sexta-feira, 15 de maio de 2015

Eu+tu+ele+ela = Nós

No dia das famílias, a nossa equação.
O resultado? Uma família como outra qualquer! :)
 
Com dias melhores, dias piores. Dias de alegria, dias de tristeza. Dias em que nos lembramos da sorte que temos, dias em que não valorizamos essa mesma sorte.
 
Mas TODOS os dias... vividos com amor... (e alguma loucura à mistura)
 



 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Acabou tudo a chorar...

Na escola da minha filha as mães foram convidadas a partilhar histórias sobre esta coisa da maternidade. E eu que adivinhava lamechices, daquelas em que nós as mães não temos vergonha de embarcar, não estava muito para aí virada.

Andei uns dias a pensar sobre o assunto. As histórias que conhecia não me inspiravam e estava à espera que acontecesse, exactamente, aquilo que aconteceu: ouvir mais do mesmo. O que não tem mal nenhum, atenção! O tema era igual para todos, por isso variar era difícil. 

Pensei no impacto que poderia ter contar-lhes a minha história. Não a de mãe. Mas a de uma filha sem mãe. Uma mulher que hoje é mãe sem nunca alguém ter ocupado esse lugar na sua vida.

Escolhi meia dúzia de fotos, montei um powerpoint em dois minutos e comecei assim:

Esta sou eu com 8 meses. A idade com que deixei de ter mãe.


O silêncio instalou-se de forma arrebatadora. Numa turma com tantos problemas de comportamento, não pensei que tivesse um efeito tão imediato. Mas os miúdos calaram-se. E eu continuei a explicar-lhes o outro lado. Aquele que eles não conhecem. Aquele lado que eu entendi que poderia servir-lhes para valorizarem as suas mães.

Pedi-lhes que não tivessem vergonha de chegar à escola de mão dada com a mãe ou com o pai e muito menos de darem um beijo ou um abraço. Pedi-lhes que soubessem agradecer todo o esforço que as mães fazem para que eles venham a ser adultos felizes e realizados. Dei-lhes o meu exemplo. Este exemplo de que já vos falei. E ficámos todos emocionados.


Aqui, com 4 anos. Falei-lhes das várias ausências que senti durante a infância.

Disse-lhes tudo o que considerei importante na relação entre mãe e filho. Disse-lhes que era uma sorte terem alguém a ralhar com eles, a chamá-los à atenção sobre os estudos, o quarto arrumado, o casaco quando se sai à rua. Disse-lhes que depois disso tudo há o colinho de mãe e uma coisa infinita que se sobrepõe a todos os limites da paciência, da exaustão e outros que as mães atingem: o amor ilimitado. E isso é inestimável. Ter uma mãe é inestimável.

Choraram. Meninos e meninas. Mães e a directora de turma. Eu contive-me. Pois estas coisas que fazem parte de nós, que são a nossa história, vivem connosco desde sempre. Não passei por uma perda traumatizante. Não me lembro de nada. Tinha 8 meses. Mas hoje, com 37 anos, sinto mais essa ausência do que quando era criança. Aliás, comecei a senti-la na idade adulta. E depois de ser mãe ainda me custa mais compreender a escolha que a minha fez.

Mas isso são outros quinhentos.

As outras mães agradeceram-me. Por ter partilhado com os filhos, através de um exemplo real, a vida tal como ela é.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Isabel Galvão. A outra (blognovela)

Ser "a outra" tem as suas vantagens. Nada de grandes obrigações. Nada de camisas para passar ou meias para dobrar. Nada de ter alguém ali em casa à espera do jantar na mesa ou de grandes explicações sobre onde andou cada um ou com quem se esteve. Apenas os momentos bons. Jantares em restaurantes in. Fins-de-semana em spot's da moda. Noites de diversão com gente gira em sítios giros. Uma ou outra noite um em casa do outro. E pronto! Os almoços e os jantares chatos em família também ficam de parte. Receber, contrariados, pessoas em casa, também. Fazer fretes, nem se fala.
 
