segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Preciso de silêncio

Desde sempre, desde que me lembro de mim, que preciso de estar comigo. Preciso de momentos de introspecção, de reflexão. Vivo a vida todos os dias como um fósforo, tal como ela é, mas o silêncio é o meu melhor amigo. Nele encontro as respostas de que preciso. Encontro-me com as minhas dúvidas. Encontro os caminhos que procuro. Nele, perco-me por momentos e organizo-me para a vida.
 
Diariamente consigo ter momentos de silêncio. Na azáfama dos dias, consigo entre uma hora e outra aproveitar os momentos em que estou só para esse encontro. Penso imenso sobre tudo. Penso profundamente. E consigo continuar essa reflexão se for interrompida. Consigo que o meu momento de silêncio interrompido continue num silêncio próximo exactamente a partir do mesmo momento em que terminou.
 
Pode parecer estranho para quem me conhece e me vê sempre a correr. Pode parecer estranho para quem me conhece e sabe que tenho dois filhos, um emprego, um livro para promover e que estou a meio de um curso que estou a tirar. Pode parecer estranho, mas quem me conhece sabe que me organizo assim. Comigo.
 
Há 4 dias que não escrevia aqui. E como me faz falta vir aqui! Mas não foi porque precisava de silêncio. Foi, simplesmente, porque tinha um barulho ensurdecedor dentro de mim. E, quando assim é, prefiro não escrever. Prefiro não correr o risco de não me fazer entender.
 
Preciso de silêncio. De vez em quando preciso de silêncio. Para conseguir ouvir. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Reunite

No curso que estou a tirar aprendi que existe uma figura de estilo pela qual os portugueses são conhecidos por essa Europa fora, ou seja, portuguese meeting style. E o que é isso mais concretamente? Nada mais, nada menos que a conhecida e famosa "reunite". Um mal de que padecem muitos portugueses. A reunião sobre tudo e sobre nada. E, mais concretamente, as reuniões que se fazem dentro das reuniões.
 
Somos conhecidos por reunir demais e por fazermos pequenas reuniões dentro das reuniões. Falamos sobre tudo. Discutimos tudo. E só depois é que discutimos o que realmente nos levou àquela reunião.
 
É certo e sabido que somos um povo que gosta de conversar. Socializar. Descontrair. Discutir assuntos sérios à mesa. Pelos vistos, os nossos parceiros europeus criticam-nos esses modos, mas a verdade é que gostam de vir a Portugal e serem recebidos "à portuguesa". Gostam de comer e beber e discutir assuntos sérios nos nossos restaurantes. Mas... adiante...
 
Com o objetivo de diminuir o tempo das reuniões e torná-las mais concisas e conclusivas redigiu-se uma carta de intenções sobre o que deve ser uma reunião. Quem a redigiu? Os chineses. Perdão! Os golden chineses. Pois também queriam figurar o seu método de trabalho. (Coisa que ainda não conseguiram) Para eles reunir é:
 
- juntar as pessoas envolvidas no assunto a discutir... EM PÉ!
- marcar uma hora de início atípica e uma hora para acabar. Tipo das 14.12 às 14.27
- distribuir uma ordem de trabalhos concisa
 
Passado o tem previsto é tudo posto a marchar.
 
Hoje tive uma reunião de trabalho no gabinete da boss. Assunto sério e que serviria de preparação para uma próxima reunião com agentes externos. Era preciso afinar agulhas. Por isso pensei que iria ser concisa. Pus-me a observar e, espantem-se, lá vieram as reuniões dentro da reunião e MAIS, depois de tudo acertado lá vieram mais reuniões dentro da reunião.
 
É, de facto, uma perda de tempo. Mas nós somos assim. Encalorados. Gostamos de falar do que nos move, do que nos apaixona e das experiências que tivemos. Gostamos de partilhas emoções e somos, antes de mais, grandes contadores de histórias. Gostamos de confraternizar com os colegas e de ouvir o que têm para contar. Mas também gostamos de trabalhar. Somos inventivos. Criativos. Divertidos. Recebemos bem e não olhamos a quem. Por isso, excelentíssimos senhores que nos criticam, lembrem-se que em Portugal são bem recebidos. E que o calor que levam daqui não tem preço nem encontram em mais lado nenhum.

Outra pérola do mais novo

Recebi um recado da escola dele sobre os cuidados necessários para evitar e eliminar piolhos. Senhor meu filho, sempre muito atento a todos os assuntos, vira-se para mim:
 
- O meu amigo X tem piolhos, mãe!
- Como é que tu sabes?
- Porque ele coçou a cabeça!
- Mas isso não quer dizer que tenha piolhos!
- Ai tem sim, mãe! Eu vi-os a subirem pelos ténis dele!!
 
