quinta-feira, 7 de maio de 2015

Quem é que sabe o que é "embla"? Hein?

Não resisto a contar-vos isto. Cada vez que me lembro dá-me para rir.
 
No dia em que fui para as urgências do HSFX, assim que cheguei vi uma família INTEIRA de ciganos na sala de espera. Até aqui, nada de especial. Estamos habituados ao cenário. Mas quando estive eu, na sala de espera, à espera de ser chamada novamente, fiquei sentada mesmo ao pé dessa família. Percebi que era uma senhora a utente que estava doente.
 
Entra um jovem casal, cigano, e diz o rapaz (por favor tentem ler com sotaque cigano):
 
- Ê já sabia que era do estomague. Cada vez que vens p'róspital é o mêmo. Tás aqui há quantas horas, hein?
- Desde as quatro!
- Atão e nã fezeste come já te disse? Quando vens aqui entras a dezer que tens embla!!
 
Risada geral. Entre os ciganos.
 
- Dezes que tens embla e que é muito pegajoso. Vais veri se nã se vai tudo embôra! Gritas EMBLA, EMBLA!! E és logo atendida!
 
E eu contorcida com dores ainda me ri. E os ciganos (perdi-lhes a conta), continuaram divertidos.
 
Agora, quem quer tentar a sorte? Embla!! O rapaz estava a falar de quê? :)

Os contos estão mais elegantes

Antes da lombalgia que marcou o meu Dia da Mãe e que me obrigou a repouso absoluto no que toca a esforços, caminhadas, exercício físico ou pegar em pesos, tinha começado, aos poucos, a mudar o meu estilo de vida. No que toca à alimentação. No que toca ao exercício. Sim, que a malta não vai para nova e os 40 não tardam a chegar! 

Sempre ouvi dizer que é aos 40 que a lei da gravidade mais ataca uma mulher. Se é verdade ou não, não sei! O que sei é que o excesso de peso já andava a pesar-me nas costas e nos joelhos. E aborrecia-me solenemente andar a catrapiscar alguns outifts da nova colecção Primavera/Verão e nada do que eu gostava me servia.

Por causa disso, nos últimos tempos perdi 6kg. É verdade! Obrigado, obrigado!! (imaginem-me a agradecer-vos como a nossa saudosa Amália Rodrigues fazia) Como? Seguindo uma dieta alimentar em que posso comer de tudo, moderadamente. A horas certas e, sobretudo, acompanhada de exercício físico.

Não adoptei o modismo dos detox, nem das sementes, nem de tudo aquilo de que todos falam e criticam e desdenham, mas com a idade as nossas prioridades começam a reorganizar-se por si só. E a minha saúde, meus amigos, é muito importante para mim! Tenho dois filhos para criar e já perdi pessoas muito importantes por causa de problemas de saúde. Não que eu com isto vá evitar alguma coisa, mas no que eu puder ter um papel positivo, assim será. 

É fácil falar? Bom, agora é mais fácil falar! Pois já vejo resultados. Mas até ao momento ainda não tinha dito nada. Pois não é fácil começar um regime alimentar quando é exactamente a comida uma das coisas que me dá mais prazer. Não é fácil, sobretudo, se não estivermos mentalizados para isso. É preciso, antes de mais, querer. Depois, concentração. Capacidade de resistência e esperança nos resultados.

Minhas queridas, não vale a pena dizer que "é agora" quando a mente não é isso que sente. Quando não é isso que a mente nos diz que quer. Não vale a pena, também, arranjarem subterfúgios para adiar essa decisão quando, realmente, sentem o peso do excesso de peso no vosso dia a dia. Também não vale a pena criticarem quem faz por isso ou dizerem em voz alta que se sentem bem com o corpo que têm quando, na realidade, sofrem o mesmo que eu quando entram numa loja e nada vos serve ou quando vêm uma amiga vossa que está sempre tão gira e sem grandes investimentos. Apenas e só pela sua figura que tem tudo lhe cai bem. Tudo faz vista.

Dá trabalho? Dáááá!!! Imeeennnso!! Dá muito mais trabalho cozinhar de uma forma saudável. Mas também é muito mais desafiante o nosso papel na cozinha e nas compras e até por aqui, na net, onde encontramos todo um mundo de alternativas que nos permitem ter uma alimentação mais cuidada, sem exageros e sem constrangimentos.

É tudo uma questão de equilíbrio. Se num dia disparato à mesa, no dia seguinte sei que tenho de fazer o exercício com que me comprometi comigo mesma. E assumo isso como um verdadeiro compromisso na minha agenda pessoal. Durante o dia também devemos equilibrar o que comemos e muito mas mesmo muito importante: não fazer disto uma bandeira! Não fazer disto uma preocupação! Pois o fruto proibido é o mais apetecido. Ah! E o meu exercício, também este equilibrado e de acordo com as minhas capacidades, não o faço dentro de quatro paredes.

