sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Dicas com amoras #1

Começamos Janeiro com o tempo próprio para a época. Os dias andam com uma lárgima no canto do olho e uma manta pelas pernas. Mas é fim de semana. E a motivação de fazer destes dias os melhores da primeira semana do ano, supera qualquer mau-humor climatérico.
 
Este ano recém-nascido é um desafio à nossa capacidade de desafiar o que de sombrio se adivinha. A crise! Essa, que continua a fazer parte dos nossos discursos diários. Das nossas agendas. Das nossas acções.
 
Mas o Dicas com amoras foi hoje baptizado com o objectivo de dar-vos pistas sobre o que anda a acontecer por aí. Para que a cultura não morra no nosso país.
 
Para famílias
A livraria Cabeçudos no Lumiar, começa o ano com um programa de contos a cada fim de semana. Espreitem aqui o que estes especialistas têm para oferecer, de acordo com a faixa etária dos vossos filhos. Por exemplo, no sábado, para crianças entre o 1º e o 3º ano de vida Quiquiriqui, uma história que conheço muito bem.
Rica no seu conteúdo. Rica na sua imagem. Bilhete familiar: 10€. Granto-vos que valerá a pena!

 
No Museu do Oriente podem assistir e participar em Nas asas de mil tsurus entre 05 e 19 de Janeiro, a partir das 11.00. Esta actividade baseada na arte do origami é um desafio à imaginação das crianças e à expressão plástica. Uma dica para as famílias cuja informação complementar está aqui.
 




Ir ao mercado é sempre um bom programa. Então se for um mercado revitalizado, com uma nova vida, cheio de novidades, mas com a mesma alma que o caracterizava, ainda melhor. É o que se passa com o Mercado da Vila de Cascais. Passem por lá! Desde chocolaterias, a lojas de produtos tradicionais há, agora, de tudo um pouco.
Tudo a cheirar a novo. Em cada montra, um convite ao pecado! ;)

A dois ou com amigos (ou com filhos mais velhos)
Está de regresso, o Cirque du Soleil. Começa a ser hábito a cada início de ano. E que belo hábito, o nosso país receber esta troupe de artistas fantásticos, extraordinários, sem igual. É um espectáculo que deixa água na boca. Para crianças muito pequenas, é um pouco exigente. O tempo do espectáculo e até o nível de concentração necessário. Mas para os mais velhinhos já vale a pena. Também é um bom programa romântico ou para fazer com amigos. Apressem-se! Há poucos bilhetes e eles só estarão por cá até dia 12 de Janeiro.
Tudo o que precisam saber aqui.

No Lx Factory o Funky Bar terá um final de tarde dedicado a Bollywood. O DJ Yash está responsável por animar as hostes sob o lema Spicy night. E pelas 17.00 haverá uma aula aberta pelo Professor Pedro Nascimento.
Giro, giro! Passem por lá.
 
São estas as primeiras dicas do ano!
Para a semana há mais!
Até lá, façam o que quiserem. O que vos der prazer. O que vos der na real gana.
Mas façam-no para que se sintam felizes.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Uma pergunta fácil de responder

Sobretudo desde que nasceu o mais novo, o que coincidiu com a entrada dela na escola primária, tentei reservar um espaço semanal apenas para nós duas. Sem o irmão. Sem o pai. Nós duas e mais ninguém. Por norma vamos lanchar num sítio giro. Ficamos a conversar durante algum tempo.

Actualizo-me sobre os encontros e desencontros próprios da sua idade. Conta-me coisas que escapam aos relatos diários. Por vezes, tece considerações sobre determinados episódios. Por vezes, surpreende-me. E é tão bom vê-la crescer. Com tempo para ela. Só para ela.

Na última vez que saímos sentou-se connosco à mesa uma daquelas perguntas porque não esperamos.
- Mãe, porque é que decidiste que eu devia nascer?
- Como? (pensei que não tinha ouvido bem)
E ela repetiu com as mesmas vírgulas, os mesmos espaços e a mesma entoação.

