segunda-feira, 25 de maio de 2015

5 anos depois...

Ainda continua a parecer mentira.
Ainda penso em pegar no telemóvel para lhe ligar.
Ainda tenho o seu número de telemóvel.
Ainda ouço a sua gargalhada contagiante no meu ouvido.
Ainda sinto a sua presença nos lugares onde fomos felizes.
Ainda comemoro o dia do seu aniversário.
Ainda sinto aqueles braços onde todos cabiam.
Ainda sinto o cheiro do seu regaço.
Ainda sinto o sabor dos seus cozinhados.
Ainda a ouço cantar as modas alentejanas que sabia de cor.
Ainda tenho vontade de ir a sua casa, ao seu encontro.
 
Ainda não acredito.
 
5 anos depois da partida da minha querida tia, ainda não consigo acreditar que as pessoas boas partem assim. Tão cedo. A sua missão ainda estava a meio. E a ausência tem-se transformado em saudade. Numa sôfrega saudade que me rasga por dentro. Que me embarga a voz. Que me embacia a vista. Quando menos espero. E, sobretudo, nos momentos mais felizes da minha vida. Aqueles em que eu queria que ela estivesse presente. Aqueles pequenos grandes momentos que a moviam, que a faziam acreditar na vida, que nunca a demoviam por qualquer outra obrigação.
 
A saudade.
Essa é demais.
E não passa. O tempo não é nosso amigo.
É apenas um ingrato de um parceiro que, por vezes, faz parecer tão longe e, outras vezes, faz parecer que foi ontem que partiu.
 
Saudades tia. Muitas saudades.

domingo, 24 de maio de 2015

A culpa é do acordo...

Estava eu doida, mas doida, por repetir mais de vinte vezes a mesma frase para eles. E o que que é que eles fizeram? Nada!! Nada!! Levantei-me, passei-me, pu-los a marchar e ficaram de castigo.
 
Depois, com o meu marido:
- Eles não percebem!! Eles não percebem!! Tu não vês? Uma pessoa diz para a direita e eles vão para a esquerda! Uma pessoa diz para a esquerda e eles vão para a direita!! É de loucos!!
 
Senhor meu marido, com uma grande calma, responde-me:
- Mas eu já sei porque é que eles não nos percebem. É que nós falamos no português antigo e eles só compreendem se falarmos com o novo acordo ortográfico...
 
Really?!? Se eu estava possessa imaginam como é que fiquei...

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Duarte (blognovela)

O desertor.  Podíamos dar-lhe este cognome. Ou o filho da mãe. Ou o traidor. Ou o futuro ex-marido da Madalena. Ou, pura e simplesmente, o homem. Entre três mulheres.
 
Conhecera a Madalena no funeral de um amigo comum. A sua figura vistosa prendeu-lhe logo a atenção e essa prisão também ela a sentiu, quando os seus olhos bateram nos dele. Pela primeira vez. E nesse dia, sem o saberem, apaixonaram-se.
 
Tinha casado por amor. Sabia perfeitamente que a vida da Madalena era pública, agitada, preenchida. Sabia, desde o dia em que a conheceu, que era obstinada. Fosse pelo que fosse, a Madalena era obstinada. Os objectivos a que se propunha era para serem cumpridos, ultrapassados, se possível, na perfeição e só por isso é que tinha alcançado o sucesso profissional que lhe dava notoriedade. E só por isso, por essa força maior que lhe reconheceu, soube logo que era com ela que queria casar. Bastou-lhe sentir a força da Madalena para que um frio na barriga o consumisse. E até que ela o aceitou, não descansou.


Sabia de antemão que casar com uma figura pública era viver na sombra. Não gostava de acompanhá-la em eventos públicos. Os flashes não o atraiam. Preferia gozar do sucesso da mulher de forma privada. Em casa. Quando lia o que ela escrevia. Quando a encontrava, inesperadamente, numa revista qualquer. Não lhe fazia confusão o sucesso da mulher. Apreciava-o e falava com orgulho. E vaidade. E sabia que era a ele que ela regressava. Todos os dias. E depois... como qualquer pessoa apaixonada... achou que com ele seria diferente. Que, depois do casamento, a Madalena iria estar mais tempo disponível. Presente. Com ele. Para ele.

Duarte era alto, moreno e de olhos verdes. Um homem muito bonito. Charmoso. Bem falante. Gerente de um banco e um autodidata em informática. Era fácil gostar dele e pretendentes não lhe faltavam. No banco era frequente sentir um certo assédio da parte das colegas e algumas clientes. Fazia-lhe bem ao ego. Gostava disso. Mas nunca lhe tinha passado pela cabeça trair a Madalena. Mesmo nos momentos em que se sentia sozinho. Aí dedicava-se aos computadores e não raras foram as vezes que ao chegar a casa ela o encontrou adormecido perante os ditos.

