sexta-feira, 15 de maio de 2015

Eu+tu+ele+ela = Nós

No dia das famílias, a nossa equação.
O resultado? Uma família como outra qualquer! :)
 
Com dias melhores, dias piores. Dias de alegria, dias de tristeza. Dias em que nos lembramos da sorte que temos, dias em que não valorizamos essa mesma sorte.
 
Mas TODOS os dias... vividos com amor... (e alguma loucura à mistura)
 



 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Acabou tudo a chorar...

Na escola da minha filha as mães foram convidadas a partilhar histórias sobre esta coisa da maternidade. E eu que adivinhava lamechices, daquelas em que nós as mães não temos vergonha de embarcar, não estava muito para aí virada.

Andei uns dias a pensar sobre o assunto. As histórias que conhecia não me inspiravam e estava à espera que acontecesse, exactamente, aquilo que aconteceu: ouvir mais do mesmo. O que não tem mal nenhum, atenção! O tema era igual para todos, por isso variar era difícil. 

Pensei no impacto que poderia ter contar-lhes a minha história. Não a de mãe. Mas a de uma filha sem mãe. Uma mulher que hoje é mãe sem nunca alguém ter ocupado esse lugar na sua vida.

Escolhi meia dúzia de fotos, montei um powerpoint em dois minutos e comecei assim:

Esta sou eu com 8 meses. A idade com que deixei de ter mãe.


O silêncio instalou-se de forma arrebatadora. Numa turma com tantos problemas de comportamento, não pensei que tivesse um efeito tão imediato. Mas os miúdos calaram-se. E eu continuei a explicar-lhes o outro lado. Aquele que eles não conhecem. Aquele lado que eu entendi que poderia servir-lhes para valorizarem as suas mães.

Pedi-lhes que não tivessem vergonha de chegar à escola de mão dada com a mãe ou com o pai e muito menos de darem um beijo ou um abraço. Pedi-lhes que soubessem agradecer todo o esforço que as mães fazem para que eles venham a ser adultos felizes e realizados. Dei-lhes o meu exemplo. Este exemplo de que já vos falei. E ficámos todos emocionados.


Aqui, com 4 anos. Falei-lhes das várias ausências que senti durante a infância.

Disse-lhes tudo o que considerei importante na relação entre mãe e filho. Disse-lhes que era uma sorte terem alguém a ralhar com eles, a chamá-los à atenção sobre os estudos, o quarto arrumado, o casaco quando se sai à rua. Disse-lhes que depois disso tudo há o colinho de mãe e uma coisa infinita que se sobrepõe a todos os limites da paciência, da exaustão e outros que as mães atingem: o amor ilimitado. E isso é inestimável. Ter uma mãe é inestimável.

Choraram. Meninos e meninas. Mães e a directora de turma. Eu contive-me. Pois estas coisas que fazem parte de nós, que são a nossa história, vivem connosco desde sempre. Não passei por uma perda traumatizante. Não me lembro de nada. Tinha 8 meses. Mas hoje, com 37 anos, sinto mais essa ausência do que quando era criança. Aliás, comecei a senti-la na idade adulta. E depois de ser mãe ainda me custa mais compreender a escolha que a minha fez.

Mas isso são outros quinhentos.

As outras mães agradeceram-me. Por ter partilhado com os filhos, através de um exemplo real, a vida tal como ela é.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Isabel Galvão. A outra (blognovela)

Ser "a outra" tem as suas vantagens. Nada de grandes obrigações. Nada de camisas para passar ou meias para dobrar. Nada de ter alguém ali em casa à espera do jantar na mesa ou de grandes explicações sobre onde andou cada um ou com quem se esteve. Apenas os momentos bons. Jantares em restaurantes in. Fins-de-semana em spot's da moda. Noites de diversão com gente gira em sítios giros. Uma ou outra noite um em casa do outro. E pronto! Os almoços e os jantares chatos em família também ficam de parte. Receber, contrariados, pessoas em casa, também. Fazer fretes, nem se fala.
 
Por isso a Isabel gostava de ser "a outra". Estava habituada a uma vida de lorde. Tinha bem consciência do que queria. Tudo menos compromissos que a obrigassem a grandes alterações da sua vida independente. Pois estava "casada" com a sua herança. Preservá-la, era a única coisa que a movia. E mesmo isso não lhe dava grande trabalho. Pois o império que os pais lhe deixaram depois de morrerem num trágico acidente de viação, quase que andava sobre rodas por si só.
 
Isabel Galvão era sócia maioritária numa empresa de  produção e comercialização de vinhos do Alentejo da conhecida herdade, entre os entendidos, Sobreiro & Galvão. Acumulava prémios nacionais e internacionais e fora precisamente o reconhecimento internacional a maior apólice de seguro que os seus pais granjearam.

Não tinha irmãos, não era casada, nem tinha filhos. Viajava em função das feiras de vinhos. Conhecia meio mundo e era respeitada por todos os enólogos. Apesar de também estes saberem que o mérito da marca era dos seus pais. A herdade estava referenciada como a única da Europa que produzia vinho com características únicas. Um vinho doce, encorpado, amadurecido à antiga nas frescas caves da herdade, de castas indígenas que lhe conferia fortes características regionais e graças à introdução de variedades forâneas, última grande aposta dos pais antes de morrerem, o vinho da herdade tinha reforçado a sua liderança vitivinícola.

Tinha, portanto, uma vida confortável.

Mas era uma pessoa fria. Calculista. Aquilo que lhe interessava, apenas e só o que lhe interessava, é que a levavam a fazer alguma coisa. E fisgar o Duarte foi algo que ela quis. Conheceu-o em casa da amiga que tinha em comum com a Madalena e logo ali tirou-lhe as medidas. Se era casado não lhe fazia diferença. Tinha tudo aquilo que ela gostava e isso bastava. Era giro, bem sucedido profissionalmente e, na verdade, ser casado também era algo a que ela achava piada. Pois, assim, o desafio era maior. E desafios destes, em que ela podia provar a si mesma que podia tudo, não era coisa que ignorasse.

