sim... dói-lhe a cabeça, mas nada de mais... O pior é o resto...
Silêncio.
- Como é que isto aconteceu? - Disparou a Matilde.
- Nem sei bem... quando dei por mim estava envolvido com a Isabel... aconteceu tudo muito depressa e a Madalena... sabes como é... nunca está presente...
- E achas que foi melhor assim? Envolveres-te com uma mulher e saíres de casa? Ainda por cima não foi com uma mulher qualquer!! Não!! Tinha de ser com uma amiga minha!!
- Amiga tua? Achas mesmo que a Isabel é tua amiga?
- E tu? Achas mesmo que a Isabel está apaixonada por ti?
O Duarte olhou-a de lado.
- Pensas que eu não sei o que vale a Isabel? Sei muito bem. De certeza que ela teve qualquer interesse em ti para te ter piscado olho. E tu foste logo! Com o rabinho a dar a dar!
- Menos, Matilde. Muito menos.
- Muito menos?!? Isso digo-te eu!! Achavas que isto não se vinha a saber? Tu sabes o que a Madalena sofreu e ainda está a sofrer com esta cena toda? Chorou baba e ranho durante duas semanas, ouviste?? Nem sequer foi trabalhar! Não saía de casa! Culpou-se, porque sabia bem que sempre pôs o trabalho à frente de tudo. Mas tu sabias como eram as coisas ainda antes de casar com ela, certo?
- SABIA, MADALENA! SABIA! Mas acreditei que seria diferente depois de casarmos. Acreditei que ela passasse a dar prioridade à nossa relação. Ao nosso casamento! Não penses que eu não a amo! Eu amo-a, Matilde! Continuo a admirá-la como sempre admirei! Continuo a ter orgulho no seu trabalho, na sua obstinação pela perfeição. Mas descobri-me, percebes? Descobri que não conseguia viver assim. Sem ela... A porta estava aberta... foi a Isabel que entrou como podia ter sido outra qualquer...
- Outra qualquer?!?
- Não me julgues... Não julgues ninguém, Matilde. Não sabes como são as coisas. Pensas que sabes. Mas não sabes nada.
Silêncio.
- Ela disse-me que te pediu para voltares para casa...
- Sim, pediu.
- Então se a amas... porque é que não voltaste?
- Queres mesmo saber? Acho que a atenção da Isabel estava a fazer-me bem. E eu sabia que a Madalena, se eu voltasse, não teria tempo para mim.
- Estava a fazer-te bem? Então? Já não está?
- Está... sim, claro... sei lá...
- Sabes lá? Arruma lá essa cabeça! O que é que se passa?
- Ontem não gostei nada de ver a Madalena naquele estado. Não gostei nada de ver como a Isabel reagiu convosco. Não me senti nada bem com esta situação.
- E?
- E? E o quê?
- E o que é que estás a pensar fazer em relação a isso? Vais continuar assim... dividido entre o "ai, esta faz-me tão bem ao ego, mas é da outra que eu gosto"?
- Tu és tramada...
- Não Duarte! Eu sou aquela pessoa que está a tentar que vejas as coisas. Que está a tentar ajudar-te a arrumar essa cabeça, esse coração. O que é que vale mais no meio disto tudo? É isto? Fins-de-semana fora, jantares românticos e viagens ou é saberes que apesar de tudo terás sempre, mas sempre alguém com quem contar? Sabes que à primeira a Isabel põe-se a andar! Ou melhor, põe-te a andar!!
O Duarte sentia-se um alvo. Com tanta pergunta e tantas certezas. Sentia-se, também, dividido. Não conseguia pesar o que era, de facto, mais importante para si. Ao rever a Madalena estremeceu por todo o lado. Mas à distância não queria a vida que tinha com ela. Queria mais. Mais calor, mais amor. Mais Madalena.

- Liga-lhe...
- Hã?
- Liga-lhe, Duarte. Ela merece, ao menos, que dês a cara! Nunca o fizeste! Deixa-a fazer todas as perguntas, deixa-a dizer-te tudo o que sente. E tu faz o mesmo. Não falar é o pior que podes fazer. Já viste como ela se rebaixou? Pediu-te para voltares!!
- Achas mesmo que isso vai resolver alguma coisa?
- Acho! Francamente, acho! Ou tens mesmo a certeza de que queres o divórcio?