Mesmo na lua de mel, perante tanta exposição de um momento tão privado, fez por perceber que quem acompanhava a vida da sua recém-esposa queria saber de todos os pormenores. Fez por entender tantas publicações nas redes sociais. Tantas fotografias dela mesma. Fez por perceber.

Com o tempo a passar, começou a sentir-se sozinho. Muitas vezes. Demasiadas. Os amigos, casados, pouca disponibilidade tinham. Os computadores, por mais que gostasse deles, não conversavam. No frigorífico encontrava sempre e apenas uma refeição. Não havia barulho em casa. Não sentia vida em casa. E o silêncio começou a incomodá-lo.

Até que chegou o dia da famosa festa de aniversário da Matilde. E no dia seguinte uma mensagem da Isabel no Messenger. A gabá-lo. A convidá-lo para um café. A seduzi-lo.

Não resistiu muito tempo. A porta estava aberta. E a Isabel entrou.


(Leia aqui todos os capítulos)

7 km de pensamentos

Ontem arranquei ao final da tarde para mais uma caminhada. Sozinha. Como gosto de fazer. Andei a um ritmo tal que nem me apercebi disso. Só no fim quando olhei para o relógio e vi que tinha feito 7 km em 50 minutos é que me dei conta. Um novo record pessoal. Pareceu-me que tinha estado ausente durante aqueles 50 minutos. Que não me lembrava do caminho que tinha percorrido. Como que o tempo tivesse parado e nada tivesse acontecido.Como é que não me tinha apercebido? 

Só ao volante, no regresso a casa e aos poucos, é que comecei a dar-me conta do tempo. A dar-me conta dos meus pensamentos. Dos meus 7 km de pensamentos. Tinha caminhado com a Matilde, a Madalena, a Isabel, o Duarte, o resort de Tróia e todo o enredo que estou a criar. Tinha estruturado cenas entre os personagens e em cada pessoa com quem me cruzei tinha procurado uma característica que pudesse aproveitar. (Por falar nisso, devia ser proibido andar na rua sem camisola ou em biquíni. Que a vista às vezes até fica magoada com o que se vê...) 

Apreciei a paisagem. Enquadrei-me no cenário. E o barulho que estava na minha cabeça acabou numa remodelação da estrutura inicial da blognovela. Agora compreendo porque motivo as séries e as telenovelas mudam o rumo em função das audiências. Há palavras chave para o sucesso: sexo, sangue, traição, vingança. E quanto mais as pessoas se identificarem com o que estão a ver, melhor. 

Nos meus 7 km de pensamentos ainda estruturei o que ia fazer no final do dia e a agenda de hoje. E depois entendi porque passou tão rápido. As minhas pernas estavam ao ritmo do que se passava na minha cabeça. E eu que gosto tanto de silêncio, não consegui tê-lo. Além de tudo o que vai aqui dentro, agora ainda cá vivem mais estas 4 pessoas. Que conversam comigo. A toda a hora. :)

Boa tarde. Não deixem de sonhar.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

No quarto (blognovela)

Assim que entrou no quarto da amiga, a Matilde topou o portátil aberto, ligado e em cima da cama.
 
- Então, já ao computador tão cedo?
- Sim.
- Não me digas que estás a trabalhar?!?
- O que é que queres? Essa coisa a que chamam trabalho está entranhada em mim. - Respondeu piscando o olho à amiga.
 
Sentaram-se em cima da cama, mas a Madalena agarrou-se ao teclado.
 
- Quer dizer que já te sentes melhor...
- Dói-me um bocado a cabeça... mas isto já passa... - E mudando de assunto. - Olha, espreita aqui o que estou a fazer. A princesa Letizia apareceu em público com um casaco de uma estilista nossa.
- Ai foi? De quem?
- Lua Mendes.
- O quê?!? Quem é essa?
- É uma miúda muito gira que tem dado alguns passos na moda. Já andava de olho nela desde a penúltima edição do Moda Lisboa. Eu sabia que ela ia ter sucesso. Et voilá!
- Tristeza... é preciso uma espanhola vestir um casaco de uma portuguesa para se ser reconhecido...
- Ah pois é, bebé! O mundo da moda é assim mesmo! E, às vezes, é só uma questão de sorte!
- E o que é que estás a fazer?
- A rever o artigo que vamos publicar na nossa edição on-line. Não pode sair de qualquer maneira.
- Realmente... não percebo mesmo nada de moda e de como é que isso funciona... Estás aí toda entusiasmada por causa de um casaco...
- Não! Desculpa minha cara amiga! Um casaco português! Desenhado por uma portuguesa e fabricado em Portugal!!
 
