sexta-feira, 30 de maio de 2014

40 anos! Os novos 30?

Faço anos para o mês que vem. Ainda estou nos trintas, mas cada vez mais perto dos quarentas... :(  Lembro-me de, em miúda, achar que os adultos com 30 anos eram uns velhos. Que andavam muitas vezes cansados. Que não tinham muita paciência para brincarem com as crianças. Que se reusavam a correr ou a fazer a roda comigo. Que quando se sentavam no chão (coisa rara e pouco vista) tinham alguma dificuldade em levantar-se.
 
No meu local de trabalho sou a mais nova. Somos onze. Nove mulheres! E todas me dizem que sou muito nova. Quem lhes dera estar na casa dos trinta! E saberem o que sabem hoje! Depois, ouvem-se estudos e teorias sobre os 40. Que são os novos 30. Que as quarentonas é que estão preparadas para a vida e cada vez mais bem conservadas. Jovens, bonitas e seguras. O que me alegra bastante. Mas... depois... em dias como o de hoje, penso que isso é tudo uma grande treta...
 
O que posso dizer sobre isto de estar nos trinta...
 
- que nunca pensei vir a recusar-me de fazer a roda com os meus filhos;
- que quando tenho de me sentar no chão com eles, penso sempre na figura que farei quando tiver de me levantar;
- que digo exactamente as mesmas frases e faço exactamente as mesmas exigências que os meus pais me fizeram (e que me deixavam irritada);
- que muitas vezes prefiro ficar em casa, à noite, a sair para bares e discotecas;
- que me custa recuperar de uma noitada;
- que há dias bons. Mas outros há que nem sei o que vos diga;
- que valorizamos muito, mas muito mais a família e os amigos de longa data;
- que ter amigos de longa data é uma sorte;
- que não estamos satisfeitos com nada;
- que nada nos chega;
- que, por vezes, não sabemos bem para onde nos virarmos;
- que nos questionamos sobre se ainda teremos outro filho ou não (mas esta passa-nos depressa);
- que paramos para pensar como seria a nossa vida se tivessemos seguido outro caminho;
- que pensamos em mudar de casa;
- que pensamos em mudar de emprego;
- que pensamos em mudar qualquer coisa;
- que estamos a meio caminho da segurança que precisamos para dizer não sem remorsos;
- que estamos a meio caminho de qualquer coisa;
- que os cabelos brancos nos incomodam;
- que os primeiros sinais de rugas também;
- que isto e que aquilo e tudo o mais que cada um quiser acrescentar.
 
Serão os quarenta anos os novos 30? Então terei de aprender algumas coisas, ainda. Para que no dia 29 de Junho de 2017 não se abata sobre mim uma profunda depressão... :)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Às vezes vejo-me grega!

De todas as valências atribuídas a uma mãe, cozinheira, médica, psicóloga, educadora, cabeleireira, etc., há uma que é muitas vezes esquecida: a de tradutora. Uma mãe é uma tradutora. De um dialecto não registado e que só ela compreende. De um dialecto muito próprio de cada um dos seus filhos quando começam a dar os primeiros passos na comunicação com os seus pares. É verdade que há palavras que são comuns entre as crianças, como (mãe) ou ába (água), mas há outras que ninguém, mas ninguém compreende. A não ser as mães.
 
Os meus filhos já estão crescidos... ou melhor, ela já fala correctamente. Ele, com quatro anos, é muito despachado na fala, mas por vezes ainda me surpreende. Como ontem.
 
Estive na escola dele e encontrei a professora de inglês. Falámos um pouco sobre o seu desenvolvimento, comportamento e outras coisas triviais. No carro perguntei-lhe:
- Então como é que se chama a tua professora de inglês?
- Aimisenanda!
- O quê?!?
- Aimisenanda!
- Não percebi...
- AIMESANANDA! - gritou.
 
Bom, a coisa não estava fácil. Por breves segundos pensei no assunto e... fez-se luz! Voltei ao ataque:
- Então quando a professora entra na sala o que é que ela vos diz?
- Hi, class!
- E o que é que vocês respondem?
- Aimisenanda! (Tradução: Hi, miss Nanda!)
 