O Duarte não respondeu. E de tão embrenhados que estavam na conversa não se aperceberam de que a Isabel estava a chegar:

- Olha, olha! A Matildezinha! Então o que é que estás aqui a fazer?
- Bom Duarte, depois falamos. - A Matilde ignorou-a.
- Ei! Mas o que é isto? Fiz-te uma pergunta e tu viras-me as costas?
- A ti não tenho mais nada a dizer. Aliás, tu foste bem clara na última conversa que tivemos. Por isso Isabel, esquece que eu existo!
- Esquecer que tu existes? Depois do que me disseste? Depois de me teres chamado cabra? Impossível!
- Tu não vales mesmo nada... Acho que o melhor para todos é vocês fazerem as malas e porem-se a andar daqui.
- Ahahahahahah!! Eu? Pôr-me a andar daqui? Agora que o circo começou? Nem pensar!
- Meninas, vamos lá a parar! - Tentou intervir Duarte.
- Até logo. - Disse a Matilde e foi-se embora.

- O que é que ela te queria?
- Nada.
- Nada o quê? Mas pensas que eu não conheço a Matilde? Sempre armada em boa samaritana? Até adivinho: veio falar mal de mim e defender a amiguinha!
- Isabel! Tem paciência, Isabel! Não somos miúdos de 15 anos.
- Ai eu não sou, de certezinha absoluta! Agora tu... às vezes parece que ainda andas de fraldas...
- Desculpa?!?
- Sim, Duarte! Às vezes sinto-me a tua mãezinha. Olha, eu vou mas é para o ginásio antes que a conversa azede.
- Vai, vai. Vai e pensa bem no que acabaste de dizer!
- Estou cheia de medo... ui... - E virou costas a rir-se. Feita cabra.



(Leia aqui todos os capítulos)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Duarte (blognovela)

O desertor.  Podíamos dar-lhe este cognome. Ou o filho da mãe. Ou o traidor. Ou o futuro ex-marido da Madalena. Ou, pura e simplesmente, o homem. Entre três mulheres.
 
Conhecera a Madalena no funeral de um amigo comum. A sua figura vistosa prendeu-lhe logo a atenção e essa prisão também ela a sentiu, quando os seus olhos bateram nos dele. Pela primeira vez. E nesse dia, sem o saberem, apaixonaram-se.
 
Tinha casado por amor. Sabia perfeitamente que a vida da Madalena era pública, agitada, preenchida. Sabia, desde o dia em que a conheceu, que era obstinada. Fosse pelo que fosse, a Madalena era obstinada. Os objectivos a que se propunha era para serem cumpridos, ultrapassados, se possível, na perfeição e só por isso é que tinha alcançado o sucesso profissional que lhe dava notoriedade. E só por isso, por essa força maior que lhe reconheceu, soube logo que era com ela que queria casar. Bastou-lhe sentir a força da Madalena para que um frio na barriga o consumisse. E até que ela o aceitou, não descansou.


Sabia de antemão que casar com uma figura pública era viver na sombra. Não gostava de acompanhá-la em eventos públicos. Os flashes não o atraiam. Preferia gozar do sucesso da mulher de forma privada. Em casa. Quando lia o que ela escrevia. Quando a encontrava, inesperadamente, numa revista qualquer. Não lhe fazia confusão o sucesso da mulher. Apreciava-o e falava com orgulho. E vaidade. E sabia que era a ele que ela regressava. Todos os dias. E depois... como qualquer pessoa apaixonada... achou que com ele seria diferente. Que, depois do casamento, a Madalena iria estar mais tempo disponível. Presente. Com ele. Para ele.

Duarte era alto, moreno e de olhos verdes. Um homem muito bonito. Charmoso. Bem falante. Gerente de um banco e um autodidata em informática. Era fácil gostar dele e pretendentes não lhe faltavam. No banco era frequente sentir um certo assédio da parte das colegas e algumas clientes. Fazia-lhe bem ao ego. Gostava disso. Mas nunca lhe tinha passado pela cabeça trair a Madalena. Mesmo nos momentos em que se sentia sozinho. Aí dedicava-se aos computadores e não raras foram as vezes que ao chegar a casa ela o encontrou adormecido perante os ditos.

Mesmo na lua de mel, perante tanta exposição de um momento tão privado, fez por perceber que quem acompanhava a vida da sua recém-esposa queria saber de todos os pormenores. Fez por entender tantas publicações nas redes sociais. Tantas fotografias dela mesma. Fez por perceber.

Com o tempo a passar, começou a sentir-se sozinho. Muitas vezes. Demasiadas. Os amigos, casados, pouca disponibilidade tinham. Os computadores, por mais que gostasse deles, não conversavam. No frigorífico encontrava sempre e apenas uma refeição. Não havia barulho em casa. Não sentia vida em casa. E o silêncio começou a incomodá-lo.