E pronto. É isto!
Senhor meu filho tem sempre uma explicação para tudo! :)

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O meu marido é o Richard Gere

Quem viu o Shall we dance/Dança comigo com o Richard Gere e a Jennifer Lopez? Um filme sobre um advogado que vivia nos subúrbios da cidade, acomodado à rotina profissional e familiar e que todos os dias, quando regressava a casa de comboio, ficava a olhar para a janela de uma escola de dança cuja professora era gira como tudo?
 
Quem viu este filme, sabe que se tratava de um homem de meia idade que precisava de dar mais emoção à sua vida. E aprender a dançar pareceu-lhe ser uma boa ideia. O filme está giro, claro, com actores destes!! Reflete bem a sensualidade que a dança confere aos pares e, também, o que passa pela cabeça dos homens.
 
Agora, depois deste introito, o verdadeiro motivo deste post.
Senhor meu marido, charmoso como o Richard Gere, grisalho como o Richard Gere e, ainda por cima, homem do Direito, tal como a personagem do Richard Gere neste filme, é um homem que não nasceu com dotes de dançarino. Não tem swing, é descoordenado, tropeça nos pés quando é para dançar com um par, foge a sete pés de tudo o que são ritmos africanos, não consegue gingar e, imaginem, consciente desta falha, no dia do nosso casamento armou tudo para abrir o baile com um slow. De maneira a não dar parte fraca. Sim! Porque falhar um slow era difícil, certo?
 
No entanto, tiro-lhe o chapéu. Tem evoluído bastante. Já não foge de dançar. Quer, mesmo, dançar. E agarra-me! Ele querer quer, mas ao fim de dois minutos já estou cansada de ir a conduzi-lo. De fazer força para a direita quando é para ir para a esquerda. De não conseguir usufruir da música porque ao ouvido dele estou a dizer: um, dois, um! Um, dois, um! (quando a dança obriga a um, dois, um, dois ou um, dois três, um, dois três... nem vos conto...) Porém, a sua evolução já lhe permite aventurar-se na dança com outras pessoas, além de mim. Nada mau! (lembro-me sempre de uma noite de Santo António na Bica em que ele passou por mim a arrastar a minha irmã.... um filme...)
 
Pois bem! Apesar desta evolução, ainda há muito caminho para desbravar. E senhor meu marido agora, aos 43 anos de idade, anda com a ideia de meter-se numa escola de dança!! What??? 
 
Primeiro,
Se fosse aqui a je a querer meter-se numa escola e passar os fins de dia a dançar com aqueles jeitosos dos professores é que eu queria ver!
 
Segundo,
Passo a vida a levar à escola, a levar à natação e o diabo a sete, porque ele trabalha horas a fio e agora já arranjava um tempinho para isso!
 
Terceiro,
Enão e se lhe calha uma Jennifer Lopez como professora e o homem começa a achar graça à coisa e, de repente, chega-me a casa a dizer que vai participar nas olimpíadas das danças de salão?
 
Quarto,
O meu filho passa a vida a relatar as coisas que fazemos. Havia de ser giro o pai entrar na escola e toda a gente a rir-se ao imaginá-lo de calcinhas de licra e sapatilhas de ballet!
 
Quinto,
Então eu ando a adiar a depilação a laser por causa do custo elevado da coisa e agora ele ia gastar dinheiro assim?!? A dançar?!?
 
Não posso crer que ele pondera, MESMO, aprender a dançar com outra qualquer. Sim, porque se é para ir eu também vou!! Ando mesmo com vontade de aprender quizomba! (tooomaaa) Mas sempre quero ver onde é que isto vai parar. Se vai dar em alguma coisa ou... nem por isso..
 
Seja como for, deixo aqui 3 minutos do filme. Só para perceberem os riscos que ele quer correr.

 
(Prometo que conto o resto. Desde que se registem novos desenvolvimento)

Directamento de Ferreira do Alentejo

A Maria Amélia comprou o "Onde está a avó?" e no dia em que o recebeu mandou-me esta mensagem:
 
Gosto muito de a ler. Já acompanhava o seu blog e sempre que fala do Alentejo fico muito feliz. Quando vi que ia lançar um livro fiquei com muita vontade de ir a Lisboa, mas não pude. Tive de ficar com a minha mãe... Já estava à espera de gostar da história e hoje confirmei isso mesmo. Também já o mostrei à minha mãe e vou levá-lo para a minha escola para mostrar às minhas colegas. Muitos parabéns. A história é linda e muito verdadeira.
 
Imagino a Maria Amélia a escrever isto com sotaque alentejano. E foi assim que ecoou o e-mail na minha cabeça. É por estas coisas que eu ainda ando por aqui. Pois são estas coisas que me aquecem o coração.
 
Obrigado Maria Amélia. Muito obrigado.