Está bem que neste caso estamos a falar de uma criança de 4 anos a tentar falar inglês, mas a capacidade de compreensão dos adultos e de explicação dela é a mesma...
 
Um destes dias de manhã ao entrarmos no estacionamento da escola viu um amigo que estava com os pais já fora do carro. E se não fosse esse o seu melhor amigo acredito que a excitação não tivesse sido tão grande. Assim que o viu começou:
- Estona aqui, mãe! Estona aqui! (Tradução: estaciona aqui!)
 
Isto faz-me lembrar outra gira que acontecia até há bem pouco tempo. À saída de casa dizia-lhe:
- Vai chamar o elevador!
E ele punha-se à porta do mesmo a olhar para cima e a gritar:
- Badôôôi! Badôôôi!
O que fazia acordar os vizinhos do prédio da frente!
 
Se começo a pensar no assunto não saio daqui... Um dia destes ainda escrevo um glossário.

E com os vossos filhos? Como é? :)

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Matis Festival #3

É já no Domingo. O Matis Festival - Your Market Show. Um envento que surgiu da necessidade de dar espaço às mães a tempo inteiro que têm pequenos negócios em casa. Um evento com espaço para todos. A pensar em todos e, em especial, nas crianças. Pois não foi por acaso que foi pensado para o Dia Mundial da Criança.
 
Será no Palácio Anjos, em Algés. Um local lindíssimo, de fácil acesso, com transportes públicos e estacionamento. Também neste espaço poderão visitar o Centro de Arte Manuel de Brito (CAMB) e apreciar a arquitectura do palácio.
 
Se tiverem oportunidade não deixem de dar uma palavra à Raquel Pina, a mentora deste evento que nasceu num grupo de entreajuda entre mães a tempo inteiro que a mesma fundou no facebook.
 
E para que possam organizar a vossa agenda, deixo-vos toda a informação de que precisam. A entrada é gratuita!
 
Divirtam-se!
 



 

Presidente por um dia

Nas passadas eleições de Domingo presidi uma mesa de voto. Fui presidente por um dia! :) E assumi esse papel consciente do dever de cidadania que a todos nos assiste. Foram muitos os comentários à volta desta decisão. Ah, e tal, o que te pagam não compensa! Ah, e tal, ninguém vai votar! Ah, e tal, a um Domingo? Nem pensar!! Ou Ah, e tal, vais porque te pagam!!
 
É típico do povo português falar do que não sabe. Falar sem conhecimento de causa. Falar porque ouviu falar sobre o assunto. Mas eu, que passei pela experiência, não me importo de dar uma explicação aos mais incautos nas palavras.
 
 
Quem esteve numa mesa de voto receberá 50€. Mas apenas os cinco elementos da mesa. Os delegados não recebem nada. Levantamo-nos às 6 da manhã, porque às 7 temos de estar todos juntos para tratar da papelada. Delegados incluídos. No meu caso em concreto, e nestas eleições em particular, eram 20h quando tinha tudo despachado. Votos contados, actas redigidas, contas feitas, ocorrências, editais, etc. Tive de aguardar pelo presidente da Junta de Freguesia que, acompanhado por um elemento da PSP, tinha a missão de correr todas as mesas para levantamento dos votos. O que aconteceu pelas 21h00. Eram 21h30 quando cheguei a casa. Portanto, das 6h00 às 21h30 estive ao serviço do Estado.
 
Na segunda-feira tive direito a descansar sem penalização remuneratória, nem desconto do subsídio de refeição. Assim o prevê a lei. Este descanso estende-se aos delegados que, como referi, não irão auferir nada.
 
Espero que, até aqui, tenha sido esclarecedora.
 
No entanto, devo dizer que, para mim, 50€ não compensam nada estar mais de 15h num Domingo a participar num acto eleitoral se o meu objectivo fosse apenas esse: ganhar dineiro. Mas não era! Já sabia quais eram as condições antes de participar e isso não me demoveu. Ao contrário de muitos outros cidadãos que foram nomeados. E porquê? Porque penso que este é um dever de todo e qualquer cidadão. Penso mesmo que seria muito importante todos os cidadãos passarem por isso. Pois ganhariam muito mais conhecimento sobre o que implica o país ir a eleições. O dinheiro que se gasta. A logística imensa. As entidades envolvidas. O participar leigitimamente num processo que todos escolhemos: o de poder votar! O de poder escolher os nossos representantes!
 