Até que chegou o dia da famosa festa de aniversário da Matilde. E no dia seguinte uma mensagem da Isabel no Messenger. A gabá-lo. A convidá-lo para um café. A seduzi-lo.

Não resistiu muito tempo. A porta estava aberta. E a Isabel entrou.


(Leia aqui todos os capítulos)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

No quarto (blognovela)

Assim que entrou no quarto da amiga, a Matilde topou o portátil aberto, ligado e em cima da cama.
 
- Então, já ao computador tão cedo?
- Sim.
- Não me digas que estás a trabalhar?!?
- O que é que queres? Essa coisa a que chamam trabalho está entranhada em mim. - Respondeu piscando o olho à amiga.
 
Sentaram-se em cima da cama, mas a Madalena agarrou-se ao teclado.
 
- Quer dizer que já te sentes melhor...
- Dói-me um bocado a cabeça... mas isto já passa... - E mudando de assunto. - Olha, espreita aqui o que estou a fazer. A princesa Letizia apareceu em público com um casaco de uma estilista nossa.
- Ai foi? De quem?
- Lua Mendes.
- O quê?!? Quem é essa?
- É uma miúda muito gira que tem dado alguns passos na moda. Já andava de olho nela desde a penúltima edição do Moda Lisboa. Eu sabia que ela ia ter sucesso. Et voilá!
- Tristeza... é preciso uma espanhola vestir um casaco de uma portuguesa para se ser reconhecido...
- Ah pois é, bebé! O mundo da moda é assim mesmo! E, às vezes, é só uma questão de sorte!
- E o que é que estás a fazer?
- A rever o artigo que vamos publicar na nossa edição on-line. Não pode sair de qualquer maneira.
- Realmente... não percebo mesmo nada de moda e de como é que isso funciona... Estás aí toda entusiasmada por causa de um casaco...
- Não! Desculpa minha cara amiga! Um casaco português! Desenhado por uma portuguesa e fabricado em Portugal!!
 
Silêncio.
 
- Já estás melhor? Mesmo?
- Mesmo... - Respondeu sem vontade.
- Não parece.
- O que é que queres, Matilde?
- Para já gostava que olhasses para mim. Só consigo perceber como estás se te vir bem os olhos e tu bem sabes disso. Por isso é que não os tiras do écran!!
 
Num gesto repentino a Madalena fechou o portátil, colocou-o de lado, cruzou as pernas e virou-se de frente para a amiga a abrir ambos os olhos com as duas mãos:
- Pronto! Já me vês assim?
- Parva! És mesmo parva! - E desataram a rir.
- Estou preocupada contigo...
- Não fiques. Decidi que o Duarte já passou à história. Olha, só espero é que se tenha ido embora com a outra fulana que é para continuar a desfrutar do nosso fim-de-semana.
- Huuummm.... não me convences... o Duarte passou à história? Está bem... e olha, eles ainda estão cá.
 
A Madalena baixou a cabeça.
 
- Queria pedir-te desculpa.
- Tu?!? Porquê?
- Porque afinal de contas ela é minha amiga e foi em minha casa que se conheceram.
- Explica lá isso melhor. Em tua casa? E eu estava lá?
- Chegaste mais tarde. Foi no meu aniversário no ano passado, lembras-te? Estávamos à tua espera para cantarmos os parabéns...
- Xiiii... a sério?!? Não me lembro nada da fulana. Mas se ela é tua amiga como é que eu não a conheço?
- Sabes aquela que eu te falei dos vinhos Galvão a quem eu projectei o espaço exterior de uma quinta no Algarve?
- Aquela a que lhe morreram os pais?
- Sim, essa!
- Mas essa gaja é uma ricalhaça. O que é que ela viu no Duarte?
- Oh... sei lá...
- Também não me interessa! Agora não há volta a dar. E tu não tens de pedir desculpas por nada, ok? Aliás, eu é que tenho de te agradecer que eu cá só me lembro de ter desmaiado e depois de acordar aqui. Como é que conseguiste trazer-me para cima?
- Foi o Duarte.
 
Os olhos da Madalena arregalaram-se. E brilharam.
 
- O Duarte?!? Como? Ao colo?
- Sim...
- E tu deixaste que ele entrasse aqui no meu quarto?
- Madalena! Querias o quê? Que ele te deixasse à porta?
- Mas quem é que me despiu e vestiu-me o pijama?
- Foi o Duarte.
- O QUÊ???
- Ei, calma! Estou a brincar. Fui eu! Tonta... mas bem que gostavas que tivesse sido ele... - Disse baixinho.
 