Não fiquei atrapalhada. Sem saber o que responder. Fiquei surpreendida com o grau de exigência que a formulação de uma pergunta destas requer. Com a inocência que lhe reconheci. Com o seu ar seguro, de gente grande.

Disse-lhe, apenas, que se soubesse que ao decidir ter um filho seria ela a nascer, teria tomado essa decisão há muito mais tempo. E ela percebeu. Vi nos seus olhos. No leve esgar dos seus lábios. No ajeitar-se na cadeira, endireitando as costas e cruzando a perna. Como gente grande.

Não lhe disse tudo o que vai cá dentro. Era impossível. 
Não lhe disse que decidi ser mãe porque tenho esperança num futuro melhor. Que ao ter decidido dar esse passo, consciencializei-me que um filho não pode ser a tentativa de um pai ou de uma mãe remediar o que não fez e devia ter feito. Não lhe disse que quero educá-la para ser a melhor. Para fazer o que quiser. Mas para ser a melhor no que vier a fazer.

Não lhe disse que espero que venha a ser uma cidadã activa, que faça a diferença. Que tenho a esperança num mundo melhor depositada na sua sensibilidade. Que tenho medo. E que ela faz parte dele. 

Não lhe disse que todos os dias luto por um equilíbrio entre o deve e o haver neste difícil tarefa que é a educação. Omiti-lhe as minhas fraquezas. As minhas inseguranças. A minha dificuldade em engravidar. Também não lhe disse que foi ela o meu primeiro amor. Que se a repreendo, é porque a amo. Que o seu nascimento fez de mim uma pessoa melhor. 

Não lhe disse que nada sabia sobre a maternidade. Que me ensinou mais do que alguma vez possa pensar. Que foi tão importante para mim a dádiva que me foi concedida, que decidi repetir. E, por isso, é que ela tem um irmão.

Nunca irá perceber que é a culpada pelo nascimento do seu irmão. Nunca. E eu não lhe disse isso.

Talvez um dia me diga:
- Mãe, já percebi porque é que decidiste que eu nascesse.

Mas dificilmente esta vida veloz, dura e cruel conceder-me-é o tempo necessário para esperar por isso.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Coisas que não sabem sobre mim #1

Todos os anos na passagem de ano repete-se a mesma história. Eu, com a mania dos contos baseados na vida real, repito-me. Estão a ver aqueles familiares mais velhos que nos contam sempre as mesmas histórias quando estão connosco? É o que me acontece por esta altura do ano.

O meu marido já não me pode ouvir, claro. A minha filha ainda consegue esquecer-se da história de ano para ano. O meu filho ainda não percebe nada do que eu digo. Por isso, por enquanto, ainda vou tendo audiência. :)

E porquê nesta altura do ano? Porque foi mais ou menos há 20 anos atrás, nesta altura do ano, que incitada pela minha família, sobretudo pelo meu pai, participei numa corrida de São Silvestre. É verdade. Tinha uns 15 ou 16 anos. E quando me lembro disso sinto uma mistura de coisas: orgulho, pena, saudade...

Foi na São Silvestre da Amadora. 10 km de corrida. Preparei-me a preceito. Corri que nem uma desalmada. De tal maneira que não fiz o descanso que devia no dia anterior. Claro, só podia acabar mal. Mas já lá vamos!

Tinha a indumentária e o calçado certo. No dia da prova lá fui toda contente levantar o meu número para pregá-lo na camisola. E quem é que estava ali, mesmo ao meu lado? Quem? Quem? A mítica Rosa Mota! Ah pois é! Eu já corri com a Rosa Mota! Pessoa cuja história os meus filhos desconhecem e, talvez, um dia venham a saber dos seus feitos.

Riu-se para mim, a Rosinha. Hoje penso que devia ser um sorriso de escárnio acompanhado de um pensamento do género: miúdas como tu como eu ao pequeno-almoço. Mas naquele momento foi muito importante para mim.

E o meu pai:
- Tens de aquecer! Como é que estão as tuas pernas? Tens sede? Primeiro fazes assim, depois quando chegares não sei onde, fazes assado. (O meu treinador)

Tudo a postos e ao tiro da partida lá arranquei cheia de convicção. E era tanta a convicção que já não sabia bem o que fazer com ela quando comecei a ver toda a gente a correr à minha frente e eu a ficar para trás.