Por isso a Isabel gostava de ser "a outra". Estava habituada a uma vida de lorde. Tinha bem consciência do que queria. Tudo menos compromissos que a obrigassem a grandes alterações da sua vida independente. Pois estava "casada" com a sua herança. Preservá-la, era a única coisa que a movia. E mesmo isso não lhe dava grande trabalho. Pois o império que os pais lhe deixaram depois de morrerem num trágico acidente de viação, quase que andava sobre rodas por si só.
 
Isabel Galvão era sócia maioritária numa empresa de  produção e comercialização de vinhos do Alentejo da conhecida herdade, entre os entendidos, Sobreiro & Galvão. Acumulava prémios nacionais e internacionais e fora precisamente o reconhecimento internacional a maior apólice de seguro que os seus pais granjearam.

Não tinha irmãos, não era casada, nem tinha filhos. Viajava em função das feiras de vinhos. Conhecia meio mundo e era respeitada por todos os enólogos. Apesar de também estes saberem que o mérito da marca era dos seus pais. A herdade estava referenciada como a única da Europa que produzia vinho com características únicas. Um vinho doce, encorpado, amadurecido à antiga nas frescas caves da herdade, de castas indígenas que lhe conferia fortes características regionais e graças à introdução de variedades forâneas, última grande aposta dos pais antes de morrerem, o vinho da herdade tinha reforçado a sua liderança vitivinícola.

Tinha, portanto, uma vida confortável.

Mas era uma pessoa fria. Calculista. Aquilo que lhe interessava, apenas e só o que lhe interessava, é que a levavam a fazer alguma coisa. E fisgar o Duarte foi algo que ela quis. Conheceu-o em casa da amiga que tinha em comum com a Madalena e logo ali tirou-lhe as medidas. Se era casado não lhe fazia diferença. Tinha tudo aquilo que ela gostava e isso bastava. Era giro, bem sucedido profissionalmente e, na verdade, ser casado também era algo a que ela achava piada. Pois, assim, o desafio era maior. E desafios destes, em que ela podia provar a si mesma que podia tudo, não era coisa que ignorasse.

Começou a sua investida logo no dia a seguir. Primeiro, através do facebook. Depois, através de telefone. E daí a um encontro pessoal foi um passo. Na esplanada do Adamastor, em Lisboa. E Duarte, que se sentiu especial pela atenção que esta mulher lhe dava, não faltou.

Isabel Galvão. Fixem este nome. Ainda vai dar muito que falar.

Fui ignorada logo pela manhã

Bom dia a toda a gente! Eu sou o despertador!

É assim que ele nos acorda. Ao fim de semana. E durante a semana, que é quando dá jeito que a meia-leca se levante sem grandes trabalhos, é que lhe dá para virar para um lado, virar para o outro e nada de levantar-se. Às vezes só mesmo com uma grua.

Esta manhã, como sempre, antes de sair fui dar-lhe um beijinho. Mas esta manhã abriu os olhos para mim. Começou a sorrir. Com ar de malandro. Como quem dia És tu... Que bom... Não disse nada. Que isto entre mãe e filho não são precisas palavras para comunicar. Em determinados momentos. E antes da adolescência, está bom de ver. Mas decidi dizer-lhe:

- Hoje sou eu o teu despertador. Toca a levantar.

Virou-se. Não sem antes retribuir o beijinho. Sorriu. E virou-se para o outro lado. E com a maior lata deste mundo ainda me disse:

- Tapa-me aí as costas. :)

É tão bom ser criança.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Entretanto, em Tróia... (blognovela)

Por causa dos gin´s a Madalena já não sabia bem o que estava a fazer. E nem o facto de ter reparado na luz do telemóvel no outro lado da piscina ao mesmo tempo que fazia a chamada, fez com que percebesse o que é que se estava a passar.

- Desliga isso, Madalena!! O que é que lhe vais dizer? Pára!! - Dizia-lhe a amiga enquanto tentava tirar-lhe o telemóvel da mão. Em vão.
- Nunca mais atende...
- Então desliga!
Na chaise longue um vulto admirava o visor de um telemóvel. Hesitante. Surpreendido. Sem saber se atender ou não.
- Não atendas... estamos aqui tão bem... - Pediu-lhe a acompanhante.
- Mas a Madalena nunca me liga... e se for alguma coisa grave...?

A decisão superou a sua hesitação.