A Madalena olhou a amiga de soslaio. E recostou-se nas almofadas. E voltou a pegar no computador. Entretanto bateram à porta.
 
- Não que digas que é ele?
- Vamos descobrir? - Respondeu a Matilde a sorrir. E entretanto só se ouviu:
- Obrigado. Deixe estar que eu levo. Até já. - E depois de fechar a porta a Matilde voltou-se para a amiga:
- Toma lá o pequeno-almoço. Pedi que o viessem trazer ao quarto. Essa dor de cabeça não deve ser só da queda...
- Tu não existes...
- E tu vê lá se comes. Deixa o computador, Madalena!!
- Já vai, já vai... não vês que tenho de publicar isto?
 
Entretanto a Matilde chegou-se à varanda e viu que o Duarte estava a ler, sentado à beira da piscina. Disfarçou.
- Olha lá, não vamos passar os dias aqui enfiadas, certo? Vamos dar uma volta...
- Hã... sim... vamos... mais tarde. Eu ainda queria suar um bocado no ginásio, depois podemos sair e ir até à praia. - Propôs a Madalena.
- Está bem. Pode ser. Então vê lá se comes que eu vou apanhar um bocado de sol. Vou para a piscina. Qualquer coisa apita.
- Ok... - Respondeu de voz arrastada.
 
Depois de ver o Duarte a Matilde queria ir ao seu encontro, sobretudo porque estava sozinho. E depois de se aperceber que a "outra" era a herdeira dos vinhos, também a Madalena queria ficar sozinha. De volta do computador...


(Leia aqui todos os capítulos)

terça-feira, 19 de maio de 2015

Matilde (blognovela)

Sem estar à espera de uma cena destas na sua vida, Matilde não teve qualquer dúvida em tomar partido pela amiga Madalena. O sofrimento em que a mesma ficou quando o Duarte a abandonou, vê-la a culpar-se desse abandono e, depois, descobrir que, afinal, a culpada era uma amiga sua, deixou-a de rastos.
 
Chegou à conclusão de que, afinal, não conhecia a Isabel. Não assim, sem humanidade nenhuma. Admitia que uma pessoa pode apaixonar-se por outra sem querer, mesmo consciente do compromisso do outro, mas a forma como ela encarou a situação à beira da piscina e na conversa ao pequeno-almoço não lhe deixou dúvidas sobre o seu carácter.
 
Tinham-se conhecido há uns anos atrás por motivos profissionais. Pouco antes do trágico acidente que vitimou os pais da Isabel. Na altura a família Galvão tinha adquirido uma quinta no Algarve que precisava de ser remodelada. E por intermédio de uma empresa para quem trabalhava foi a arquitecta paisagista escolhida para dar vida a todo o espaço exterior.
 
Tinha uma forma muito particular de abordagem, procurando sempre o equilíbrio entre o comportamento da natureza e a acção humana. Criava na paisagem aquilo que os seus clientes lhe pediam, tornando o espaço uma mais valia em qualquer situação. No caso da quinta dos Galvão procurou a melhor forma de considerar e desenvolver os seus valores culturais e os seus recursos biofísicos, o que lhes permitiu, ao mesmo tempo, potenciá-la do ponto de vista económico, técnico e biológico. Tendo contribuindo, assim, para mais um negócio a acrescentar ao património da família.
 
Foi por causa deste projecto que nasceu a sua amizade com a Isabel. Considerava-a uma menina mimada, fruto de ser filha única e futura dona de um império. Considerava-a, até, um pouco fútil, mas desculpava-a por perceber que tinha tido a vida facilitada, porque não tinha precisado, como ela, de trabalhar para pagar os estudos ou de poupar todos os trocos para comprar "aqueles" sapatos da moda.
 
Na altura a Isabel entusiasmou-se de tal maneira com o projecto que acompanhou o mais que pôde a Matilde nas idas ao Algarve. Queria ver a obra a ganhar forma, queria perceber como é que tudo aquilo se fazia e, claro, queria dar a sua opinião. Dali a uma amizade foi um passo. Mesmo porque não gostar da Matilde era uma coisa muito difícil.
 
