quarta-feira, 13 de maio de 2015

Fui ignorada logo pela manhã

Bom dia a toda a gente! Eu sou o despertador!

É assim que ele nos acorda. Ao fim de semana. E durante a semana, que é quando dá jeito que a meia-leca se levante sem grandes trabalhos, é que lhe dá para virar para um lado, virar para o outro e nada de levantar-se. Às vezes só mesmo com uma grua.

Esta manhã, como sempre, antes de sair fui dar-lhe um beijinho. Mas esta manhã abriu os olhos para mim. Começou a sorrir. Com ar de malandro. Como quem dia És tu... Que bom... Não disse nada. Que isto entre mãe e filho não são precisas palavras para comunicar. Em determinados momentos. E antes da adolescência, está bom de ver. Mas decidi dizer-lhe:

- Hoje sou eu o teu despertador. Toca a levantar.

Virou-se. Não sem antes retribuir o beijinho. Sorriu. E virou-se para o outro lado. E com a maior lata deste mundo ainda me disse:

- Tapa-me aí as costas. :)

É tão bom ser criança.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Entretanto, em Tróia... (blognovela)

Por causa dos gin´s a Madalena já não sabia bem o que estava a fazer. E nem o facto de ter reparado na luz do telemóvel no outro lado da piscina ao mesmo tempo que fazia a chamada, fez com que percebesse o que é que se estava a passar.

- Desliga isso, Madalena!! O que é que lhe vais dizer? Pára!! - Dizia-lhe a amiga enquanto tentava tirar-lhe o telemóvel da mão. Em vão.
- Nunca mais atende...
- Então desliga!
Na chaise longue um vulto admirava o visor de um telemóvel. Hesitante. Surpreendido. Sem saber se atender ou não.
- Não atendas... estamos aqui tão bem... - Pediu-lhe a acompanhante.
- Mas a Madalena nunca me liga... e se for alguma coisa grave...?

A decisão superou a sua hesitação.

- Estou?
- Oláááááá!!!!
- Madalena?!?
- Estáááás boooom? - Perguntava de voz arrastada e entusiasmada.
- Madalena? Ei, está tudo bem?
- Tudo numa boa. E tu?

Desatou a gargalhar. Muito alto. Tão alto que o vulto da chaise longue olhou em redor à procura daquela gargalhada que conhecia tão bem.

- Estou? Estou? - Chamava ela.
- Madalena! És tu que estás aí? Do outro lado da piscina?

Lembram-se do Ice Bucket Challenge? Foi assim que ela se sentiu ao perceber que o futuro ex-marido era o homem que estava a admirar as estrelas. Acompanhado por outra mulher. De quem ela disse que aquilo sim, era a definição de "amor e uma cabana". Mais do que um banho gelado de água fria, a Madalena ficou paralisada. Quando o viu aproximar-se.

- Olá Duarte! Por aqui...? Que coincidência? - Tentou disfarçar a amiga.
- Olá! Realmente... uma coincidência... completamente inesperada esta cena...
- Olha, não ligues ao telefonema da Madalena. Não fazíamos ideia que estavas aqui. Acredita, não se vê nada nesta escuridão. Ela apenas bebeu um bocado e começou a falar de ti, pegou no telemóvel e olha! Ligou-te! Deixa-a que eu levo-a para o quarto. Vamos, querida. Vem comigo.

Não se mexia. Não falava. Parecia, até que não respirava.

- Já te chamei, Madalena! Vamos subir!! - Insistiu a amiga. Sem sucesso.
- Olha Duarte, vai-te embora! Depois falo contigo!
- ISSO! Vai-te embora! És bom nessa arte de ir embora! Vai! - Começou a Madalena a disparar sem levantar os olhos da água.
- Não sejas injusta. Atendi-te o telefone, não foi? E quando percebi que estavas aqui vim logo ter contigo.
- E?!? Injusta?!?
- E... vim saber porque me ligavas...
- Desculpa lá incomodar a tua noite de amor ao luar. Não fazia ideia que estavas aqui. Com tanto hotel no mundo e tinhas logo de estar aqui!!
- Digo o mesmo, não achas?

Silêncio.

- Já pensaste?
- Se já pensei?!?
- Sim! Se já pensaste no que te disse. Se não terá sido um impulso... a tua saída de casa...
- Olha Madalena... nem sei o que dizer... e não me parece que estejas nas melhores condições para falarmos seja do que for...
- Porquê?
- Porque para falarmos terás de estar sóbria!!

