sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Há uma linha que separa...

... a minha vida dentro de casa da minha vida fora de casa. Uma linha que separa a pessoa que sou com a família e os amigos e a pessoa que sou nas várias esferas em que me relaciono. Uma linha invisível, mas perceptível.
 
Somos várias pessoas ao mesmo tempo. Nós: o resultado das nossas vivências. Namorados e namoradas. Maridos e mulheres. Colegas de trabalho. Pais e mães. Vizinhos. Conhecidos. Encarregados de educação. Uma (entre muitas) pessoa que vai ao supermercado. Que frequenta o café de sempre. Que faz programas em família. Que faz programa com amigos. Que, por vezes, participa noutros programas. Que vai ao ginásio. Que vai com os miúdos às actividades extra-curriculares. Entre mil e uma coisas.

Somos uma espécie de Fernando Pessoa. Temos vários heterónimos. Vários perfis comportamentais de acordo com o tempo, o espaço e as pessoas.
 
Há uma linha que separa aquilo que queremos manter dentro de cada esfera. Que nos relembra da importância que tem deixar os limites bem definidos. Não misturar assuntos ou pessoas. Mas se, porventura, isso acontece, acontece de forma muito subtil. Até sedimentar. Que a experiência de vida ensinou-nos a antever resultados.
 
Há pessoas que não respeitam essa linha. Que nos moem a paciência. Que não percebem até onde podem ir. E nós, muitas vezes, vamos deixando a coisa andar. Até ao dia. Em que arrumamos os assuntos. Fechamos as gavetas e deitamos as chaves fora.
 
Porque, apesar de invisível, essa é uma linha essencial aos bons relacionamentos.
 
Setembro, mês de recomeços e renovações, é um bom mês para isso. Para fazer as arrumações pendentes entre o lado de cá e o lado de lá da linha. Seguros. Firmes. Da melhor opção.

Está destroçado o rapaz...

Contei-vos sobre as escolas novas, a estreia do mais novo e a lancheira tão importante para ele. Mas depois de tanta preparação para começar a ser dono e senhor dos lanches diários, eis a grande novidade que o deixou destroçado: não é preciso levar lanche para a escola!! What?!? Senti nos seus olhos quando ouviu a auxiliar dizer-me para levar tudo para trás.
 
Tenho para mim que usar lancheira é, para ele, um sinal de já estar mais velho. Durante os anos anteriores em que a irmã preparava os seus lanches, em que no supermercado se falava disso ou em que no carro eu perguntava sempre o que tinham almoçado e ele dizia o que tinha lanchado, colocou sempre a questão: quando eu for maior também vou ter lancheira, mãe? E agora... nada...
 
Está destroçado por isso. E também está destroçado por outra coisa muito importante. (que passou a ser importante para ele)
 
Na escola nova passamos, todos os dias, ao lado do campo de basquete. E o moço, além de apaixonado por tudo o que é jogos com bola, fica destroçado por não conseguir chegar ao cesto. E porque é que eu ainda não sou crescido? E amanhã posso trazer a minha bola? E eles não têm cestos mais baixos? Rébéubéu, pardais ao ninho.
 
Mas, em compensação, está tudo bem com esta nova rotina. Em casa, arrumou a lancheira num sítio onde pode vê-la todos os dias. E, agora, é a bola de basquete a sua companheira diária. Não posso pedir mais. Pois estes são os dramas adequados à sua idade.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O melhor do meu dia (de ontem)


Eu: Gostaste da escola nova?
Ele: Adorei, mamã!

(e o meu coração descontraiu)

Peço desculpa!

Irritam-me algumas coisas. Poucas, mas as que me irritam, cansam-me.
Não gosto de estar cansada. Por isso, quando as coisas que me irritam podem deixar de fazê-lo se eu conseguir dar-lhes a volta, então é assim que procedo. Dou-lhes a volta.
 
Uma maneira de dar a volta ao que me irrita é reconhecer que a coisa pode irritar-me por minha causa. Porque, afinal, estava errada. Porque, afinal, o que me irrita é estar errada. Por isso, peço desculpa pelo que me tem irritado de há uns anos a esta parte. Peço desculpa a todos os que incomodei e que, com os seus comentários, atitudes ou linguagem corporal, me deram a entender que era eu que estava errada.
 