Dócil. De olhos negros, grandes e olhar profundo, que combinavam com um tom de pele bronzeado. Sempre bronzeado. Mesmo próprio de quem trabalhava na rua. E vê-la trabalhar com a delicadeza com que o fazia gerava uma empatia imediata com qualquer pessoa. Falava pouco, apenas quando necessário, especialmente em ambiente profissionais e o que dizia caía que nem uma moeda que dá prémio numa slot machine. Por isso era respeitada na sua profissão e o seu bom senso fazia dela amiga e confidente de muitos dos seus amigos.
 
Agora, chocada com a situação, Matilde não parecia a mesma. Não hesitou em chamar cabra à Isabel, porque disse o que sentia. O que sentiu desde o primeiro momento na  noite anterior na piscina. E perder os negócios que tinha com ela não era uma preocupação. O que a preocupava era a maldade revelada pela amiga mimada, solteira, rica, poderosa e vingativa. O que a preocupava era saber que tinha deixado a Isabel a ferver com aquele insulto e com o que poderia fazer à Madalena por causa disso. Também a preocupava saber que com o Duarte aquilo não iria chegar a bom porto e assim tinha-se arruinado um casamento.
 
Bebeu um café duplo. No ouvido tinha-lhe ficado a frase da Isabel Estás lixada comigo. Olhou para o relógio, 9h30. Pegou no telemóvel e ligou à Madalena.
- Sim? Bom dia?
- Bom dia...
- Já estás acordada? Como é que te sentes?
- Dói-me um bocado a cabeça... de resto estou bem.
- Então desce. Vem tomar o pequeno-almoço.
- Não... sobe tu. Vem ter comigo ao quarto. Não me apetece comer nada.
- Ok. Até já.
 
E subiu. A pensar na cabra da Isabel.
 
 
(Leia aqui todos os capítulos)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Na manhã seguinte (blognovela)

Isabel acordou com o Bruno Mars quando o telemóvel começou a tocar The lazy song. Era a amiga que tinha em comum com a Madalena. A Matilde.
- Estou...
- Isabel? Bom dia!
- O que é que queres? Já viste bem as horas?
- Quero que te encontres comigo para falarmos.
- O quê?!? Agora?!?
- Sim, agora!
- Desce. Falamos ao pequeno-almoço.
- Olha lá, eu não tenho a culpa desta cena toda. E muito menos explicações para te dar!!
- Tens 10 minutos. - E desligou o telefone.

Meia hora depois lá apareceu a Isabel.

- Tu és mesmo indecente... já viste há quanto tempo estou à tua espera?
- E ter vindo ter contigo foi uma sorte! Eu vim de fim de semana com o meu namorado, não contigo! Acordas-me com as galinhas e ainda reclamas?? Vê lá se tens calma senão dou já meia volta!
- Senta-te e não sejas mal educada. Achas que não tens nada para me dizer?
- Acho que não!
- Achas? Então é-te indiferente o facto de andares metida com um homem casado com uma amiga minha, é isso?
- Ó pá! A tua amiga que tivesse tomado conta dele!
- Desculpa?
- Sim, é isso mesmo! Sabes o farrapo que me chegou às mãos? Até te digo mais, agora é que a coisa melhorou, mas se soubesse o que sei hoje não me tinha metido com ele!
- Ah, então admites que FOSTE TU que te meteste com ele?!??
- Sim, fui.

Matilde respirou fundo.

- Quando é que isto começou?
- Bom... eu tirei-lhe a pinta em tua casa...
- Na MINHA CASA?
- Sim, na tua casa. E pára de gritar!! Estás histérica, Matilde?
- Histérica estás tu!! Na minha casa? Explica lá isso melhor!
- No teu aniversário. Lembras-te que a tua amiguinha nunca mais chegava? Que estavas empatada por ela para cantarmos os parabéns? Que a senhora estava muito ocupada numa vernissage qualquer?
- Mas isso... já foi quase há um ano...
- É... p'raí...
- E depois?
- Depois meti-me com ele no facebook. Mas valha-me a Santa que o homem estava a precisar era de uma mãezinha...

Silêncio.