Começou a sua investida logo no dia a seguir. Primeiro, através do facebook. Depois, através de telefone. E daí a um encontro pessoal foi um passo. Na esplanada do Adamastor, em Lisboa. E Duarte, que se sentiu especial pela atenção que esta mulher lhe dava, não faltou.

Isabel Galvão. Fixem este nome. Ainda vai dar muito que falar.

Fui ignorada logo pela manhã

Bom dia a toda a gente! Eu sou o despertador!

É assim que ele nos acorda. Ao fim de semana. E durante a semana, que é quando dá jeito que a meia-leca se levante sem grandes trabalhos, é que lhe dá para virar para um lado, virar para o outro e nada de levantar-se. Às vezes só mesmo com uma grua.

Esta manhã, como sempre, antes de sair fui dar-lhe um beijinho. Mas esta manhã abriu os olhos para mim. Começou a sorrir. Com ar de malandro. Como quem dia És tu... Que bom... Não disse nada. Que isto entre mãe e filho não são precisas palavras para comunicar. Em determinados momentos. E antes da adolescência, está bom de ver. Mas decidi dizer-lhe:

- Hoje sou eu o teu despertador. Toca a levantar.

Virou-se. Não sem antes retribuir o beijinho. Sorriu. E virou-se para o outro lado. E com a maior lata deste mundo ainda me disse:

- Tapa-me aí as costas. :)

É tão bom ser criança.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Entretanto, em Tróia... (blognovela)

Por causa dos gin´s a Madalena já não sabia bem o que estava a fazer. E nem o facto de ter reparado na luz do telemóvel no outro lado da piscina ao mesmo tempo que fazia a chamada, fez com que percebesse o que é que se estava a passar.

- Desliga isso, Madalena!! O que é que lhe vais dizer? Pára!! - Dizia-lhe a amiga enquanto tentava tirar-lhe o telemóvel da mão. Em vão.
- Nunca mais atende...
- Então desliga!
Na chaise longue um vulto admirava o visor de um telemóvel. Hesitante. Surpreendido. Sem saber se atender ou não.
- Não atendas... estamos aqui tão bem... - Pediu-lhe a acompanhante.
- Mas a Madalena nunca me liga... e se for alguma coisa grave...?

A decisão superou a sua hesitação.

- Estou?
- Oláááááá!!!!
- Madalena?!?
- Estáááás boooom? - Perguntava de voz arrastada e entusiasmada.
- Madalena? Ei, está tudo bem?
- Tudo numa boa. E tu?

Desatou a gargalhar. Muito alto. Tão alto que o vulto da chaise longue olhou em redor à procura daquela gargalhada que conhecia tão bem.

- Estou? Estou? - Chamava ela.
- Madalena! És tu que estás aí? Do outro lado da piscina?

Lembram-se do Ice Bucket Challenge? Foi assim que ela se sentiu ao perceber que o futuro ex-marido era o homem que estava a admirar as estrelas. Acompanhado por outra mulher. De quem ela disse que aquilo sim, era a definição de "amor e uma cabana". Mais do que um banho gelado de água fria, a Madalena ficou paralisada. Quando o viu aproximar-se.

- Olá Duarte! Por aqui...? Que coincidência? - Tentou disfarçar a amiga.
- Olá! Realmente... uma coincidência... completamente inesperada esta cena...
- Olha, não ligues ao telefonema da Madalena. Não fazíamos ideia que estavas aqui. Acredita, não se vê nada nesta escuridão. Ela apenas bebeu um bocado e começou a falar de ti, pegou no telemóvel e olha! Ligou-te! Deixa-a que eu levo-a para o quarto. Vamos, querida. Vem comigo.

Não se mexia. Não falava. Parecia, até que não respirava.

- Já te chamei, Madalena! Vamos subir!! - Insistiu a amiga. Sem sucesso.
- Olha Duarte, vai-te embora! Depois falo contigo!
- ISSO! Vai-te embora! És bom nessa arte de ir embora! Vai! - Começou a Madalena a disparar sem levantar os olhos da água.
- Não sejas injusta. Atendi-te o telefone, não foi? E quando percebi que estavas aqui vim logo ter contigo.
- E?!? Injusta?!?
- E... vim saber porque me ligavas...
- Desculpa lá incomodar a tua noite de amor ao luar. Não fazia ideia que estavas aqui. Com tanto hotel no mundo e tinhas logo de estar aqui!!
- Digo o mesmo, não achas?

Silêncio.

- Já pensaste?
- Se já pensei?!?
- Sim! Se já pensaste no que te disse. Se não terá sido um impulso... a tua saída de casa...
- Olha Madalena... nem sei o que dizer... e não me parece que estejas nas melhores condições para falarmos seja do que for...
- Porquê?
- Porque para falarmos terás de estar sóbria!!

Uma quarta pessoa aproximou-se deles. Madalena sentiu-o. E continuou paralisada. Com os olhos postos na água.

- Não acredito Duarte... não posso acreditar... - Começou a amiga.
- Olá! - Era a Isabel. A outra. - Estás boa?
- Isabel. És tu Isabel?

E finalmente a Madalena levantou os olhos da água.
- O quê? Tu conheces esta tipa?
- Conheço...
- E TU SABIAS DISTO?
- NÃO! SIM! Não, claro que não! Sabia que a Isabel andava com um homem casado, mas não sabia que esse homem casado era o teu marido!! Isabel? Como é que foste capaz? Tu sabias que o Duarte era meu amigo!!
- Sim, sabia. E então?
- E então?!? E ENTÃO?!?
- Sim, qual é o teu stresse? Disseste bem. O Duarte era teu amigo. Não teu marido.

Com toda a genica deste mundo a Madalena tirou os pés de dentro de água para se levantar, mas meio atabalhoada com os gin's, com a situação e com o vestido comprido, embaraçou-se, escorregou e caiu. Bateu com a cabeça no chão e desmaiou com a queda.