- Estou?
- Oláááááá!!!!
- Madalena?!?
- Estáááás boooom? - Perguntava de voz arrastada e entusiasmada.
- Madalena? Ei, está tudo bem?
- Tudo numa boa. E tu?

Desatou a gargalhar. Muito alto. Tão alto que o vulto da chaise longue olhou em redor à procura daquela gargalhada que conhecia tão bem.

- Estou? Estou? - Chamava ela.
- Madalena! És tu que estás aí? Do outro lado da piscina?

Lembram-se do Ice Bucket Challenge? Foi assim que ela se sentiu ao perceber que o futuro ex-marido era o homem que estava a admirar as estrelas. Acompanhado por outra mulher. De quem ela disse que aquilo sim, era a definição de "amor e uma cabana". Mais do que um banho gelado de água fria, a Madalena ficou paralisada. Quando o viu aproximar-se.

- Olá Duarte! Por aqui...? Que coincidência? - Tentou disfarçar a amiga.
- Olá! Realmente... uma coincidência... completamente inesperada esta cena...
- Olha, não ligues ao telefonema da Madalena. Não fazíamos ideia que estavas aqui. Acredita, não se vê nada nesta escuridão. Ela apenas bebeu um bocado e começou a falar de ti, pegou no telemóvel e olha! Ligou-te! Deixa-a que eu levo-a para o quarto. Vamos, querida. Vem comigo.

Não se mexia. Não falava. Parecia, até que não respirava.

- Já te chamei, Madalena! Vamos subir!! - Insistiu a amiga. Sem sucesso.
- Olha Duarte, vai-te embora! Depois falo contigo!
- ISSO! Vai-te embora! És bom nessa arte de ir embora! Vai! - Começou a Madalena a disparar sem levantar os olhos da água.
- Não sejas injusta. Atendi-te o telefone, não foi? E quando percebi que estavas aqui vim logo ter contigo.
- E?!? Injusta?!?
- E... vim saber porque me ligavas...
- Desculpa lá incomodar a tua noite de amor ao luar. Não fazia ideia que estavas aqui. Com tanto hotel no mundo e tinhas logo de estar aqui!!
- Digo o mesmo, não achas?

Silêncio.

- Já pensaste?
- Se já pensei?!?
- Sim! Se já pensaste no que te disse. Se não terá sido um impulso... a tua saída de casa...
- Olha Madalena... nem sei o que dizer... e não me parece que estejas nas melhores condições para falarmos seja do que for...
- Porquê?
- Porque para falarmos terás de estar sóbria!!

Uma quarta pessoa aproximou-se deles. Madalena sentiu-o. E continuou paralisada. Com os olhos postos na água.

- Não acredito Duarte... não posso acreditar... - Começou a amiga.
- Olá! - Era a Isabel. A outra. - Estás boa?
- Isabel. És tu Isabel?

E finalmente a Madalena levantou os olhos da água.
- O quê? Tu conheces esta tipa?
- Conheço...
- E TU SABIAS DISTO?
- NÃO! SIM! Não, claro que não! Sabia que a Isabel andava com um homem casado, mas não sabia que esse homem casado era o teu marido!! Isabel? Como é que foste capaz? Tu sabias que o Duarte era meu amigo!!
- Sim, sabia. E então?
- E então?!? E ENTÃO?!?
- Sim, qual é o teu stresse? Disseste bem. O Duarte era teu amigo. Não teu marido.

Com toda a genica deste mundo a Madalena tirou os pés de dentro de água para se levantar, mas meio atabalhoada com os gin's, com a situação e com o vestido comprido, embaraçou-se, escorregou e caiu. Bateu com a cabeça no chão e desmaiou com a queda.

- Madalena! Madalena! - Começou o Duarte em aflição.
- Ó pá... deixa lá que isso são os copos. Então mas agora tenho o fim de semana estragado por causa desta frustrada? Era só o que me faltava! - Alvitrou a Isabel.
- Como é que és capaz de dizer uma coisa dessas? Como? Que desilusão, Isabel... Que desilusão. - Disse-lhe a amiga. E voltando-se para o Duarte: 
- Pelo menos ajuda-me a levá-la para o quarto.

E assim aconteceu.