- Como é que tiveste coragem, Isabel? Tu sabias que a Madalena era minha amiga...
- E então? Qual é o teu problema? A Madalena é uma egoísta, será que não vês isso?
- Olha quem fala!! Julgas que não te conheço? O Duarte, como qualquer outro homem nas tuas mãos, será um brinquedo até te fartares dele. E depois? Hã? E depois? Vais devolvê-lo?
- Sabes que há sempre um período de carência... - Disse no gozo.
- És mesmo parva!
- Parva? Ai eu é que sou parva? Parvas são vocês que acreditam no amor e uma cabana. Nos casamentos para a vida. Blá, blá, blá...
- E qual é o mal disso? Com tanto homem no mundo e tinhas mesmo de escolher um homem casado, hein?
- Sabes que eu não viro costas a um desafio... - Continuou no gozo.
- Olha, só me apetece chamar-te nomes.
- Chama! Chama o que tu quiseres. Mas antes pensa bem no peso que isso pode ter nos nossos negócios. Sim, que arquitectas paisagistas há muitas...
- Mas tu estás a ameaçar-me? Estás a misturar assuntos!
- Não estou nada! Eu nem sou disso. Não viste como consegui distinguir bem o Duarte de ti e da tua amiguinha.
- Cabra!
- Cabra? - Repetiu a rir-se. - Cabra é pouco. Se soubesses do que eu sou capaz... - Levantou-se e virou costas. Mas de repente voltou para trás e ao ouvido da Matilde ainda disse:
- Estás lixada comigo!

Irritada. Desiludida. Fula da vida. Capaz de estrangulá-la. Foi assim que a Matilde ficou.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Isabel Galvão. A outra (blognovela)

Ser "a outra" tem as suas vantagens. Nada de grandes obrigações. Nada de camisas para passar ou meias para dobrar. Nada de ter alguém ali em casa à espera do jantar na mesa ou de grandes explicações sobre onde andou cada um ou com quem se esteve. Apenas os momentos bons. Jantares em restaurantes in. Fins-de-semana em spot's da moda. Noites de diversão com gente gira em sítios giros. Uma ou outra noite um em casa do outro. E pronto! Os almoços e os jantares chatos em família também ficam de parte. Receber, contrariados, pessoas em casa, também. Fazer fretes, nem se fala.
 
Por isso a Isabel gostava de ser "a outra". Estava habituada a uma vida de lorde. Tinha bem consciência do que queria. Tudo menos compromissos que a obrigassem a grandes alterações da sua vida independente. Pois estava "casada" com a sua herança. Preservá-la, era a única coisa que a movia. E mesmo isso não lhe dava grande trabalho. Pois o império que os pais lhe deixaram depois de morrerem num trágico acidente de viação, quase que andava sobre rodas por si só.
 
Isabel Galvão era sócia maioritária numa empresa de  produção e comercialização de vinhos do Alentejo da conhecida herdade, entre os entendidos, Sobreiro & Galvão. Acumulava prémios nacionais e internacionais e fora precisamente o reconhecimento internacional a maior apólice de seguro que os seus pais granjearam.

Não tinha irmãos, não era casada, nem tinha filhos. Viajava em função das feiras de vinhos. Conhecia meio mundo e era respeitada por todos os enólogos. Apesar de também estes saberem que o mérito da marca era dos seus pais. A herdade estava referenciada como a única da Europa que produzia vinho com características únicas. Um vinho doce, encorpado, amadurecido à antiga nas frescas caves da herdade, de castas indígenas que lhe conferia fortes características regionais e graças à introdução de variedades forâneas, última grande aposta dos pais antes de morrerem, o vinho da herdade tinha reforçado a sua liderança vitivinícola.

Tinha, portanto, uma vida confortável.

Mas era uma pessoa fria. Calculista. Aquilo que lhe interessava, apenas e só o que lhe interessava, é que a levavam a fazer alguma coisa. E fisgar o Duarte foi algo que ela quis. Conheceu-o em casa da amiga que tinha em comum com a Madalena e logo ali tirou-lhe as medidas. Se era casado não lhe fazia diferença. Tinha tudo aquilo que ela gostava e isso bastava. Era giro, bem sucedido profissionalmente e, na verdade, ser casado também era algo a que ela achava piada. Pois, assim, o desafio era maior. E desafios destes, em que ela podia provar a si mesma que podia tudo, não era coisa que ignorasse.

Começou a sua investida logo no dia a seguir. Primeiro, através do facebook. Depois, através de telefone. E daí a um encontro pessoal foi um passo. Na esplanada do Adamastor, em Lisboa. E Duarte, que se sentiu especial pela atenção que esta mulher lhe dava, não faltou.

Isabel Galvão. Fixem este nome. Ainda vai dar muito que falar.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Entretanto, em Tróia... (blognovela)

Por causa dos gin´s a Madalena já não sabia bem o que estava a fazer. E nem o facto de ter reparado na luz do telemóvel no outro lado da piscina ao mesmo tempo que fazia a chamada, fez com que percebesse o que é que se estava a passar.