Olha agora... então eu que me preparei tão bem... eu que treinei tanto não consigo apanhar esta gente?

Pensei que a seu tempo lá chegaria a ver-lhes os calcanhares. Haviam de ficar cansados. E fui. Correndo. Olhando para o público que me aplaudia e dizia "força miúda! força". E a minha família onde é que andava? Já corri tanto e ainda não vi ninguém?

Mas o público, senti eu, estava ali por mim!! Pelo menos, não se foram embora antes de eu chegar!!! :)

Ah, olha! Afinal a minha família está ali naquela subida, do lado direito! Podiam ter escolhido um local mais plano, onde eu fizesse uma melhor figura. Agora, uma subida?!?

Doíam-me as pernas.

Força, Cláudia! Vai! Netinha da avó! Corre! Então, filha?!? Dá-lhe!
Só perguntei: O pai? Estou cheia de sede?
Está mais à frente!

Lá fui. Cheia de sede e de dores nas pernas. Mas porque é que o meu pai não estava ali? Mais à frente? Concentrei-me na garrafa de água para continuar com força.
Ganhei coragem e olhei para trás. Afinal, ainda vinham muitos aventureiros atrás de mim. Não era eu o pau de vassoura.

Doíam-me as pernas. E nada do meu pai. Vi uns amigos e perguntei por ele. "Já passou por aqui! Olha que ele leva limão para ti!" Limão? Que raio!

As dores eram demais. Tantas que não aguentei. Fui à exaustão. E caí! E o público ajudou-me. E passado um bocado lá apareceu o meu pai com a água e o limão. Parece que este dá força. Não cheguei a experimentar.

Agarrou em mim e levou-me. Estava terminada ali a minha aventura. Fiz 5 km de corrida. Doíam-me as pernas. Não tinha descansado. Mas é com orgulho que penso nisso. Participei numa corrida emblemática do nosso Portugal. Com a Rosinha. Sinto pena de não ter continuado com esse projecto de vida. Talvez me tenha passado ao lado uma carreira de sucesso. E sinto saudade daquele tempo. O tempo em que era uma miúda levada ao colo pela família toda. O tempo em que a família toda ainda estava cá. Os meus avós, a minha tia Vicência. Os pilares destas vidas que hoje continuam. Mas cada uma para seu lado.

Naquele tempo a corrida de São Silvestre acontecia no dia 31 de Dezembro, perto da meia-noite. Fomos para casa da minha avó. Tomei um banho. Perdi algum tempo com o chuveiro nas pernas, a tentar recuperar para a noitada de passagem de ano. E foi um banho que me soube pela vida.

Tudo à minha espera. Tudo pronto. Tudo dentro dos carros. E acelerámos para a margem Sul onde nos aguardava uma festa de arromba para comemorar a chegada do novo ano.

Valeu a experiência, sem dúvida!
Valeu ter ficado com uma história para contar!
E valeu pela conclusão: a corrida de São Silvestre, não é coisa para meninos! :)

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

DIY #2

Fazermos nós mesmos aquilo de que precisamos tem sempre algo de encantador. E quando toca à boa mesa, tanto melhor.

O que vos trago hoje é uma receita. A minha prima mais velha (já vos disse que sou de uma família de mulheres, e primas e tias...) partilhou-a comigo há uma série de anos e de tão prática, útil e fácil de fazer que é, nunca mais a esqueci.

Fica sempre bem. Toda a gente gosta. Fica com um aspecto espectacular. Quem olha pensa que passámos horas na cozinha. Passamos por meninas prendadas. E, afinal, como em tudo na vida, o segredo é a simplicidade. O menos... é mais...

Ora cá vamos nós. 

Pudim de ovos da minha prima Sandra.
Precisamos de pouca coisa.

Leite.
Ovos.
Açúcar.
Caramelo líquido.