Silêncio.
 
- Já estás melhor? Mesmo?
- Mesmo... - Respondeu sem vontade.
- Não parece.
- O que é que queres, Matilde?
- Para já gostava que olhasses para mim. Só consigo perceber como estás se te vir bem os olhos e tu bem sabes disso. Por isso é que não os tiras do écran!!
 
Num gesto repentino a Madalena fechou o portátil, colocou-o de lado, cruzou as pernas e virou-se de frente para a amiga a abrir ambos os olhos com as duas mãos:
- Pronto! Já me vês assim?
- Parva! És mesmo parva! - E desataram a rir.
- Estou preocupada contigo...
- Não fiques. Decidi que o Duarte já passou à história. Olha, só espero é que se tenha ido embora com a outra fulana que é para continuar a desfrutar do nosso fim-de-semana.
- Huuummm.... não me convences... o Duarte passou à história? Está bem... e olha, eles ainda estão cá.
 
A Madalena baixou a cabeça.
 
- Queria pedir-te desculpa.
- Tu?!? Porquê?
- Porque afinal de contas ela é minha amiga e foi em minha casa que se conheceram.
- Explica lá isso melhor. Em tua casa? E eu estava lá?
- Chegaste mais tarde. Foi no meu aniversário no ano passado, lembras-te? Estávamos à tua espera para cantarmos os parabéns...
- Xiiii... a sério?!? Não me lembro nada da fulana. Mas se ela é tua amiga como é que eu não a conheço?
- Sabes aquela que eu te falei dos vinhos Galvão a quem eu projectei o espaço exterior de uma quinta no Algarve?
- Aquela a que lhe morreram os pais?
- Sim, essa!
- Mas essa gaja é uma ricalhaça. O que é que ela viu no Duarte?
- Oh... sei lá...
- Também não me interessa! Agora não há volta a dar. E tu não tens de pedir desculpas por nada, ok? Aliás, eu é que tenho de te agradecer que eu cá só me lembro de ter desmaiado e depois de acordar aqui. Como é que conseguiste trazer-me para cima?
- Foi o Duarte.
 
Os olhos da Madalena arregalaram-se. E brilharam.
 
- O Duarte?!? Como? Ao colo?
- Sim...
- E tu deixaste que ele entrasse aqui no meu quarto?
- Madalena! Querias o quê? Que ele te deixasse à porta?
- Mas quem é que me despiu e vestiu-me o pijama?
- Foi o Duarte.
- O QUÊ???
- Ei, calma! Estou a brincar. Fui eu! Tonta... mas bem que gostavas que tivesse sido ele... - Disse baixinho.
 
A Madalena olhou a amiga de soslaio. E recostou-se nas almofadas. E voltou a pegar no computador. Entretanto bateram à porta.
 
- Não que digas que é ele?
- Vamos descobrir? - Respondeu a Matilde a sorrir. E entretanto só se ouviu:
- Obrigado. Deixe estar que eu levo. Até já. - E depois de fechar a porta a Matilde voltou-se para a amiga:
- Toma lá o pequeno-almoço. Pedi que o viessem trazer ao quarto. Essa dor de cabeça não deve ser só da queda...
- Tu não existes...
- E tu vê lá se comes. Deixa o computador, Madalena!!
- Já vai, já vai... não vês que tenho de publicar isto?
 
Entretanto a Matilde chegou-se à varanda e viu que o Duarte estava a ler, sentado à beira da piscina. Disfarçou.
- Olha lá, não vamos passar os dias aqui enfiadas, certo? Vamos dar uma volta...
- Hã... sim... vamos... mais tarde. Eu ainda queria suar um bocado no ginásio, depois podemos sair e ir até à praia. - Propôs a Madalena.
- Está bem. Pode ser. Então vê lá se comes que eu vou apanhar um bocado de sol. Vou para a piscina. Qualquer coisa apita.
- Ok... - Respondeu de voz arrastada.
 
Depois de ver o Duarte a Matilde queria ir ao seu encontro, sobretudo porque estava sozinho. E depois de se aperceber que a "outra" era a herdeira dos vinhos, também a Madalena queria ficar sozinha. De volta do computador...


(Leia aqui todos os capítulos)