quinta-feira, 15 de outubro de 2015

De esquerda e de louco todos temos um pouco

Tenho andado aqui caladinha a assistir ao forrobodó que tem sido as negociações da coligação PàF vs PS vs BE vs PCP vs todo um circo que se tem montado. Há muito tempo que a escrita, sobretudo neste mundo virtual, não tinha um motor tão grande para a sua produção. Mas é bom de ver! É bom de ver que, afinal, todo o mundo tem uma opinião, lê, escreve e sabe do que fala. É bom de ver...

Agora, aquilo que interessa...
Acho que posso dizer o que vou dizer a seguir: de esquerda e de louco todos temos um pouco! 

Ora bem! Cresci no seio de uma família alentejana cujas orientações políticas foram sempre, e está bom de ver, à esquerda. Pelos meus 6 anos de idade fui viver para a margem Sul, mais propriamente para a agora cidade de Amora. Perto de nós vivia a minha tia Maria José, acérrima militante do Partido Comunista Português e com quem tive os primeiros contactos com aquilo a que se chama de máquina partidária. Participei em reuniões (muitas vezes sem perceber nada, claro), ouvi muita coisa sobre estratégia política, pintei muitos cartazes para as manifestações do 1.º de Maio e do 25 de Abril e fui voluntária "à força" na festa do Avante.

Nestas idades, entre os 6 e os 10 anos, não temos bem uma opinião política. Ouvimos o que nos dizem os adultos e achamos que essas são verdades absolutas. Com 10 anos vim para a margem Norte e à parte o 1.º de Maio, o 25 de Abril e a festa do Avante, a minha actividade cessou, e muito, no que respeita a reuniões, cartazes e manifestações.

Cresci. Claro, que cresci! Acho até que por uns anos me esqueci dessa coisa da política. A preocupação eram os estudos, os amigos, as brincadeiras, as férias de Verão e a minha escrita. Pelos meus 16/17 anos voltei a interessar-me pelo assunto. Gostava de ver os telejornais, achava que o Mário Soares era uma grande referência, gostava muito do Manuel Monteiro e quando o Cunhal aparecia, fazia-se silêncio lá em casa.

Comecei, então, a questionar-me. Ouvia um, ouvia outro... Gostava de coisas que uns e outros diziam... não entendia porque motivo deveria tomar uma posição à esquerda ou à direita. Um dia pedi que me explicassem que linha demarcava essa diferença. Resposta: A esquerda defende, SEMPRE, os direitos dos trabalhadores!! E sei que foi o meu tio Jorge que me disse isso. 

Mas... não chegava... Essa resposta levantou-me outras perguntas: Então mas não é esse o dever dos partidos políticos? Defender os trabalhadores? Então quem está nos partidos políticos também não é trabalhador? Que sentido faz ser-se trabalhador e não defender quem trabalha?

Andei ali uns tempos sem contrariar ninguém. Não anuía e não contrariava. Muito menos contra-argumentava. Tentava perceber. Respeitava.

Com dezoito anos conheci aquele que é agora o meu marido. Homem de direita. Posição muito vincada e prestes a tornar-se presidente de uma "associação" juvenil partidária. Vivi, então, o outro lado do espelho. E rapidamente conclui que era tudo igual. O planeamento, a estratégia, a procura pela expressão, a influência, os jogos, a podridão da política. Rapidamente percebi que votar em pessoas que me inspirassem seria sempre o melhor caminho.

Mas uma coisa manteve-se: o meu carinho pelo partido "que me viu nascer". A minha tia continuou o seu percurso no PCP e eu fui sempre acompanhando os desenvolvimentos. O meu avô em dia de votar até punha um cravo ao peito. Os meus outros tios também levavam a sério esse direito e cumpriam-no sem reservas. Nunca se deu o caso de não votarem. Nunca! Esse direito tinha custado muito a conquistar. E a toda santa eleição eu gosto de ver como está a coisa para aquele lado em termos de resultados. E imaginar como seria conversar com o meu avô sobre isso.

Acho que a maioria das pessoas passaram pela esquerda, sobretudo na adolescência, e até compreenderem (mais ou menos) esta coisa das sociedades democráticas. E quem passou a ver com os seus próprios olhos o lugar onde se sente melhor (tal como aconteceu comigo), percebe que na esquerda há coisas que não se compadecem com essa máxima de que o meu tio me falou A esquerda defende SEMPRE os trabalhadores. Pois pensemos, apenas, e no caso do PCP, quando alguém não concorda com alguém, é convidado a sair. Logo, o "trabalhador" só é defendido se concordar com o "patrão". (em termos gerais e grosseiros, claro)

Não generalizo, atenção! Porque de facto, se ouvirmos com atenção o Jerónimo de Sousa a falar, numa frase deverá dizer 10 vezes a "palavra" trabalhador. Mas trabalhadora sou eu! E nem sempre aquilo que oiço se encaixa como gostaria... É preciso ver de forma mais abrangente. O sistema. A economia. Os verdadeiros motores disto: a banca. E, ainda, a Europa... e fico-me por aqui. 

Por algum motivo o PCP, mesmo com a sua já histórica coligação, não passa daqueles valores. Mantém o seu eleitorado. É constante. Tão constante que até os seus líderes parece que lá ficam até morrerem. Ou caírem da cadeira... (eheheh) Mas nestas últimas eleições gostei de ver o Jerónimo! Achei-lhe piada! Sobretudo quando um jornalista lhe perguntou, a propósito de uma das 13 578 sondagens que se fizeram, o que é que ele tinha a dizer sobre a "perda" de votos para o BE. Ao que ele respondeu Para o BE?!? Não! Os votos que eu perco é para a coligação PàF. Muito bom!