Encontrem uma medida. A que quiserem. Um copo, uma caixa, uma malga. Tenham em conta para quantas pessoas é que vão fazer o pudim. Na imagem podem verificar que já tenho o açúcar numa caixa plástica e que essa foi a medida que utilizei. Deu para 12 ovos. Mas podem fazer com menos ou com mais.

Os ingredientes

Misturem tudo. O leite, os ovos e o açúcar.

Gosto de envolver com as varas. Quando estiver com espuma por cima, está no ponto!

O caramelo líquido serve para a forma, claro. Esta tem de ser de chaminé.

Aqui não há medidas. Ponham o que quiserem!

De seguida, tudo dentro da forma e a forma dentro do forno. A 180ºC.

Não sei quanto tempo deve ficar no forno. Vou acompanhando.
Quando abano a forma e o pudim não se mexe, está pronto! :)

Para desenformar o pudim tem de estar frio! Não façam como eu fiz uma vez...
Para arrefecer mais depressa ponham a forma dentro de água fria.

Fica apetitoso, não acham!
 Não se esqueçam de adicionar o ingrediente secreto. Aquele, que faz tudo ficar impecável...

Do it yoursef.
Surpreendam!

Todos os dias gosto mais um bocadinho

Antes de ser mãe, já tinha desistido da ideia.
Andei alguns anos a tentar. E toma medicação, e tira a temperatura, e é agora a altura certa. E começa tudo de novo.
O desalento cresce de mês para mês. Questionamo-nos. Não percebemos. Porquê connosco que até queríamos tanto. Porque é que há mulheres com carradas de filhos, sem condições nenhumas. Porque é que há mulheres sem qualquer sentimento maternal que engravidam tão facilmente, etc., etc.
São muitas das questões que passam pela cabeça de quem como eu, queria ser mãe, e não conseguia.
Desisti. Tentei aceitar o facto da maternidade não me estar reservada. E a minha vida continuou. E recomeçou, no dia em que, depois de muito tempo com essa ideia fora do horizonte, ter decidido ir a uma consulta com um especialista dos especialistas em infertilidade. Lá fui. Ou melhor, lá fomos, eu e o meu marido. A consulta custou 120€. Sim! Limpinhos. Sem seguros, acordos ou o que mais. E não valeu de nada. Não valeu, porque fomos lá só para ficarmos a saber que eu estava grávida!
É verdade!
Não me tinha apercebido. 6 semaninhas de gente dentro e para mim estava tudo normalíssimo. Foi o teste de gravidez mais caro da minha vida.
Naquele dia, não senti nada. Nem alegria, nem tristeza. Pusemo-nos a caminho de casa sem dizer uma palavra. A chover, no meio do trânsito. "E agora? O que é que queres fazer?" - perguntou-me ele. "Não sei... se calhar é melhor dizer a alguém, não?". Quando cheguei a casa dos meus pais já estava outra!
Acho que os meus filhos não sabem o quanto gosto deles.
Não sabem. Não imaginam o que senti quando soube que estava grávida deles. (nem eu sei bem)
Das duas vezes foram sentimentos e experiências diferentes. A própria descoberta do meu estado de graça, também foi inusitada, de ambas as vezes. A única coisa em comum foi que, em ambos os casos, já tinha disistido da ideia.
Ainda bem que aconteceu. Foi quando menos esperei, mas talvez quando estava mais preparada. Tinha de ser assim.
Das duas vezes, os partos aconteceram à sexta-feira. E, também das duas vezes, no sábado senti que já gostava mais deles do que horas antes. É curioso, porque não sabia se aquilo que estava a sentir era mesmo assim. Da primeira vez, senti e tive vergonha de dizer. Da segunda, voltei a sentir, com a mesma intensidade e disse-o a quem estava na visita. E quem estava na visita compreendeu-me tão bem...
Todos os dias gosto mais deles do que gostava no dia anterior. Não sabia que ía ser assim.
Agora compreendo os pais. As suas preocupações. Mesmo quando os filhos são já adultos. O mesmo discurso para os seus filhos, ainda umas crianças aos seus olhos.
Todos os dias gosto mais deles. Todos os dias, mesmo! Sem tirar nem pôr. Às vezes penso que vou rebentar de tanto sentimento.