- Madalena! Madalena! - Começou o Duarte em aflição.
- Ó pá... deixa lá que isso são os copos. Então mas agora tenho o fim de semana estragado por causa desta frustrada? Era só o que me faltava! - Alvitrou a Isabel.
- Como é que és capaz de dizer uma coisa dessas? Como? Que desilusão, Isabel... Que desilusão. - Disse-lhe a amiga. E voltando-se para o Duarte: 
- Pelo menos ajuda-me a levá-la para o quarto.

E assim aconteceu.

São caracóis, senhor! São caracóis!

No meu tempo não havia criança que não tivesse passado pela extraordinária experiência de ter uma caixa de sapatos cheia de bichos da seda. Assistir à sua metamorfose era o ponto alta de cada Primavera. E ver que daqueles casulos nunca saía uma borboleta colorida era o ponto baixo...

Mas senhor meu filho decidiu que os bichos da seda são uma coisa assim para o démodé. Que tinha de inovar e trazer para casa um bicho mais despachado cuja interacção se revelasse muito maior do que com a que eu tinha com os bichos da seda. Daí que decidiu trazer caracóis. Caracóis!

É verdade que em tempos eu e o senhor seu pai pensámos em dedicar-nos à helicicultura, mas assim à grande! Visitámos fábricas, terrenos onde se faz a criação destes bichos, como comercializá-los já cozinhados, como evitar a importação, etc., etc. Isto numa altura em que nos apercebemos que em Portugal não havia caracol que chegasse para acompanhar as jolas nos sunsets que se fazem a cada esquina por esse país fora. Isto quando nos apercebemos que a maioria da parte dos caracóis que consumimos são importados. De Marrocos.

Desistimos. Já não me lembro porquê... (se calhar fui eu que me enojei com a nhanha dos ditos...)

Agora o nosso petiz, sem fazer ideia desta história, todas as semanas arranja uma caixa de cartão maior. Pois todas as semanas há mais caracóis para alimentar. Que ele transporta, cuidadosamente, para casa.

Alimenta-os com folhas de alface e já lhe disseram que nestum também é bom! Talvez fiquem assim... gourmet, não faço ideia. E acho que não vou saber! Que o rapaz já me disse que aqueles caracóis não são para comer.

Só comigo!!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Um perfil público (blognovela)

Uma simples pesquisa no Google revelava toda uma identidade da nossa Madalena. Editora de moda de uma revista de sucesso. Autora de inúmeros artigos sobre estilistas, modelos, tendências. Presença obrigatória e aguardada em todos os grandes acontecimentos da área pelo mundo fora. Comentadora num programa de televisão. A cara portuguesa além fronteiras de quem mais sabia sobre o assunto em Portugal. Nova. Com 33 anos de idade. Bonita. Bom... vistosa será o termo mais certo! Mas muito, muito invejada por inúmeras mulheres. Talvez por todas as que a conheciam.

Mas como em todas as histórias de princesas, há uma realidade desconhecida para aqueles que querem viver a vida dos outros. Madalena sentia isso agora na pele. O sucesso profissional tinha-lhe toldado as prioridades. Para ela tudo era dado como certo. Pois era assim o meio em que vivia. Bastava abrir a boca com qualquer sugestão que logo alguém se encarregava de torná-la numa realidade. E esse era um poder que tinha e que muito lhe agradava.

Sabia que na revista todos contavam consigo. Sabia mesmo que a revista dependia de si. Não tinha um minuto de descanso. Muito trabalho. Muitas reuniões. Muitas festas. Muitos eventos importantíssimos a que nunca, mas nunca podia faltar. Vingar nesta área, tão cedo, era raro. E Madalena sabia-o. Sabia-o muito bem. E à medida que o seu sucesso foi sendo uma realidade, à medida que consolidava a sua imagem, através do seu trabalho, crescia também a sua ambição. Cada vez mais.

Era o centro das atenções. Em todas as ocasiões. Pela roupa que vestia, pelos sapatos que calçava, pelos acessórios que usava. Pelo longo e brilhante cabelo castanho que tinha sempre impecavelmente bem penteado. Pela maquilhagem sempre no ponto. E pelo sorriso que exibia que levava todos a acreditarem no que viam: uma mulher feliz.

Mesmo quando foi abandonada pelo futuro ex-marido e esteve duas semanas sem pôr os pés na revista, não deixou de receber telefonemas, responder a e-mail's, validar propostas, reler artigos, escolher imagens, validar títulos, falar com patrocinadores, reunir por telefone (em alta voz). Chorava, logo de seguida, mas nunca ninguém desconfiou, sequer, sobre o verdadeiro motivo da sua ausência.

Teve o casamento de sonho de qualquer mulher. E até isso estava no Google, nas imagens do Google. Um vestido desenhado exclusivamente para si, com tecidos importados, especialmente para si. Num cenário idílico. Sem qualquer constrangimento. Um casamento tal e qual como qualquer mulher com vontade de casar desejava: à medida dos seus sonhos.

Viajou com o marido em lua de mel durante um mês. E não deixou os seus seguidores no instagram sem resposta. Todos os dias partilhava o que fazia, onde estava, o outfit do dia, as compras que fazia, a felicidade que vivia. E até o número de seguidores nesse mês aumentou significativamente. Aumentando, também, o seu valor, a sua imagem. Ela sabia-o. E de tão consciente que estava sobre isso não era por acaso que agia assim. Não dava ponto sem nó. Calculava sempre o impacto das suas acções públicas. Através dos seus perfis públicos. E foi mais o tempo que passou de volta deles do que, verdadeiramente, a viver a sua lua de mel.

Foi esse o primeiro sinal daquilo que mais tarde despoletou a saída de Duarte. Não que ele não soubesse com quem estava a casar. Mas os homens são como as mulheres. Quando amam. Também têm esperança que, com eles, as coisas sejam diferentes. Mesmo que alguém os tenha avisado atempadamente.

domingo, 10 de maio de 2015

Deixei o homem de rastos

Ontem consegui pôr Senhor Meu Marido a fazer exercício. Meia horinha, mas consegui! Suava, suava, suava...
 