Se por um lado acho que ao PCP lhes falta um pouco dessa abrangência, caracterizando-se por ser um partido inflexível, sempre no mesmo caminho, por outro fiquei muito espantada e aborrecida com a tomada de posição agora relativamente ao PS e ao BE. Não estava à espera, juro que não estava! É preciso reconhecer-lhes a constância. Que acabou por cair por terra, dando razão às vozes que dizem São todos farinha do mesmo saco!!!

E é nisto que estamos! Num regabofe! Quando o PCP desdiz o que disse, está tudo dito. Lá está! Neste caso temos aqui alguém com tudo de esquerda e com tudo de louco. Quando o BE acredita mesmo que poderá formar governo, ui, então estes têm TUDO de loucos. E o PS que de esquerda tem pouco...

O PS... só me ocorre citar o Costa e, com o meu lado de louco, dizer-lhe aquilo que adivinho. Ele brincou e disse que a direita ganhou por "poucochinho". Eu cá acho que ele ainda vai perder "tudinho" (eheheheh, que isto hoje está a ferver).

Mas voltando ao título do post, acho que é isso mesmo. Vou falando aqui e ali, vou ouvindo e medindo o pulsar das opiniões dos cidadãos. E fico desolada por ver como de política, ou de como se faz política, poucas pessoas percebem, construindo opiniões que mais não são o resultado daquilo que alguns opinion makers, estrategicamente colocados no seio da comunicação social conseguem construir e moldar. Mas tem sido interessante registar que com estas eleições se têm verificado algumas mudanças no discurso das pessoas. Antes de mais, a consciência de que há uma dívida para pagar! Temos mesmo de pagá-la, é o que dizem. Por outro, a esperança de verem os seus ordenados repostos, o IVA da restauração mais baixo e o poder de compra a aumentar, ou seja, o melhor de dois mundos.

Eu? Claro que queria isto tudo. Mas sei que não posso viajar pelo mundo mundo, quando pedi dinheiro ao banco para pagar a minha casa. Tenho um pouco de esquerda e um pouco de louca. Mas de louca, nem tanto. Que a mim custa-me. E muito!!

Vou continuar atenta. Vou mesmo, porque isto é como um bichinho que me desassossega. Mas cansa-me este desfile de vaidades. Este joguinho de poderes e, pior, estarmos nas mãos destes jogadores. Deste loucos e de esquerda. Destes loucos e de direita. Destes loucos que se misturam e confundem e não querem ter nada a ver uns com os outros.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Libelinha


Era assim conhecida a minha querida tia. Aliás, é assim que nos referimos a ela. Por causa do meu tio, seu marido, que carinhosamente a tratava desta forma. Se estivesse entre nós, hoje faria anos. Haveria bolo de aniversário. Moveríamos mundos e fundos para nos juntarmos a ela. Nas nossas agendas tudo seria adiado ou cancelado. Mas não nos passava pela cabeça faltar ao seu encontro.

Depois da sua partida fizemos um esforço para continuarmos a estar juntas neste dia. As primas. Sobretudo as primas. Muitas vezes ao fim do dia. Sem grandes combinações. Muitas vezes após um breve telefonema. Quando já nada fazia prever esse encontro. E conseguimos, de todas essas vezes, celebrar termos tido a minha querida tia nas nossas vidas.

Hoje... seria dia de festa... Por mais que queira não consigo sentir outra coisa senão um vazio imenso cá dentro. Especialmente hoje. Sempre achei que estes dias não deveriam ser especiais em relação a todos os outros em que sentimos a falta de alguém. Mas este ano isto está estranho. Isto, a que chamamos coração, saudade... nem sei...

O tempo não cura nada. O tempo aumenta a saudade, o vazio, a falta de respostas para a perda prematura que sofremos. Para a partida prematura de uma boa pessoa. O tempo não cura. Apenas aumenta a distância e atenua o hábito de vivermos sem essa presença. Mas em cada canto, na rua, em casa, no trabalho, sempre surge uma libelinha como que a dizer:

Estou por perto.

E nesses momentos consigo esboçar um sorriso. Interiormente.

(A esta hora, ainda é cedo para desmarcar o que tenho na agenda. Mas acrescento que tudo depende de um breve telefonema.)

- saudades, querida tia. saudades... -

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Para ti. Que me acompanhas há 20 anos


Só porque me apeteceu.

Postais de férias #9


Parque das Nações.

Quem é que não tem uma foto igual a esta?
Só quem nunca foi lá.

Aqui, no dia em que revisitámos o Pavilhão do Conhecimento.
Porque eles crescem. E esquecem-se.
E à medida que crescem ganham novos entendimentos sobre as coisas.

Foi giro vê-lo tão interessado em tudo. A querer perceber o que estava a ver.
Foi tão giro ver que ela não herdou as minhas vertigens. 
E fez o percurso na bicicleta suspensa. Como se não fosse nada de especial.

O registo de mais um dia em família.
Para mais tarde recordar.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Não vale a pena contrariar... :(


Não vale a pena manter a roupa de verão no armário, se depois temos de recorrer às gavetas do Outono/Inverno. Não vale a pena manter as sandálias à vista, quando os botins nos piscam o olho. E também não vale a pena manter o mobiliário de Verão na varanda, quando a chuva a deixa com uma imagem tão desoladora.

Já recolhi a mesa de madeira, as cadeiras, os coxins de tecido, os vasos decorativos, as velas e a toalha. Já recolhi a vontade de passar noites de Verão na varanda à conversa com o meu marido. E fico tão triste. Tento resistir ao máximo, na esperança da melhoria do tempo. Até que me canso. E guardo tudo até ao ano seguinte.

Chegou o dia. :(