segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Directamente do Funchal



Foi com a promessa de enviar-me um bolo do caco que a Fernanda Alheiro me encomendou o livro. Caso gostasse, é claro, daquilo que lhe estava reservado. Daquilo que tinha saído das minhas mãos. E da minha cabeça. E do meu coração. Para todos os que quisessem ler.
 
O bolo do caco ainda não chegou, pois os e-mail's chegam mais depressa e parece-me que a Fernanda teve uma ideia melhor:
 
D. Cláudia Guerreiro Marques,
Parece que vou ter de lhe enviar um bolo do caco. Aliás, um por mês durante um ano, porque adorei, amei, estou apaixonada pelo seu livro. Acho que está ao nível da minha adoração pelo bolo, por isso convido-a a vir ao Funchal para não corrermos o risco do bolo se perder pelo caminho ou ficar contaminado e perder o seu sabor original.
Muitos parabéns. Para quando o próximo?"
 
Cara Fernanda, como já tive oportunidade de dizer-lhe, terei todo o gosto em ir ao Funchal. Fica prometido que avisarei com antecedência para dois dedos de conversa e um abraço. Quanto ao próximo livro... primeiro vou gozar este.
 
Um beijinho no coração.

Folga?!?

Segundo o dicionário folga significada tempo de inactividade de um trabalhador.
 
Para uma mãe deve ser qualquer coisa como:
tempo que a mãe demora entre acabar uma tarefa e começar outra, sendo que pelo meio está a sua capacidade multifunções. Folga, para mim, resume-se ao tempo do banho. Quando consigo tomá-lo sozinha...

domingo, 9 de novembro de 2014

Coisas que encanitam os miúdos...

Ou melhor, a mais velha. Ela que gosta, acompanha e comenta as notícias. Ela que não fica satisfeita com um Porque sim!, mas que procura sempre pelo que lhe faça sentido. Ela que é uma curiosa nata e gosta de ir mais longe sobre as questões que desconhece. Ela que andou preocupada com o Ébola. Ela que agora anda preocupada com a Legionella.
 
Isto de tê-los a fazerem perguntas para as quais nós próprios não temos respostas é deveras complicado. E faz-nos sentir impotentes. E numa situação destas que está a acontecer mesmo aqui ao lado, para quem não tem noção dos limites, das distâncias, da forma como as doenças se disseminam ou, sequer, sobre o que significa foco neste contexto, ouvimos as coisas mais inesperadas...
 
Se calhar é melhor não ir à piscina esta semana.
Tenho sede. Posso beber leite?
Estou a ficar preocupada...
Será melhor pôr uma máscara quando for tomar banho?
 
E andamos nisto.

Aqui jaz um homem livre e de bons costumes...

Ontem jantei com um grupo de amigos com quem se proporcionam, sempre, encontros de grande entusiasmo em torno de reflexões profundas sobre tudo e mais alguma coisa. Digo "profundas", porque partilhamos o mesmo vigor nas discussões e gostamos do sabor do calor de uma boa troca de ideias. E se, por acaso, nunca tínhamos reflectido sobre os assuntos que este ou aquele coloca em cima da mesa, rapidamente fazemos um exercício oral, e introspectivo, de resposta e contra resposta. Uma espécie de tertúlia camoniana que anima as hostes e, ainda por cima, acompanhada de bebidas e petiscos. À verdadeira imagem do portuguese meeting style.
 
Gosto, particularmente, de acabar a noite com a sensação de ter tido uma troca de ideias válidas, enviesadas pelo saber de experiência feito, salutares e que me deixem a pensar sobre os temas debatidos. Gosto, talvez, por sentir que me enriquecem. E que são um bom ponto de partida para novas descobertas. Pesquisas. Conclusões.
 
Falámos de coisas tão diversificadas como literatura, homossexualidade, maçonaria, filosofia, antropofagia e, espantem-se, epitáfios. Um dos nossos amigos teve um momento altamente revelador, pelo menos para mim, quando disse que anda a pensar e a tentar escrever o seu epitáfio à luz daquilo que foi a sua vida até hoje, mas com a certeza de que esse teria de ser um documento em aberto, alvo de vários updates ao longo da vida. A que lhe falta viver.
 