- Desliga isso, Madalena!! O que é que lhe vais dizer? Pára!! - Dizia-lhe a amiga enquanto tentava tirar-lhe o telemóvel da mão. Em vão.
- Nunca mais atende...
- Então desliga!
Na chaise longue um vulto admirava o visor de um telemóvel. Hesitante. Surpreendido. Sem saber se atender ou não.
- Não atendas... estamos aqui tão bem... - Pediu-lhe a acompanhante.
- Mas a Madalena nunca me liga... e se for alguma coisa grave...?

A decisão superou a sua hesitação.

- Estou?
- Oláááááá!!!!
- Madalena?!?
- Estáááás boooom? - Perguntava de voz arrastada e entusiasmada.
- Madalena? Ei, está tudo bem?
- Tudo numa boa. E tu?

Desatou a gargalhar. Muito alto. Tão alto que o vulto da chaise longue olhou em redor à procura daquela gargalhada que conhecia tão bem.

- Estou? Estou? - Chamava ela.
- Madalena! És tu que estás aí? Do outro lado da piscina?

Lembram-se do Ice Bucket Challenge? Foi assim que ela se sentiu ao perceber que o futuro ex-marido era o homem que estava a admirar as estrelas. Acompanhado por outra mulher. De quem ela disse que aquilo sim, era a definição de "amor e uma cabana". Mais do que um banho gelado de água fria, a Madalena ficou paralisada. Quando o viu aproximar-se.

- Olá Duarte! Por aqui...? Que coincidência? - Tentou disfarçar a amiga.
- Olá! Realmente... uma coincidência... completamente inesperada esta cena...
- Olha, não ligues ao telefonema da Madalena. Não fazíamos ideia que estavas aqui. Acredita, não se vê nada nesta escuridão. Ela apenas bebeu um bocado e começou a falar de ti, pegou no telemóvel e olha! Ligou-te! Deixa-a que eu levo-a para o quarto. Vamos, querida. Vem comigo.

Não se mexia. Não falava. Parecia, até que não respirava.

- Já te chamei, Madalena! Vamos subir!! - Insistiu a amiga. Sem sucesso.
- Olha Duarte, vai-te embora! Depois falo contigo!
- ISSO! Vai-te embora! És bom nessa arte de ir embora! Vai! - Começou a Madalena a disparar sem levantar os olhos da água.
- Não sejas injusta. Atendi-te o telefone, não foi? E quando percebi que estavas aqui vim logo ter contigo.
- E?!? Injusta?!?
- E... vim saber porque me ligavas...
- Desculpa lá incomodar a tua noite de amor ao luar. Não fazia ideia que estavas aqui. Com tanto hotel no mundo e tinhas logo de estar aqui!!
- Digo o mesmo, não achas?

Silêncio.

- Já pensaste?
- Se já pensei?!?
- Sim! Se já pensaste no que te disse. Se não terá sido um impulso... a tua saída de casa...
- Olha Madalena... nem sei o que dizer... e não me parece que estejas nas melhores condições para falarmos seja do que for...
- Porquê?
- Porque para falarmos terás de estar sóbria!!

Uma quarta pessoa aproximou-se deles. Madalena sentiu-o. E continuou paralisada. Com os olhos postos na água.

- Não acredito Duarte... não posso acreditar... - Começou a amiga.
- Olá! - Era a Isabel. A outra. - Estás boa?
- Isabel. És tu Isabel?

E finalmente a Madalena levantou os olhos da água.
- O quê? Tu conheces esta tipa?
- Conheço...
- E TU SABIAS DISTO?
- NÃO! SIM! Não, claro que não! Sabia que a Isabel andava com um homem casado, mas não sabia que esse homem casado era o teu marido!! Isabel? Como é que foste capaz? Tu sabias que o Duarte era meu amigo!!
- Sim, sabia. E então?
- E então?!? E ENTÃO?!?
- Sim, qual é o teu stresse? Disseste bem. O Duarte era teu amigo. Não teu marido.

Com toda a genica deste mundo a Madalena tirou os pés de dentro de água para se levantar, mas meio atabalhoada com os gin's, com a situação e com o vestido comprido, embaraçou-se, escorregou e caiu. Bateu com a cabeça no chão e desmaiou com a queda.

- Madalena! Madalena! - Começou o Duarte em aflição.
- Ó pá... deixa lá que isso são os copos. Então mas agora tenho o fim de semana estragado por causa desta frustrada? Era só o que me faltava! - Alvitrou a Isabel.
- Como é que és capaz de dizer uma coisa dessas? Como? Que desilusão, Isabel... Que desilusão. - Disse-lhe a amiga. E voltando-se para o Duarte: 
- Pelo menos ajuda-me a levá-la para o quarto.