Uma quarta pessoa aproximou-se deles. Madalena sentiu-o. E continuou paralisada. Com os olhos postos na água.

- Não acredito Duarte... não posso acreditar... - Começou a amiga.
- Olá! - Era a Isabel. A outra. - Estás boa?
- Isabel. És tu Isabel?

E finalmente a Madalena levantou os olhos da água.
- O quê? Tu conheces esta tipa?
- Conheço...
- E TU SABIAS DISTO?
- NÃO! SIM! Não, claro que não! Sabia que a Isabel andava com um homem casado, mas não sabia que esse homem casado era o teu marido!! Isabel? Como é que foste capaz? Tu sabias que o Duarte era meu amigo!!
- Sim, sabia. E então?
- E então?!? E ENTÃO?!?
- Sim, qual é o teu stresse? Disseste bem. O Duarte era teu amigo. Não teu marido.

Com toda a genica deste mundo a Madalena tirou os pés de dentro de água para se levantar, mas meio atabalhoada com os gin's, com a situação e com o vestido comprido, embaraçou-se, escorregou e caiu. Bateu com a cabeça no chão e desmaiou com a queda.

- Madalena! Madalena! - Começou o Duarte em aflição.
- Ó pá... deixa lá que isso são os copos. Então mas agora tenho o fim de semana estragado por causa desta frustrada? Era só o que me faltava! - Alvitrou a Isabel.
- Como é que és capaz de dizer uma coisa dessas? Como? Que desilusão, Isabel... Que desilusão. - Disse-lhe a amiga. E voltando-se para o Duarte: 
- Pelo menos ajuda-me a levá-la para o quarto.

E assim aconteceu.

São caracóis, senhor! São caracóis!

No meu tempo não havia criança que não tivesse passado pela extraordinária experiência de ter uma caixa de sapatos cheia de bichos da seda. Assistir à sua metamorfose era o ponto alta de cada Primavera. E ver que daqueles casulos nunca saía uma borboleta colorida era o ponto baixo...

Mas senhor meu filho decidiu que os bichos da seda são uma coisa assim para o démodé. Que tinha de inovar e trazer para casa um bicho mais despachado cuja interacção se revelasse muito maior do que com a que eu tinha com os bichos da seda. Daí que decidiu trazer caracóis. Caracóis!

É verdade que em tempos eu e o senhor seu pai pensámos em dedicar-nos à helicicultura, mas assim à grande! Visitámos fábricas, terrenos onde se faz a criação destes bichos, como comercializá-los já cozinhados, como evitar a importação, etc., etc. Isto numa altura em que nos apercebemos que em Portugal não havia caracol que chegasse para acompanhar as jolas nos sunsets que se fazem a cada esquina por esse país fora. Isto quando nos apercebemos que a maioria da parte dos caracóis que consumimos são importados. De Marrocos.

Desistimos. Já não me lembro porquê... (se calhar fui eu que me enojei com a nhanha dos ditos...)

Agora o nosso petiz, sem fazer ideia desta história, todas as semanas arranja uma caixa de cartão maior. Pois todas as semanas há mais caracóis para alimentar. Que ele transporta, cuidadosamente, para casa.

Alimenta-os com folhas de alface e já lhe disseram que nestum também é bom! Talvez fiquem assim... gourmet, não faço ideia. E acho que não vou saber! Que o rapaz já me disse que aqueles caracóis não são para comer.

Só comigo!!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Um perfil público (blognovela)

Uma simples pesquisa no Google revelava toda uma identidade da nossa Madalena. Editora de moda de uma revista de sucesso. Autora de inúmeros artigos sobre estilistas, modelos, tendências. Presença obrigatória e aguardada em todos os grandes acontecimentos da área pelo mundo fora. Comentadora num programa de televisão. A cara portuguesa além fronteiras de quem mais sabia sobre o assunto em Portugal. Nova. Com 33 anos de idade. Bonita. Bom... vistosa será o termo mais certo! Mas muito, muito invejada por inúmeras mulheres. Talvez por todas as que a conheciam.