Disse-nos que gostaria de ser citado e que tem a mais pura consciência da inconstância da vida. Do desconhecimento sobre a morte. Da inoperância sobre a hora final. Comparou essa falta de tacto à Alegoria da caverna de Platão exemplificando como a escuridão perante a verdade tem o poder de aprisionar-nos a uma curta visão sobre o que andamos cá a fazer. E até quando. Somos, portanto, uma espécie de prisioneiros da caverna. Alegoricamente.
 
Admiro esta sua tentativa. Escrever sobre nós próprios, adjectivando-nos, não é tarefa fácil. Resumir o que fomos  e vivemos numa lápide, ainda pior. E os que ficam? Não serão esses os únicos que vivem, realmente, a nossa morte? Não dependerá deles a nossa memória? Não deveremos libertá-los daquilo que é a nossa vontade uma vez que já não estaremos cá? Ou deveremos continuar a impor-nos mesmo depois de encontrarmos aquilo que não sabemos que nos espera? Admiro a sua tentativa. A finta que tenta fazer à caverna. Essa caverna onde vivemos aprisionados.
 
Não consegui dizer que o meu epitáfio não serei eu a escrevê-lo nem ninguém que fique cá a carpir a minha morte. Pois, pura e simplesmente, não quero continuar a impor a minha vontade aprisionando os que ficam. Não quero a romaria de Domingo ou do Dia de Todos os Santos em função de mim. Não quero impor a perpetuação da minha memória. Quero, pura e simplesmente, ser cremada. Já o disse a quem de direito. Porque estas questões têm de ser resolvidas. Agora. Em vida.
 
Acredito numa coisa. Sobre esta escuridão que é a caverna de Platão e a que Sócrates, pleno da sua maiêutica, respondeu com o célebre só sei que nada sei. Com a consciência de que somos princípio, meio e fim em nós próprios, indivisíveis.  Acredito que há vários mundos. Os mundos das coisas. E no mundo dos vivos, tratam-se de coisas dos vivos. No mundo dos mortos, logo se vê. Quando lá chegarmos.
 
Mas meu caro amigo que andas a tentar escrever um epitáfio sujeito a várias actualizações ao longo da vida. Se encontrares uma forma de fintar a escuridão que nos aprisiona, não deixes de partilhá-la. Quanto mais não seja como desculpa para mais uma tertúlia. Desta feita, bocagiana. Com a certeza de que não será expurgada a tua/nossa produção, tal como fizeram ao poeta. A não ser que resulte numa expurgação que te leve a uma verdadeira epifania sobre a morte. Ou sobre a vida. No entanto, desculpa desapontar-te, mas a ideia não é nova. Já o poeta maldito, assim conhecido pela sua linguagem vernácula, teve a mesma ideia. E foi nessa época em que tanto escreveu sobre o momento da partida que a sua poesia ganhou maior riqueza.
 
Das duas uma, ou estás ao nível da sua intelectualidade ou estás a meter a foice em seara alheia. Olha só o que ele nos deixou:
Já Bocage não sou!
Já Bocage não sou!... A cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura:
 
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento;
Musa!... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse, pura!
 
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
 
Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade!
 
É de poeta! Ainda assim  arriscas?

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Conversas de pé de orelha #5

O tema "euromilhões", e mais concretamente o último prémio que saiu em Portugal, ainda mexe. Ouvem-se coisas giras. Toda a gente sabe muito bem o que fazer com o dinheiro. Toda a gente tem planos de futuro. Mas o dinheirinho, esse jeitoso, nem sombra dele. Só planos. Só teoria.
 
Hoje à hora do almoço, numa mesa ao lado daquela onde almocei, estava um grupo de amigas ou colegas de trabalho a falar sobre isso. Riam-se, faziam planos. Ajudavam este e aquele. Deixavam os empregos. Viajavam o ano inteiro.
 
Uma delas, a que se ouvia mais e melhor, acrescentou:
- Eu cá punha a minha sogra num cruzeiro durante 10 anos.
 
Riram-se todas. (até eu) Mas o que ela não estava à espera era do marido. Aquele senhor que estava mesmo a chegar à mesa quando ela disse isso. Aquele senhor que vinha sorridente e ficou com cara de poucos amigos. Aquele senhor que lhe disse:
- Bom, estás tão animada a falar da minha mãe que, se calhar, é melhor não interromper...
 
Aquele senhor que se foi embora como veio. Sem ninguém estar à espera.
 
Tirem daqui as vossas conclusões. :)

(E não me venham dizer que é feio ouvir as conversas dos outros. Mas eu não sou surda e só não ouviu quem não quis...)