E assim aconteceu.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A dor da traição... (blognovela)

Madalena chorava desalmadamente. Há duas semanas. Desconsolada, inconformada, desapontada. Madalena chorava. E já ninguém a aguentava.
- Vá lá, Madalena... tens de arrebitar. Já não posso ver-te assim!
- Mas tu... tu não sabes... tu não percebes...
- Pois não! Mas também não aguento mais ver-te assim. Não pode ser, Madalena. Não podes continuar a chorar e a chorar e a chorar. Ainda por cima por um homem?!? MADALENA!!

Duas semanas. Era o tempo que o calendário marcava desde o dia em que o marido da Madalena tinha saído de casa. Sem aviso-prévio. Sem uma conversa. Sem uma desculpa. Sem mais nada, além da roupa que tinha no corpo. Sem ela. Por causa de outra mulher.

- Não pode ser! Há duas semanas que não vais trabalhar!! Não morreu ninguém, caramba!
- Mas tu não percebes...
- Não, não percebo. Acho que o teu marido também não percebeu a mulher extraordinária que és. Que cometeu um erro grave. Que um dia vai arrepender-se. Mas isto não é o fim do mundo, mulher!!
- Tu não percebes... Fui eu que o traí primeiro... E agora estou a pagar por isso...

- WHAT? Tu?!? Traíste-o primeiro? E não me disseste nada?
- Sim... é verdade...
- Já sei! Foi com o teu PT, certo? Por isso é que chegavas a casa tão estafada. Eu bem estranhei... aquele cansaço todo... As horas a que tinhas treinos, quando andaste a comprar uns top's todos giros para fazeres ginástica. Foi com ele, não foi?
- Não...
- Não?!? Huuumm... ok. Já sei! Foi com aquele... como é que ele se chama... que trabalha lá contigo... aquele, o cheiroso... o do BM...
- O Jorge.
- Sim, esse! Olha que tu... Saíste-me cá uma estouvada... E eu a achar que ele andava a tirar-me as medidas. Afinal...
- Pára! Nada disso! Não traí o meu marido com o Jorge. O Jorge é um vaidoso de primeira que vive do perfume que usa para conquistar a minha chefe. Achas mesmo que eu perdia tempo com um homem daqueles?!?
- Eu cá perdia! Nem que fosse uma horinha... só para dar uma voltinha...
- Parva...
- Olha, pelo menos já paraste de chorar! Conta lá, pá! Com quem é que enfeitaste a testa do teu marido?

- Queres mesmo saber?
- Oh! Vá...
- Com tudo e mais alguma coisa. Com o meu emprego, com as reuniões e obrigações que tenho. Com as minhas idas ao ginásio. Com a minha agenda cheia de compromissos. Com o arranjo das unhas, das pestanas. Com a depilação a laser e a lipoaspiração. Com as massagens novas que experimentava todos os meses. Com os novos tratamento para isto e para aquilo. Com as minhas amigas. Contigo! Bem sabes que nunca deixei de ir convosco para todo o lado, mesmo que ele me pedisse, uma vez só que fosse, para não ir... e eu ia na mesma. Foi assim que o traí. Com a rejeição. Com a falta de tempo. Distraí-me. E ele estava mesmo ali ao meu lado. E eu não o vi, percebes?

- Estás a brincar comigo? Então e ele? Não tem culpa no cartório? Nunca te disse nada? Nunca falaram sobre isso?

- Pouco falámos sobre isso. Porque eu não tinha tempo. Porque eu casei-me com ele assim... a tentar levar a mesma vida que levava antes... ignorando aquilo de que sempre ouvi falar: as cedências. E eu não as fiz... Fui eu que o traí. Fui eu que não fui fiel à sua disponibilidade. À sua vontade de estar comigo. Às manifestações de amor que me fez. E que eu ignorei. Porque estava cansada. Porque tinha de trabalhar. Porque, porque e mais porques!! Percebes?

A amiga não percebia. Não era casada. Nunca tinha sido traída. Não estava, sequer, a acreditar naquele discurso. Não estava a querer crer que a Madalena se achava culpada da traição do marido. E disparou:

- Olha, ao menos não têm filhos! Assim é mais fácil!
- Pois... até nisso o traí... ele queria. Eu não. E percebo agora que nunca fiz nada! Nada do que ele me pediu! Apenas casar. E não é isso um casamento. Aquilo que eu fiz...