Já em casa dizia-me ele:
 
- Não achas que já estou melhor? (enquanto encolhia a barriga)
- Então não? Muito melhor! Pronto, agora já podes respirar!
 
A sério, este homem dá-me cabo do juízo. Primeiro que mexa um pézinho, ui!!! Depois diz à boca cheia que era muito rápido a correr na escola, que jogava à bola como avançado e que jogar ténis é que é a praia dele. Bom, o equipamento lá o tem. Enfiado na garagem. Motivação, também. Que eu cá não lhe dou descanso. Mas vontade, senhores... vontade.... e sem vontade... sem querer... não se chega a lado nenhum.
 
Um destes dias disse-lhe para juntar os pés, endireitar as costas, olhar para baixo e perguntei-lhe o que é conseguia ver. Assim tipo as grávidas, que a determinada altura não conseguem ver nada. Pois, não conseguiu ver nada. Assim, como as grávidas em estado avançado... Mas continua a achar-se a última coca-cola do deserto... Que é entroncado e que a barriga faz parte do "tronco"... Really????
 
Algum amigo caridoso que me faça o favor de levar o homem para a rua com o intuito de fazer exercício? Anyone? Muito agradecida.

(Pode ser que com esta humilhação declaração pública ele se envergonhe e comece a fazer qualquer coisinha...)

sábado, 9 de maio de 2015

Então, mas afinal, quem é a Madalena?

É a pergunta que mais me fazem desde que escrevi este, este e este texto. Dá-me gozo, confesso, esta curiosidade. Dá-me gozo saber que a malta que vai passando por aqui volta por causa dela, da Madalena. Porque querem saber o que é que se passa e, sobretudo, se conseguem perceber quem é! (neste caso para os que me conhecem...)
 
Pois muito bem, a Madalena é uma personagem que eu criei para escrever uma espécie de blognovela (quem o baptizou assim foi o Senhor Meu Marido). Uma história, puramente ficcionada, que vou contando em capítulos. Sem dúvida nenhuma baseada na vida real, nas pessoas que conheço, nas histórias das pessoas que me contam na 3.ª pessoa.
 
Todos nós somos isto; história. Todos nós temos uma história dentro de nós e a Madalena é, apenas, a personagem que, aos poucos, vai revelando aquilo de que trata este blog:
 
A vida tal como ela é.
 
Se ficaram curiosos com o que se passou até agora, fiquem por aí. A blognovela vai continuar! ;)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Um fim de semana imprevisível (blognovela)

Depois do telefonema do seu futuro ex-marido, Madalena ficou tão irritada que decidiu sair de Lisboa por uns dias. Aproximava-se um fim-de-semana longo, fruto de um calendário rico em feriados, por isso não hesitou. Ligou à amiga que queria dar uma voltinha no BM do Jorge, combinaram tudo rapidamente e numa 5.ª feira ao final do dia zarparam em direcção a Tróia.
 
Estava na moda ir para Tróia. Nem longe, nem perto de Lisboa. Todo um conjunto hoteleiro por descobrir com programas de spas's, massagens de última geração e spot's cheios de gente gira. Era o destino ideal. Sobretudo porque ainda era uma novidade para ela. E Senhora Dona Madalena era uma pessoa cool. Sempre actualizada. Sempre em altas.
 
Jantaram um sushi fabuloso, beberam uns gin's da moda e divertiram-se a tirar fotografias à comida, ao espaço, à vista e a elas próprias, está bom de ver. A noite estava quente e a piscina ali ao lado a pedir um banho noturno. Do outro lado da piscina uma casal aninhado numa chaise longue observava as estrelas e até o ser mais céptico à face da terra sobre essa coisa que é o amor, assim, ao longe, por momentos acreditaria que é possível viver desse e por esse sentimento.
 
Madalena descalçou-se, arregaçou o vestido fluido cor de salmão que combinava na perfeição com seu o tom de pele e sentou-se à beira da piscina com os pés dentro de água e um copo de bebida na mão. Parou a observá-los. Parou para pensar que assim, como aquele casal, só tinha estado quando namorava com o seu futuro ex-marido. E não se lembrava daquele carinho que se sentia à distância entre eles, depois do casamento.
 
- Então agora?!? O que é que se passa? Não achas que estás a dar muito nas vistas?
- Hã...?
- Sim, a olhar para as pessoas. Disfarça, se faz favor! O que vale é que eles ainda nem repararam em ti. Se fosse comigo já me tinha levantado para te perguntar se querias alguma coisa.
- Oh! Até parece...
- Até parece o quê? Madalena, pára de olhar!!
 
A amiga, entretanto, já se tinha sentado ao seu lado.
 
- Sabes que ele ligou-me?
- Quem?
- Ora, quem? O defunto!
- Desculpa?!? Estás a referir-te ao teu marido?
- Ao meu futuro ex-marido, se fazes favor. Baptizei-o de defunto. Para mim morreu.
- Ai é? Então isso faz de ti o quê? Uma assassina? Que eu saiba choraste baba e ranho dias a fio culpabilizando-te do abandono. Ou não foi?
 
Madalena olhou para a amiga de lado.
 
- Sim, não olhes para mim assim. Ou já te esqueceste? A culpa é minha, não lhe dei atenção, tinha mais que fazer, não conversava com ele, e blá, blá, blá whiskas saquetas... Poupa-me Madalena. Defunto...
 
Silêncio.
 
- E o que é que ele te queria, afinal?
- Falar sobre o IRS.
- Huummmm... e tu?
- Disse-lhe que achava piada ao poder de um papel carimbado. Que queria tentar de novo.
- O quê?!? Rebaixaste-te dessa maneira?!?
- Tu não entendes! Será que não entendes? Eu quando casei não foi a pensar em divorciar-me! E ele... ele é homem... igual aos outros. À primeira que lhe apareceu lá foi que nem um cãozinho a abanar a cauda. Disse-lhe para pensar sobre isso.
- Ah foi...? Nem pareces tu, credo mulher! Nem pareces tu...
- Descobri que o amava. Que o amo. Sabes que isto foi mesmo uma descoberta para mim?
- Estou  a ver que sim...
- Olha, vês aqueles dois? Aquilo é que é a verdadeira definição de "amor e uma cabana". Ali estão, felizes da vida, aninhados, a conversar entre eles, com risinhos e abracinhos e beijinhos, a observar as estrelas.
- Olha, vamos mas é para dentro. Estás aqui estás a chorar outra vez. E com os copos que já bebeste não deve tardar muito.
- Vou ligar-lhe!
- O quê? Para quem?
- Para o defunto. Vou ligar agora.
- Pá, Madalena! E vais dizer-lhe o quê? Olha, estou com os copos e apeteceu-me ligar-te para dizer que foste baptizado de defunto, mas que eu amo-te e amar-te-ei para todo  sempre...
 