Mas como em todas as histórias de princesas, há uma realidade desconhecida para aqueles que querem viver a vida dos outros. Madalena sentia isso agora na pele. O sucesso profissional tinha-lhe toldado as prioridades. Para ela tudo era dado como certo. Pois era assim o meio em que vivia. Bastava abrir a boca com qualquer sugestão que logo alguém se encarregava de torná-la numa realidade. E esse era um poder que tinha e que muito lhe agradava.

Sabia que na revista todos contavam consigo. Sabia mesmo que a revista dependia de si. Não tinha um minuto de descanso. Muito trabalho. Muitas reuniões. Muitas festas. Muitos eventos importantíssimos a que nunca, mas nunca podia faltar. Vingar nesta área, tão cedo, era raro. E Madalena sabia-o. Sabia-o muito bem. E à medida que o seu sucesso foi sendo uma realidade, à medida que consolidava a sua imagem, através do seu trabalho, crescia também a sua ambição. Cada vez mais.

Era o centro das atenções. Em todas as ocasiões. Pela roupa que vestia, pelos sapatos que calçava, pelos acessórios que usava. Pelo longo e brilhante cabelo castanho que tinha sempre impecavelmente bem penteado. Pela maquilhagem sempre no ponto. E pelo sorriso que exibia que levava todos a acreditarem no que viam: uma mulher feliz.

Mesmo quando foi abandonada pelo futuro ex-marido e esteve duas semanas sem pôr os pés na revista, não deixou de receber telefonemas, responder a e-mail's, validar propostas, reler artigos, escolher imagens, validar títulos, falar com patrocinadores, reunir por telefone (em alta voz). Chorava, logo de seguida, mas nunca ninguém desconfiou, sequer, sobre o verdadeiro motivo da sua ausência.

Teve o casamento de sonho de qualquer mulher. E até isso estava no Google, nas imagens do Google. Um vestido desenhado exclusivamente para si, com tecidos importados, especialmente para si. Num cenário idílico. Sem qualquer constrangimento. Um casamento tal e qual como qualquer mulher com vontade de casar desejava: à medida dos seus sonhos.

Viajou com o marido em lua de mel durante um mês. E não deixou os seus seguidores no instagram sem resposta. Todos os dias partilhava o que fazia, onde estava, o outfit do dia, as compras que fazia, a felicidade que vivia. E até o número de seguidores nesse mês aumentou significativamente. Aumentando, também, o seu valor, a sua imagem. Ela sabia-o. E de tão consciente que estava sobre isso não era por acaso que agia assim. Não dava ponto sem nó. Calculava sempre o impacto das suas acções públicas. Através dos seus perfis públicos. E foi mais o tempo que passou de volta deles do que, verdadeiramente, a viver a sua lua de mel.

Foi esse o primeiro sinal daquilo que mais tarde despoletou a saída de Duarte. Não que ele não soubesse com quem estava a casar. Mas os homens são como as mulheres. Quando amam. Também têm esperança que, com eles, as coisas sejam diferentes. Mesmo que alguém os tenha avisado atempadamente.

domingo, 10 de maio de 2015

Deixei o homem de rastos

Ontem consegui pôr Senhor Meu Marido a fazer exercício. Meia horinha, mas consegui! Suava, suava, suava...
 
Já em casa dizia-me ele:
 
- Não achas que já estou melhor? (enquanto encolhia a barriga)
- Então não? Muito melhor! Pronto, agora já podes respirar!
 
A sério, este homem dá-me cabo do juízo. Primeiro que mexa um pézinho, ui!!! Depois diz à boca cheia que era muito rápido a correr na escola, que jogava à bola como avançado e que jogar ténis é que é a praia dele. Bom, o equipamento lá o tem. Enfiado na garagem. Motivação, também. Que eu cá não lhe dou descanso. Mas vontade, senhores... vontade.... e sem vontade... sem querer... não se chega a lado nenhum.
 
Um destes dias disse-lhe para juntar os pés, endireitar as costas, olhar para baixo e perguntei-lhe o que é conseguia ver. Assim tipo as grávidas, que a determinada altura não conseguem ver nada. Pois, não conseguiu ver nada. Assim, como as grávidas em estado avançado... Mas continua a achar-se a última coca-cola do deserto... Que é entroncado e que a barriga faz parte do "tronco"... Really????
 
Algum amigo caridoso que me faça o favor de levar o homem para a rua com o intuito de fazer exercício? Anyone? Muito agradecida.

(Pode ser que com esta humilhação declaração pública ele se envergonhe e comece a fazer qualquer coisinha...)