Na minha mesa registou-se cerca de 80% de abstenção. Sendo que na minha mesa estavam registados os mais jovens fregueses... é muito, muito preocupante! A demissão do dever, da obrigação e do direito de votar tem muito mais peso na eleição do que as pessoas possam pensar. Elegem-se representantes com meia dúzia de votos, porque a maioria demite-se de se pronunciar. Nem que o voto fique em branco, é um dever ir votar! Não é uma forma de protesto! Mas antes deixar a decisão nas mãos dos outros.
 
Tenho pena que o descrédito generalizado na política leve a que a abstenção no nosso país cresça cada vez mais. Esse descrédito não deve ser desculpa para a não participação. Somos cidadãos. Somos reponsáveis por nós, pelas decisões do nosso país. Não podemos querer continuar a ser filhos do Estado quando não fazemos nada por ele. O Estado não é o paizinho que está cá para resolver todos os nossos problemas. O Estado não é o bicho papão que alguns querem fazer crer. E o desconhecimento desse poder que temos nas mãos, de fazermos do Estado aquilo que queremos, está a conduzir-nos a um estado lastimoso...
 
Sem valores. Sem princípios. Sem respeito pela nossa bandeira. Sem sentido de patriotismo. Já não há tropa obrigatória. Na escola os professores não podem levantar a voz. Um agente da PSP é insultado e não se pode mexer sob pena de ser suspenso da sua actividade profissional. Os mais novos judiam dos mais velhos. Não se pede licença, não se diz bom dia, nem obrigado. Não se cultiva o amor à pátria. De forma nenhuma. E essa é, antes de mais, a base do descrédito.
 
Olhamos à nossa volta e vemos um bando de miúdos novos, muito letrados, mestres e doutorados em lugares cimeiros da gestão do nosso país. Mas sem saber de experiência feito. Sem conhecimentos sobre a vida. Sem valores resultantes de uma educação para o respeito, para o saber esperar. Com uma sede de chegar a mestre antes de ser aprendiz. A correrem quando mal aprenderam a andar.
 
E depois, depois ninguém vota. Queixam-se! Mas ninguém vota!
 
Também é típico do português votar com a carteira. Tomar decisões em função da carteira. Como as facturas! Agora começam a pedi-las por causa do prémio. Ou seja, da carteira. Então porque não adoptar um método semelhante ao do Brasil? Quem não vota é penalizado nas finanças. Aqui, poderíamos não penalizar quem não vota... mas beneficiar quem vota!
 
Já que é assim que o português funciona... albarda-se o burro à vontade do dono...
 
Foi uma boa experiência. Mas triste, ao mesmo tempo...

terça-feira, 27 de maio de 2014

A mãe da semana #7

Fez no Domingo 4 anos que partiu. A mãe desta semana. Uma mãe a tempo inteiro que foi mãe de todos à sua volta. Das filhas. Dos irmãos. Das cunhadas. Das sobrinhas. A sua experiência de vida, a forma como encarou todas as suas experiências de vida, fizeram desta uma mulher de armas. Com a frase certa para todas as ocasiões. Com um sorriso nos lábios. Reconfortante.

 
Conheci-lhe a voz. O cheiro. O toque. A gargalhada forte. A boa disposição. A mão de cozinheira. O amor em cada gesto seu. As ideias. O sentido de família. Conheci-lhe as feições fortes. O sotaque alentejano. As tradições da sua terra. As curiosidades. As pessoas que conhecia. Conheci-lhe as preocupações. As tormentas. Os receios. E a paixão. Pela vida. Contagiante.