Nisto já a Madalena estava de telefone na mão, a fazer a chamada. À espera que ele atendesse.
 
E do outro lado da piscina uma luz, de repente, anunciou a presença de um telemóvel. Estava escuro e a iluminação da piscina não permitia ver grande coisa. Mas a luz de um telemóvel, à noite, do lado oposto de uma piscina de um hotel acender exactamente no momento em que a Madalena fez a chamada revelou o inesperado.
 
Era ele, o defunto, que estava na chaise longue a admirar as estrelas.

Argumentos de peso

Numa destas noites, logo a seguir ao jantar, entrou ela pela sala:

- Mãe posso vir para aqui um bocadinho?

Olhei-a de lado...

- É que ainda faltam 120horas e sete mil e duzentos segundos para o teste. Já comecei a estudar ontem e daqui a 20 minutos tenho de ir para a cama.

Não consegui contra-argumentar...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Quem é que sabe o que é "embla"? Hein?

Não resisto a contar-vos isto. Cada vez que me lembro dá-me para rir.
 
No dia em que fui para as urgências do HSFX, assim que cheguei vi uma família INTEIRA de ciganos na sala de espera. Até aqui, nada de especial. Estamos habituados ao cenário. Mas quando estive eu, na sala de espera, à espera de ser chamada novamente, fiquei sentada mesmo ao pé dessa família. Percebi que era uma senhora a utente que estava doente.
 
Entra um jovem casal, cigano, e diz o rapaz (por favor tentem ler com sotaque cigano):
 
- Ê já sabia que era do estomague. Cada vez que vens p'róspital é o mêmo. Tás aqui há quantas horas, hein?
- Desde as quatro!
- Atão e nã fezeste come já te disse? Quando vens aqui entras a dezer que tens embla!!
 
Risada geral. Entre os ciganos.
 
- Dezes que tens embla e que é muito pegajoso. Vais veri se nã se vai tudo embôra! Gritas EMBLA, EMBLA!! E és logo atendida!
 
E eu contorcida com dores ainda me ri. E os ciganos (perdi-lhes a conta), continuaram divertidos.
 
Agora, quem quer tentar a sorte? Embla!! O rapaz estava a falar de quê? :)

Os contos estão mais elegantes

Antes da lombalgia que marcou o meu Dia da Mãe e que me obrigou a repouso absoluto no que toca a esforços, caminhadas, exercício físico ou pegar em pesos, tinha começado, aos poucos, a mudar o meu estilo de vida. No que toca à alimentação. No que toca ao exercício. Sim, que a malta não vai para nova e os 40 não tardam a chegar! 

Sempre ouvi dizer que é aos 40 que a lei da gravidade mais ataca uma mulher. Se é verdade ou não, não sei! O que sei é que o excesso de peso já andava a pesar-me nas costas e nos joelhos. E aborrecia-me solenemente andar a catrapiscar alguns outifts da nova colecção Primavera/Verão e nada do que eu gostava me servia.

Por causa disso, nos últimos tempos perdi 6kg. É verdade! Obrigado, obrigado!! (imaginem-me a agradecer-vos como a nossa saudosa Amália Rodrigues fazia) Como? Seguindo uma dieta alimentar em que posso comer de tudo, moderadamente. A horas certas e, sobretudo, acompanhada de exercício físico.

Não adoptei o modismo dos detox, nem das sementes, nem de tudo aquilo de que todos falam e criticam e desdenham, mas com a idade as nossas prioridades começam a reorganizar-se por si só. E a minha saúde, meus amigos, é muito importante para mim! Tenho dois filhos para criar e já perdi pessoas muito importantes por causa de problemas de saúde. Não que eu com isto vá evitar alguma coisa, mas no que eu puder ter um papel positivo, assim será. 

É fácil falar? Bom, agora é mais fácil falar! Pois já vejo resultados. Mas até ao momento ainda não tinha dito nada. Pois não é fácil começar um regime alimentar quando é exactamente a comida uma das coisas que me dá mais prazer. Não é fácil, sobretudo, se não estivermos mentalizados para isso. É preciso, antes de mais, querer. Depois, concentração. Capacidade de resistência e esperança nos resultados.

Minhas queridas, não vale a pena dizer que "é agora" quando a mente não é isso que sente. Quando não é isso que a mente nos diz que quer. Não vale a pena, também, arranjarem subterfúgios para adiar essa decisão quando, realmente, sentem o peso do excesso de peso no vosso dia a dia. Também não vale a pena criticarem quem faz por isso ou dizerem em voz alta que se sentem bem com o corpo que têm quando, na realidade, sofrem o mesmo que eu quando entram numa loja e nada vos serve ou quando vêm uma amiga vossa que está sempre tão gira e sem grandes investimentos. Apenas e só pela sua figura que tem tudo lhe cai bem. Tudo faz vista.

Dá trabalho? Dáááá!!! Imeeennnso!! Dá muito mais trabalho cozinhar de uma forma saudável. Mas também é muito mais desafiante o nosso papel na cozinha e nas compras e até por aqui, na net, onde encontramos todo um mundo de alternativas que nos permitem ter uma alimentação mais cuidada, sem exageros e sem constrangimentos.