A verdade verdadinha, são os chineses que a sabem e traduzem no seguinte provérbio:

Coma metade, ande o dobro e ria o triplo.

Uma equação que dá trabalho, mas cujos resultados superam tudo isso. Não espero ser inspiração para ninguém, mas se quiserem acompanhar-me é só mandarem-me um e-mail. Está ali, do lado direito, através do formulário de contacto. E, em conjunto, torna-se tudo muito mais fácil.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Um arrepio na espinha (blognovela)

O telefone tocou. Fora de horas. E o telefone tocar fora de horas sempre fora mau presságio. As fracções de segundo até atendê-lo parecem uma eternidade. E tudo passa pela cabeça de uma pessoa. Tudo. De mau. Está bom de ver.

Ao olhar para o visor, a Madalena não queria acreditar. Dizia "Amor". Amor? Mas o que será que ele me quer? A estas horas?!? E atendeu:

- Estou?
- Sim? Madalena?
- Sim, sou eu... olá...

Não falavam desde o dia em que ele saiu de casa.

- Desculpa lá as horas, mas estou aqui de volta do IRS e precisava de falar contigo.
- Ah... sim, pois é... já nem me lembrava disso... (Olha que merda! Afinal era isto que me queria?)
- Este ano ainda temos de fazer isto juntos. Por isso queria combinar contigo para juntarmos os recibos e ou eu ou tu ou os dois juntos, não sei, temos de tratar de fazer isto.

Silêncio...

- Madalena?
- Sim... estava aqui a pensar...

Silêncio...

- Estás aí?
- Sim, estou. Estava aqui a pensar no poder de um papel carimbado por uma conservatória. Já viste bem? Saíste de casa sem pedires licença, mas agora precisas de pedir-me licença para fazer o IRS. É engraçado, não achas?
- Engraçado... não tinha pensado nisso... não assim, dessa maneira...
- Bom, na verdade temos mais coisas para tratar. A casa está em nome dos dois. Tu levaste um carro, mas o que deixaste também está em teu nome. Os seguros, os contratos da água, luz, gás, internet, televisão. As quotas dos ginásios estão a sair da mesma conta. Também temos dois PPR's. Acho que temos mesmo de falar.
- Sim, é verdade. Temos isso tudo para resolver...

Silêncio...

- Como é que queres fazer?
- Eu? Como é que eu quero fazer?
- Sim? Encontramo-nos?
- Para quê?
- Madalena, então?
- Então o quê?
- Temos coisas para resolver. Como é que queres fazer?
- Queres mesmo saber? Então olha: quero que voltes para casa. Quero dar outra oportunidade ao nosso casamento. Sei que falhei. Sei que não estive presente para lá do papel carimbado. Sei de tudo o que correu mal. Assumo as minhas culpas. Mas agora peço-te que reconsideres. Que avalies se a troca que fizeste não passou de um impulso. Quero que penses realmente se eu merecia a tua saída repentina. Sem aviso prévio. Sem uma carta melodramática que me fizesse sentir melhor ou pior, não interessa. Mas assim, como tudo se deu? Achas bem? ACHAS BEM?

Silêncio...

- Tem piada...
- O que é que tem piada??
- Agora já falas. Por telefone, é certo. Mas agora já falas. Quando te ligava, despachavas-me. Quando entravas em casa, já eu tinha adormecido de tão tarde que era. Quando eu entrava em casa e tinha a sorte de te apanhar lá, estavas de saída. Falar nunca foi o teu forte. Pelo menos comigo, claaaro!! Mas agora já falas. E mais! Querias uma carta? Uma despedida? Um adeus? Um ponto final, Madalena?
- Sim, qualquer coisa.
- Qualquer coisa era o que tu achavas que servia para mim. E não serviu. Por hoje chega, Madalena. Um dia destes voltamos a falar.

Um arrepio na espinha. Um murro no estômago. Um tapete puxado debaixo dos pés. Foi assim que a Madalena se sentiu. Foi assim que o seu futuro ex-marido a deixou depois de um simples telefonema.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A vida é uma roleta russa

Não no sentido de ser um jogo de sorte ou de azar, mas no sentido giratório da coisa. Nunca está parada. Dá voltas e voltas. E quando menos esperamos surgem oportunidades, novidades, desilusões, perdas, ganhos, tudo o que conseguirmos encaixar.
 