Peço desculpa porquê?
Por ensinar aos meus filhos que devem pedir licença para sair da mesa. Seja em casa, num restaurante ou em casa de alguém. Por não permitir que andem aos pinotes quando estamos a comer. Por não aceitar que se levantem quando querem. Seja onde for. Peço desculpa a quem incomodei com esta atitude antiquada.
 
Por exigir que os meus filhos não se deitem sem dar um beijo de boa noite aos pais e, também, às visitas que os pais têm em casa ou se dormirem em casa de alguém.
 
Por não deixar de querer um beijo, igualmente, de bom dia. E que cumprimentem todas as pessoas, mesmo que as vejam todos os dias.
 
Por obrigar a que peçam perdão por arrotarem à frente de alguém. E que não me ria perante essa situação. E que, ainda por cima, fale com eles sobre a forma de evitar que isso aconteça na presença de outras pessoas. Peço desculpa pela minha falta de humor.
 
Por ficar irada se derem um pum no meio da sala, à frente seja de quem for e contrariar a gargalhada geral. Por ensiná-los a retirarem-se quando têm essa necessidade. Por ensiná-los a não se rirem quando alguém faz isso. Tenho um olfacto e uma audição apuradas que, em conjunto, me tiram do sério nestas situações.
 
Peço desculpa por pedir aos meus filhos que se levantem para dar o lugar a alguém. E que não me compadeça com o coitadinho/a que ouço logo de seguida. Mas eu sou assim. Má.
 
Peço desculpa por os meus filhos faltarem a imensas festas de aniversário. Por não achar o máximo passar o fim de semana a fazer de motorista em função das suas agendas sociais. Por obrigá-los a escolher um entre dois ou mais convites. Em virtude de passarem algum tempo com os pais. Mas eu sou assim. Uma egoísta.
 
Peço desculpa por levantá-los a horas decentes ao sábado para irem comigo ao mercado. Por querer que aprendam o nome das coisas. Por parar na banca da peixeira e verem aquele horror de peixes mortos. Por parar na florista, onde converso sobre arranjos e lhes peço ajuda a escolher flores.
 
Por não admitir birras sem fundamento nenhum e ao primeiro abrir de olhos eles ficarem em sentido. Mas eu sou assim. Uma tirana.
 
Por querer que lavem os dentes logo a seguir à refeição, não permitindo que vão a correr brincar ou ver televisão. Por mais tempo que haja, se as coisas não são feitas na hora, passam. Uma e outra vez. Mas isso sou eu. Cheia de regras.
 
Por irritar as educadoras, os avós, os tios e os amigos ao não querer que os alimentem de bolachas, chocolates, pastilhas, gomas, whatever. Que percebam que o amor que sentem por eles não deve ser proporcional à quantidade de excessos alimentares que insistem em cometer. Pois onde é que já se viu isso? Em lado nenhum. Eu é que sou assim. Esquisita.
 
Por querer que andem sempre com as cadeiras auto e os cintos bem postos. Sim, há quem não o faça. E eu sei que irrito quem não o faz.
 
Peço desculpa, também, aos meus filhos por ser tão chata. Por não permitir que metam um pé na varanda ou o nariz na janela. Por não permitir que joguem no tablet ou vejam desenhos animados depois do jantar. Por querer que leiam livros e me acompanhem em algumas tarefas. Por dobrarem as meias e as cuecas. Por arrumarem os talheres lavados. Por porem na máquina a loiça que sujam. Por porem na máquina a roupa que sujam. Por terem de arrumar o que desarrumam. Por terem de fazer as suas camas. Por terem de pôr a mesa. Por terem de levantar a mesa.
 
Mas não peço desculpa pelo amor que lhes tenho. Porque amar, também é saber dizer não. E, sobretudo, ter consciência que esse amor incondicional que lhes temos não nos pode cegar. Os homens e as mulheres que serão amanhã devem ter a sua formação agora. E nós, e eu, não viveremos para sempre...

Não peço desculpa aos meus filhos pela esquisitisse de que me acusam. Não me julgo melhor mãe. Nem melhor pessoa. Apenas me dou ao trabalho para pôr em prática aquilo em que acredito.