É tudo uma questão de equilíbrio. Se num dia disparato à mesa, no dia seguinte sei que tenho de fazer o exercício com que me comprometi comigo mesma. E assumo isso como um verdadeiro compromisso na minha agenda pessoal. Durante o dia também devemos equilibrar o que comemos e muito mas mesmo muito importante: não fazer disto uma bandeira! Não fazer disto uma preocupação! Pois o fruto proibido é o mais apetecido. Ah! E o meu exercício, também este equilibrado e de acordo com as minhas capacidades, não o faço dentro de quatro paredes.

A verdade verdadinha, são os chineses que a sabem e traduzem no seguinte provérbio:

Coma metade, ande o dobro e ria o triplo.

Uma equação que dá trabalho, mas cujos resultados superam tudo isso. Não espero ser inspiração para ninguém, mas se quiserem acompanhar-me é só mandarem-me um e-mail. Está ali, do lado direito, através do formulário de contacto. E, em conjunto, torna-se tudo muito mais fácil.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Um arrepio na espinha (blognovela)

O telefone tocou. Fora de horas. E o telefone tocar fora de horas sempre fora mau presságio. As fracções de segundo até atendê-lo parecem uma eternidade. E tudo passa pela cabeça de uma pessoa. Tudo. De mau. Está bom de ver.

Ao olhar para o visor, a Madalena não queria acreditar. Dizia "Amor". Amor? Mas o que será que ele me quer? A estas horas?!? E atendeu:

- Estou?
- Sim? Madalena?
- Sim, sou eu... olá...

Não falavam desde o dia em que ele saiu de casa.

- Desculpa lá as horas, mas estou aqui de volta do IRS e precisava de falar contigo.
- Ah... sim, pois é... já nem me lembrava disso... (Olha que merda! Afinal era isto que me queria?)
- Este ano ainda temos de fazer isto juntos. Por isso queria combinar contigo para juntarmos os recibos e ou eu ou tu ou os dois juntos, não sei, temos de tratar de fazer isto.

Silêncio...

- Madalena?
- Sim... estava aqui a pensar...

Silêncio...

- Estás aí?
- Sim, estou. Estava aqui a pensar no poder de um papel carimbado por uma conservatória. Já viste bem? Saíste de casa sem pedires licença, mas agora precisas de pedir-me licença para fazer o IRS. É engraçado, não achas?
- Engraçado... não tinha pensado nisso... não assim, dessa maneira...
- Bom, na verdade temos mais coisas para tratar. A casa está em nome dos dois. Tu levaste um carro, mas o que deixaste também está em teu nome. Os seguros, os contratos da água, luz, gás, internet, televisão. As quotas dos ginásios estão a sair da mesma conta. Também temos dois PPR's. Acho que temos mesmo de falar.
- Sim, é verdade. Temos isso tudo para resolver...

Silêncio...

- Como é que queres fazer?
- Eu? Como é que eu quero fazer?
- Sim? Encontramo-nos?
- Para quê?
- Madalena, então?
- Então o quê?
- Temos coisas para resolver. Como é que queres fazer?
- Queres mesmo saber? Então olha: quero que voltes para casa. Quero dar outra oportunidade ao nosso casamento. Sei que falhei. Sei que não estive presente para lá do papel carimbado. Sei de tudo o que correu mal. Assumo as minhas culpas. Mas agora peço-te que reconsideres. Que avalies se a troca que fizeste não passou de um impulso. Quero que penses realmente se eu merecia a tua saída repentina. Sem aviso prévio. Sem uma carta melodramática que me fizesse sentir melhor ou pior, não interessa. Mas assim, como tudo se deu? Achas bem? ACHAS BEM?

Silêncio...

- Tem piada...
- O que é que tem piada??
- Agora já falas. Por telefone, é certo. Mas agora já falas. Quando te ligava, despachavas-me. Quando entravas em casa, já eu tinha adormecido de tão tarde que era. Quando eu entrava em casa e tinha a sorte de te apanhar lá, estavas de saída. Falar nunca foi o teu forte. Pelo menos comigo, claaaro!! Mas agora já falas. E mais! Querias uma carta? Uma despedida? Um adeus? Um ponto final, Madalena?
- Sim, qualquer coisa.
- Qualquer coisa era o que tu achavas que servia para mim. E não serviu. Por hoje chega, Madalena. Um dia destes voltamos a falar.

Um arrepio na espinha. Um murro no estômago. Um tapete puxado debaixo dos pés. Foi assim que a Madalena se sentiu. Foi assim que o seu futuro ex-marido a deixou depois de um simples telefonema.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A vida é uma roleta russa

Não no sentido de ser um jogo de sorte ou de azar, mas no sentido giratório da coisa. Nunca está parada. Dá voltas e voltas. E quando menos esperamos surgem oportunidades, novidades, desilusões, perdas, ganhos, tudo o que conseguirmos encaixar.
 
Na mesma semana:
 
- uma gravidez não planeada virou do avesso a vida de uma amiga minha. Primeiro, chorou compulsivamente. Depois, sorriu. Uma semana depois já tem tudo planeado para esta nova fase da vida;
 
- uma dívida inesperada assombrou as contas de uma família que conheço. Inesperada, porque, afinal, não era uma dívida. Era uma falha de quem acusou a dívida. E sabem que mais? Ainda receberam dinheiro à conta disso. Mesmo a calhar, pois na mesma semana avariou-se o frigorífico e a máquina de lavar roupa (aqui lembrei-me da filosofia do filme Up altamente...);
 
- um divórcio que nos surpreendeu a todos. Daqueles casais com quem adoramos estar. Daqueles casais que viajam imenso, de bem com a vida, com filhos, bem estar profissional. Mas parece que o bem estar pessoal é que não estava a condizer com o resto. Já a minha avó dizia: O que vai no convento, só sabe quem está lá dentro. E é mesmo assim. De nada nos vale pensar que sabemos coisas que não nos dizem respeito. Lembram-se deste post?;
 
- uma amiga que me liga a dar-me uma notícia. Não sei se está feliz se não. Mas compreendo-a. Saber que o marido vai trabalhar para fora, noutro continente, assim, de um dia para o outro... é ambíguo, certamente... Duas crianças. Uma ainda bebé. E ainda há dias perguntei ao marido dela: Então e agora que acabaste este projecto? O que se segue? Ao que ele me respondeu: Há-de aparecer qualquer coisa.
E apareceu...
 