Na mesma semana:
 
- uma gravidez não planeada virou do avesso a vida de uma amiga minha. Primeiro, chorou compulsivamente. Depois, sorriu. Uma semana depois já tem tudo planeado para esta nova fase da vida;
 
- uma dívida inesperada assombrou as contas de uma família que conheço. Inesperada, porque, afinal, não era uma dívida. Era uma falha de quem acusou a dívida. E sabem que mais? Ainda receberam dinheiro à conta disso. Mesmo a calhar, pois na mesma semana avariou-se o frigorífico e a máquina de lavar roupa (aqui lembrei-me da filosofia do filme Up altamente...);
 
- um divórcio que nos surpreendeu a todos. Daqueles casais com quem adoramos estar. Daqueles casais que viajam imenso, de bem com a vida, com filhos, bem estar profissional. Mas parece que o bem estar pessoal é que não estava a condizer com o resto. Já a minha avó dizia: O que vai no convento, só sabe quem está lá dentro. E é mesmo assim. De nada nos vale pensar que sabemos coisas que não nos dizem respeito. Lembram-se deste post?;
 
- uma amiga que me liga a dar-me uma notícia. Não sei se está feliz se não. Mas compreendo-a. Saber que o marido vai trabalhar para fora, noutro continente, assim, de um dia para o outro... é ambíguo, certamente... Duas crianças. Uma ainda bebé. E ainda há dias perguntei ao marido dela: Então e agora que acabaste este projecto? O que se segue? Ao que ele me respondeu: Há-de aparecer qualquer coisa.
E apareceu...
 
A vida é assim mesmo.
A cada minuto pode virar tudo do avesso.
Às vezes, pela positiva. Outras... nem por isso...
Mas de todas as experiências, surpresas ou o que queiram chamar a esta bola que rola sem parar na roleta, há sempre uma lição a tirar. A que melhor servir a cada um.
 
A vida é assim mesmo. O melhor a fazer é vivê-la.
 

Acabei o Dia da Mãe no hospital

Não é coisa que a malta queira lembrar para sempre, mas a verdade é que de uma lombalgia lixada que logo de madrugada começou a dar-me conta do juízo, só consigo lembrar-me de coisas boas.

Os miúdos estavam excitados. Era dia da mãe, caramba! E não percebiam porque é que eu não me levantava da cama. À vez apareciam no quarto. Várias vezes. Até que ele disse para o prédio todo ouvir:

- MANA, ANDA! A MÃE JÁ ESTÁ ACORDADA!! (até vocês desse lado devem ter ouvido o miúdo)

Sim, estava acordada já há muito tempo. Não conseguia era mexer-me. 

Irromperam pelo quarto adentro. Levantaram os estores e montaram um circo daqueles. À criança feliz que esperou tantos dias por aquele dia. Tantos dias para darem à mãe o presente do dia da mãe. Os postais que ilustraram. Tudo o que tinham congeminado. 

Ela veio de pequeno-almoço num tabuleiro. Ovos mexidos com sementes de chia (adorei o pormenor) e iogurte líquido. Ele trazia um envelope feito de uma folha de papel branca A4 e cheio de fita cola laranja às bolinhas brancas. Lá dentro, um desenho. Nós os quatro, a nossa casa e um carro. Para ele era um Smart. Para mim um carocha. Depois o presente. Uns brincos. Ou melhor, um brinco. Que o outro perdeu-se no caminho. Uma bola rosa choc que ele fez para mim. Só para mim.

Depois ali ficaram e eu sem me levantar. Foi o melhor despertar de Dia da Mãe.

Consegui fazer o almoço, assim toda curvada. Ainda fizemos um bolo todos juntos, pois pareceu-me que mereciam. Mas lá estava eu. Toda curvada. Dobrada, mesmo. Como se fosse possível estar em posição fetal em pé. 

Aqueceram-me vezes sem conta uma almofada de caroços de cereja para me aliviar as dores. O petiz fez-me cócegas massagens nos rins, pois era aí que me doía. Coitadinha da mãe. Até que ao fim do dia disse ao meu marido:

- Se calhar é melhor ir ao hospital.

E lá fomos. E lá estive. Mas não me posso queixar. Fui bem atendida. Só a minha figurinha quando entrei deixou todos em sentido. Até o segurança me ofereceu uma cadeira de rodas. A enfermeira da triagem nem me deixou ir para a sala de espera. E o funcionário da secretaria, quando fiz o registo, ainda me perguntou se estava para ter um filho. Sim, eu estava toda dobrada e ele só me via do pescoço para cima.

Doem-me os rins. Disse a um. Doem-me os rins. Disse a outro. Doem-me os rins. Voltei a dizer. E ainda o repeti a uma senhora que estava cheia de pena de mim pelo sofrimento em que me encontrava.

Não eram os rins. Era uma lombalgia. Aguda, por sinal. Vai de injecção, mais dois comprimidos. E, no fim, um médico todo giro e atencioso explicou-me tudo com calma e numa linguagem perceptível. 

Parabéns às equipas de ontem à noite do Hospital São Francisco Xavier. Obrigado pela vossa paciência e carinho. Obrigado à enfermeira que não tinha macas livres e que me levou para a sala de pequena cirurgia para eu poder deitar-me e ficar resguardada da sala de espera e do incómodo daquelas cadeiras. Obrigado à equipa de radiologia que teve uma paciência de Jó para conseguir fazer-me os RX's. Obrigado ao médico que foi ofendido por uma utente, de forma obscena, sem razão nenhuma, por não ter reagido à ofensa. E obrigado ao meu marido por, mais uma vez, ter tomado por suas as minhas dores.