 
A mãe desta semana era minha tia. Lembram-se de ter-vos falado da mãe que não tive? Aqui. Pois essa falta foi colmatada pelas várias mulheres da minha vida. A minha avó. As minhas tias. As minhas primas. A minha irmã. A minha madrinha. Mas o lugar desta minha tia, da minha tia Vicência Mariana, era único. Único. Tal como ainda é.
Com ela aprendi uma linguagem própria de costureiras. Conheci os tecidos, as linhas, as agulhas, os nomes técnicos do seu trabalho. Vi os seus trabalhos. Da mais simples toalha ao mais elaborado vestido de noiva. Trabalhou em casa. Criou as filhas em casa. Apoiou o marido em casa. Numa casa pequena, mas para ela suficientemente grande. Cabia sempre mais um. À mesa, acrescentava sempre mais um prato. E laranjas. E romãs. E um queijinho do Alentejo. E um pão alentejano. E uns bolos de gila. Ou uns oitos para molhar no café.

Repartia o que tinha. Pois queria a casa cheia. Era assim que se sentia bem. Era assim que alimentava a alma. E era assim que gostavam de estar. Os que viviam à sua volta.

 
Partiu cedo demais. Das nossas vidas. Da sua vida. E com ela partiram tantas coisas... Uma gargalhada que, por vezes, ainda ecoa na minha cabeça. Um abraço apertado, forte, reconfortante. Nuns braços onde cabia sempre mais um. Uma voz ao telefone, sempre disponível. Uma confidente. Uma conselheira. Um porto de abrigo.

 
Partiu, além de uma mãe, uma filha, uma esposa, uma tia, uma irmã, uma cunhada, uma avó, uma amiga, uma vizinha, uma conhecida. Uma mulher com a 4.ª classe, mas imbatível na sua capacidade de acompanhar os tempos. Que voltou a estudar. Quando já era avó. Aprendeu informática. Andava por este mundo virtual. Ganhou a paixão pela leitura. E pedia-me livros para ler. Não lhe incomodavam as modernices das novas gerações. Respeitava toda a gente. Percebia que era assim. Que a vida era assim. Não conseguiu tirar a carta de condução. Faltou-lhe tempo.

 
A minha tia. A minha tia partiu muito cedo. Ainda tínhamos muitos momentos para viver. Muitos aniversários para celebrar. Muitos encontros. Muitos passeios na praia. Muitas férias no Alentejo. Muitos serões de cantorias alentejanas. Muitos abraços. Muitas gargalhadas.

 
Partiu há 4 anos. Tantos quantos tem o meu filho. Que visitou no dia a seguir ao seu nascimento. Que pegou ao colo um mês antes de partir. Que não conheceu como ela queria.

 
Em casa a sua presença é constante. No princípio não conseguia falar dela. Embargava-se a voz. Embaciavam-se os olhos. A minha filha chorava. Com o tempo, comecei a referenciá-la sempre que algo me fazia lembrá-la. E nas nossas conversas habituámo-nos a celebrar as memórias que guardamos. Homenageando-a desta forma. E porque quero que a minha filha nunca se esqueça do que ainda se lembra.

 
Quando a minha tia partiu, o meu pai, seu irmão, escreveu qualquer coisa como:
Agora percebo porque as pessoas mais velhas não sorriem tanto. Não têm tanta vontade de viver. Nem disposição. Porque já perderam pessoas muitos importantes nas suas vidas que com elas levaram essa boa disposição, essa vontade. Um bocadinho de nós. Tu, ao partires, levaste o melhor de mim.

 
Pela primeira vez senti uma forte manifestação emocional do meu pai. Esse muro que tudo aguenta. Que não chora. Que não se emociona. Imperturbável. E fiquei com medo de não mais o ver sorrir.

 
É o fado a melodia que mais me faz lembrar a minha tia. Além das modas alentejanas, é claro. Mas é o fado. Na voz da Marisa o Chuva arrepia-me. Arrepia-nos. Era um fado de que ela gostava. E é um fado que caracteriza bem a sua importância nas nossas vidas. Ouçam-no nesta homenagem que a sua filha lhe fez no dia da mãe de 2012. A minha prima Sandra. Pois, as coisas vulgares que há na vida, não deixam saudade.



Obrigado às minhas primas por me terem permitido esta partilha.

Se quiser participar nesta rúbica, A mãe da semana, envie um e-mail para
O resto... depois falamos! :)