A vida é assim mesmo.
A cada minuto pode virar tudo do avesso.
Às vezes, pela positiva. Outras... nem por isso...
Mas de todas as experiências, surpresas ou o que queiram chamar a esta bola que rola sem parar na roleta, há sempre uma lição a tirar. A que melhor servir a cada um.
 
A vida é assim mesmo. O melhor a fazer é vivê-la.
 

Acabei o Dia da Mãe no hospital

Não é coisa que a malta queira lembrar para sempre, mas a verdade é que de uma lombalgia lixada que logo de madrugada começou a dar-me conta do juízo, só consigo lembrar-me de coisas boas.

Os miúdos estavam excitados. Era dia da mãe, caramba! E não percebiam porque é que eu não me levantava da cama. À vez apareciam no quarto. Várias vezes. Até que ele disse para o prédio todo ouvir:

- MANA, ANDA! A MÃE JÁ ESTÁ ACORDADA!! (até vocês desse lado devem ter ouvido o miúdo)

Sim, estava acordada já há muito tempo. Não conseguia era mexer-me. 

Irromperam pelo quarto adentro. Levantaram os estores e montaram um circo daqueles. À criança feliz que esperou tantos dias por aquele dia. Tantos dias para darem à mãe o presente do dia da mãe. Os postais que ilustraram. Tudo o que tinham congeminado. 

Ela veio de pequeno-almoço num tabuleiro. Ovos mexidos com sementes de chia (adorei o pormenor) e iogurte líquido. Ele trazia um envelope feito de uma folha de papel branca A4 e cheio de fita cola laranja às bolinhas brancas. Lá dentro, um desenho. Nós os quatro, a nossa casa e um carro. Para ele era um Smart. Para mim um carocha. Depois o presente. Uns brincos. Ou melhor, um brinco. Que o outro perdeu-se no caminho. Uma bola rosa choc que ele fez para mim. Só para mim.

Depois ali ficaram e eu sem me levantar. Foi o melhor despertar de Dia da Mãe.

Consegui fazer o almoço, assim toda curvada. Ainda fizemos um bolo todos juntos, pois pareceu-me que mereciam. Mas lá estava eu. Toda curvada. Dobrada, mesmo. Como se fosse possível estar em posição fetal em pé. 

Aqueceram-me vezes sem conta uma almofada de caroços de cereja para me aliviar as dores. O petiz fez-me cócegas massagens nos rins, pois era aí que me doía. Coitadinha da mãe. Até que ao fim do dia disse ao meu marido:

- Se calhar é melhor ir ao hospital.

E lá fomos. E lá estive. Mas não me posso queixar. Fui bem atendida. Só a minha figurinha quando entrei deixou todos em sentido. Até o segurança me ofereceu uma cadeira de rodas. A enfermeira da triagem nem me deixou ir para a sala de espera. E o funcionário da secretaria, quando fiz o registo, ainda me perguntou se estava para ter um filho. Sim, eu estava toda dobrada e ele só me via do pescoço para cima.

Doem-me os rins. Disse a um. Doem-me os rins. Disse a outro. Doem-me os rins. Voltei a dizer. E ainda o repeti a uma senhora que estava cheia de pena de mim pelo sofrimento em que me encontrava.

Não eram os rins. Era uma lombalgia. Aguda, por sinal. Vai de injecção, mais dois comprimidos. E, no fim, um médico todo giro e atencioso explicou-me tudo com calma e numa linguagem perceptível. 

Parabéns às equipas de ontem à noite do Hospital São Francisco Xavier. Obrigado pela vossa paciência e carinho. Obrigado à enfermeira que não tinha macas livres e que me levou para a sala de pequena cirurgia para eu poder deitar-me e ficar resguardada da sala de espera e do incómodo daquelas cadeiras. Obrigado à equipa de radiologia que teve uma paciência de Jó para conseguir fazer-me os RX's. Obrigado ao médico que foi ofendido por uma utente, de forma obscena, sem razão nenhuma, por não ter reagido à ofensa. E obrigado ao meu marido por, mais uma vez, ter tomado por suas as minhas dores.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A dor da traição... (blognovela)

Madalena chorava desalmadamente. Há duas semanas. Desconsolada, inconformada, desapontada. Madalena chorava. E já ninguém a aguentava.
- Vá lá, Madalena... tens de arrebitar. Já não posso ver-te assim!
- Mas tu... tu não sabes... tu não percebes...
- Pois não! Mas também não aguento mais ver-te assim. Não pode ser, Madalena. Não podes continuar a chorar e a chorar e a chorar. Ainda por cima por um homem?!? MADALENA!!

Duas semanas. Era o tempo que o calendário marcava desde o dia em que o marido da Madalena tinha saído de casa. Sem aviso-prévio. Sem uma conversa. Sem uma desculpa. Sem mais nada, além da roupa que tinha no corpo. Sem ela. Por causa de outra mulher.

- Não pode ser! Há duas semanas que não vais trabalhar!! Não morreu ninguém, caramba!
- Mas tu não percebes...
- Não, não percebo. Acho que o teu marido também não percebeu a mulher extraordinária que és. Que cometeu um erro grave. Que um dia vai arrepender-se. Mas isto não é o fim do mundo, mulher!!
- Tu não percebes... Fui eu que o traí primeiro... E agora estou a pagar por isso...

