segunda-feira, 5 de maio de 2014

Sobre a mãe que não tive...

Dia da Mãe. Mais um Dia da Mãe… Apenas comecei a dar importância a esse dia quando nasceu a minha filha. Primeiro, pela mão do meu marido. Depois, mais tarde, por ela. Quando começou a presentear-me com os seus trabalhos manuais. Quando o seu entusiasmo me contagiou. Em função de mim. Da minha condição.
Não que eu não ligasse a essa efeméride. Não que na escola não fizesse trabalhos, em pequena, ou que, mais tarde, não me sentisse invadida pelas ofertas comerciais para este dia. Uma pessoa mesmo que queira não consegue esquecer-se destes dias. Mas apenas porque, pura e simplesmente, não tive e não tenho mãe.
Porque ela não quis.
Porque me pariu. Nua e crua. Desprovida de sentimentos. De amor de mãe.
Porque partiu. Abandonando-me à sorte de uma vida sem mãe.
Porque foi fraca. Para criar o ser a quem deu vida.
Porque ela escolheu. Viver sem amor por ninguém.
Porque não amou. A sua extensão.
Porque negou. A dádiva que lhe foi concedida.
Porque cortou. A possibilidade de redimir-se.
Porque gritou. Que não queria ser mãe. Num grito mudo e surdo.
Porque desertou. E não chorou.
Porque não quis uma vida cheia de emoções. De memórias que se constroem a cada dia da vida de uma criança. Porque não quis acompanhar-me nas minhas primeiras vezes. Nos meus primeiros dias de cada experiência da vida. Porque não me quis levar à escola no meu primeiro dia. Não me quis esclarecer quando surgiram as minhas primeiras dúvidas. De mulher. Porque não quis viver as minhas emoções. As suas emoções. A cada conquista de um filho, uma vitória para cada mãe. Mas para ela não.
O meu nascimento, a sua derrota.
E nesta frota que nos conduz pela estrada do destino, encontrei-me sem ela em todas as memórias que criei. Quando entrei na faculdade. Quando tive o meu primeiro namorado. Quando tirei a carta. Quando casei. Quando chorei. Quando sorri. Quando fui mãe.
Ser mãe. Será que ser mãe é parir? Apenas isso?
Ou para ela ser mãe foi ir? Sem pensar no que estava para vir? Virar costas à vida que escolheu apenas porque se arrependeu? Negar a existência de alguém, sem questionar o que daí advém?
Será que para ela nada aconteceu? De dentro de si saí eu. E eu… não a neguei… também não chorei… esperei. Esperei pelo dia em que 33 anos depois a enfrentei. Esperei… E ela… Nunca entenderei…
Sou mãe. Não prometi a mim mesma ser a mãe que não tive. Apenas tinha a certeza daquilo que não queria que os meus filhos tivessem. Não compenso essa ausência na minha vida, transformando-me em algo que não sou. Dou o que dou, consciente do que há-de vir. Sou o que sou. Com eles. Porque fui eu que escolhi assim. Porque os amo. E não porque me amo. Apenas a mim.
Não parti. Não desertei.
Chorei de alegria e de dor.
Porque ser mãe é isso mesmo. Sentir amor.

13 comentários:

  1. Cláudia a sua historia é IGUAL à minha!!!!!!!! Enquanto a lia só pensava mas será que está a escrever sobre mim??? Força !!

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    1. Olá Sofia!
      Já viu a coincidência? Há muitas histórias iguais a esta. Ainda bem que gostou.
      Beijinhos e obrigado por estar aí.

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  2. O tempo vai passando. Hoje és ainda mais forte certamente, do que sempre foste. Somos todos uma caixa de surpresas e a rapidez com que nos conseguimos levantar das quedas, marca-nos em grande parte, a linha da nossa vida.

    És uma Mãe maravilhosa e no teu caso (e bem) transformaste uma marca dolorosa, em amor extremoso para ofereceres à tua família.

    Nesse sentido, em ti a dor deixou coisas boas, com a consequente compreensão do que não deves e não queres fazer.

    Os teus amigos, mesmo à distância, a tua família, os que amas: só podem ter orgulho em ti. Obrigado pela partilha Clau. Força.

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    1. Sabes ACASO, a marca dolorosa de que falas... não sei se existe... Quando nunca tivemos uma coisa não sentimos falta dela. Certo? E depois, tive o meu pai. O meu super-pai. A minha super-família que não me deixou sentir diferente das outras crianças. Se tive momentos em que essa ausência foi sentida, acredita, foram já em adulta. Mas nada de mais. Porque a vida, essa, não pára. E não tenho tempo para pensar muito nisso. Obrigado por estares aí. Um beijinhos.

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  3. Primeiro chorei depois voltei a ler e chorei de novo e depois compreendi que não tenho razão nenhuma para chorar. Só para sentir orgulho numa amiga , sim amiga que é um furacão uma força da natureza.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Obrigado Joana. Pelo elogio exagerado. :)

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  4. Caramba..... Ia jurar que já tinha comentado isto.... Blogger, andas a gozar comigo. Enfim, vamos ao que interessa.
    Como já tinha dito, fiquei pasma com esta "revelação". Ninguém diria e sim, és mesmo muito bem resolvida. Os meus parabéns à tua familia por te saberem apoiar como deve ser e por teres saído uma miúda forte e cheia de garra!

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    1. Olha, conteceu-me o mesmo no teu. E, por falar nisso, tenho de ir lá ver se ficou...
      Obrigado. Eu dou os teus parabéns à minha família. :)

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  5. Claúdia, adorei... Está simplesmente lindo, maravilhoso...
    Faz chorar qualquer mãe, pela verdade e intensidade que transmite...
    Beijinho
    L&T&H

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    1. Obrigado caro Anónimo. Fiquei com a sensação, pelo comentário, de que nos conhecemos, mas não condigo identificar...
      Um beijinho e obrigado mais uma vez.

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  6. Não consegui conter o brilho nos olhos enquanto lia este texto... Partilha intensa, pura, crua, verdadeira...

    Um abraço,
    http://bolas-desabao.blogspot.pt

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    1. Obrigado Sónia. É bom saber que está por aí.
      Um beijinho no coração.

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