- WHAT? Tu?!? Traíste-o primeiro? E não me disseste nada?
- Sim... é verdade...
- Já sei! Foi com o teu PT, certo? Por isso é que chegavas a casa tão estafada. Eu bem estranhei... aquele cansaço todo... As horas a que tinhas treinos, quando andaste a comprar uns top's todos giros para fazeres ginástica. Foi com ele, não foi?
- Não...
- Não?!? Huuumm... ok. Já sei! Foi com aquele... como é que ele se chama... que trabalha lá contigo... aquele, o cheiroso... o do BM...
- O Jorge.
- Sim, esse! Olha que tu... Saíste-me cá uma estouvada... E eu a achar que ele andava a tirar-me as medidas. Afinal...
- Pára! Nada disso! Não traí o meu marido com o Jorge. O Jorge é um vaidoso de primeira que vive do perfume que usa para conquistar a minha chefe. Achas mesmo que eu perdia tempo com um homem daqueles?!?
- Eu cá perdia! Nem que fosse uma horinha... só para dar uma voltinha...
- Parva...
- Olha, pelo menos já paraste de chorar! Conta lá, pá! Com quem é que enfeitaste a testa do teu marido?

- Queres mesmo saber?
- Oh! Vá...
- Com tudo e mais alguma coisa. Com o meu emprego, com as reuniões e obrigações que tenho. Com as minhas idas ao ginásio. Com a minha agenda cheia de compromissos. Com o arranjo das unhas, das pestanas. Com a depilação a laser e a lipoaspiração. Com as massagens novas que experimentava todos os meses. Com os novos tratamento para isto e para aquilo. Com as minhas amigas. Contigo! Bem sabes que nunca deixei de ir convosco para todo o lado, mesmo que ele me pedisse, uma vez só que fosse, para não ir... e eu ia na mesma. Foi assim que o traí. Com a rejeição. Com a falta de tempo. Distraí-me. E ele estava mesmo ali ao meu lado. E eu não o vi, percebes?

- Estás a brincar comigo? Então e ele? Não tem culpa no cartório? Nunca te disse nada? Nunca falaram sobre isso?

- Pouco falámos sobre isso. Porque eu não tinha tempo. Porque eu casei-me com ele assim... a tentar levar a mesma vida que levava antes... ignorando aquilo de que sempre ouvi falar: as cedências. E eu não as fiz... Fui eu que o traí. Fui eu que não fui fiel à sua disponibilidade. À sua vontade de estar comigo. Às manifestações de amor que me fez. E que eu ignorei. Porque estava cansada. Porque tinha de trabalhar. Porque, porque e mais porques!! Percebes?

A amiga não percebia. Não era casada. Nunca tinha sido traída. Não estava, sequer, a acreditar naquele discurso. Não estava a querer crer que a Madalena se achava culpada da traição do marido. E disparou:

- Olha, ao menos não têm filhos! Assim é mais fácil!
- Pois... até nisso o traí... ele queria. Eu não. E percebo agora que nunca fiz nada! Nada do que ele me pediu! Apenas casar. E não é isso um casamento. Aquilo que eu fiz...

terça-feira, 28 de abril de 2015

Da vida dos outros...

... todos sabem um pouco.
Como devem fazer caso queriam comprar um carro. Que tipo de roupa é que lhes fica bem. Como é que devem educar os seus filhos. Como é que devem gerir o seu dinheiro. Onde é que devem passar férias. Onde celebrar o aniversário. Quanto ganham por mês. Onde gastam o dinheiro. Que gastam mal o dinheiro. Que não têm uma alimentação correcta. Que são uns boémios. Que são uns sonsos. Que tudo e mais alguma coisa cuja opinião ninguém quer saber.

E depois aquela parte em que começam a fazer contas à vida dos outros? E como é que é possível fazer aquela vida? De certeza que alguém lhes paga isto e aquilo! E como é que aquela compra sempre roupa nova. E foram de fim de semana, outra vez?!? E rebebeu pardais ao ninho

Se cada um olhasse para a sua vidinha, com cabecinha, aperceber-se-ía que só as pessoas frustradas é que perdem tempo a falar da vida dos outros. E que as bem resolvidas com a vida, nem se lembram que elas existem.

Era só isto. :)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Na semana passada

Estive completamente embrenhada neste projecto. Deu-me um prazer imenso:

1.º Que alguém se tivesse lembrado de mim para escrever isto;

2.º Fazer o exercício de escrever para crianças sobre assuntos difíceis;

3.º O facto de não ter sido preciso mexer numa vírgula na fase de aprovação;

4..º Chegar à net, digitar o endereço e pimba! Lá estão os meus textos!!

Mas afinal estás a falar de quê? Pensam vocês. Estou a falar na nova plataforma que a Câmara Municipal de Cascais criou a pensar nas crianças. Uma plataforma que apresenta Cascais nas suas mais diversas áreas: geografia, organização administrativa, cultura, meio ambiente, cidadania e muitas outras. Também tem jogos interactivos e é uma excelente ferramenta para pais, professores e educadores de infância.

O designer da plataforma, David Pinto, criou 4 meninos: a Bia, o João, o Mateus e o Simão. 4 personagens de Cascais a quem se deu o nome de "Cascalitos". (Cascais dos pequenitos)

Só sei que em Cascais os Cascalitos vão começar a estar por todo o lado. E eu, tão feliz que estou, continuarei a escrever para esta plataforma.

Ora espreitem lá! Está o máximo, não está? :)


segunda-feira, 20 de abril de 2015

As crianças não sabiam brincar

Esta foi a frase que mais me marcou numa reportagem que passou na SIC sobre Marta Baeta, uma voluntária portuguesa no Quénia e fundadora do projecto From Kiberia With Love.

Kiberia é considerada a maior e mais perigosa favela do mundo. Mesmo consciente dos perigos a que estava sujeita, Marta não hesitou em voluntariar-se. Em levar o melhor de si. Independentemente do que isso fosse.

Certo é que no Quénia, na Kiberia, as crianças nem sequer sabiam brincar. 
Certo é que por querer dar o pouco de si que tinha para dar, foi ameaçada de morte, porque alguém entendeu que não se pode dar nada de graça. Alguém teria de ganhar com isso.

A corrupção no Quénia é isso. Cobrar até aquilo que cada um tem de melhor.

Esta participação da Marta Baeta no Tedex data de 2013. 
Espero que já tenha conseguido o seu objectivo: concluir a sua licenciatura.

Obrigado Marta. Obrigado pelo seu voluntariado. Obrigado por acreditar que o futuro do Quénia pode estar nas crianças desta favela.