terça-feira, 22 de outubro de 2013

Este país não é para velhos!

Escrevi aqui sobre este livro. Já passaram uns anos. Na altura muitas pessoas nem sabiam que era o título de um livro (da autoria de Cormac McCarthy), mas antes de um filme. O mesmo tinha sido adaptado pela indústria cinematográfica e tinha conquistado o óscar de melhor filme (2008). Isso... toda a gente sabia...

Mas a força do seu título faz com que dificilmente nos esqueçamos do mesmo, sendo comum ouvi-lo aquando de alguma injustiça.

Nos dias que correm cada vez mais repito-o em silêncio, como se de um eco se tratasse. Vivemos num país assim, que não é para velhos. Mas, para mim, se isto já por si é assustador, fico ainda mais assustada quando me apercebo que a definição de "velho" sofre alterações de dia para dia.

No dicionário encontramos a seguinte: qualidade do que existe há muito tempo ou tem mais idade. Mas, esperem lá, o que existe há muito tempo, não é o que tem mais valor? O que tem mais idade, não é mais conhecedor? E em que idade é que começamos a "ter mais idade"? Estou a ficar baralhada...

Estou na casa dos 30 (a caminhar para os 40...). Penso que ainda sou jovem. Mas quando faço uma breve pesquisa online pelo mercado de trabalho (escasso) sinto-me uma v-e-l-h-a!! Idade máxima para concorrer: 30 anos! Requisito: experiência na área! ("muita", acrescentam no contacto posterior). Isto é indecente!

É indecente viver num país assim! Somos jovens (ou não, depende do ponto de vista) e caminhamos... para velhos, claro está! E os que hoje são velhos, claro está, já foram jovens! Trabalharam uma vida inteira a pensar na sua velhice. A pensar numa forma de viver sem sofrer, de transmitir ensinamentos aos mais novos, de não serem um fardo para ninguém. Resultado? São velhos e ponto final. Não valem nada!

Vivemos num país, assim. Em que, ser velho, é sinónimo de esquecimento. Em que ter experiência de vida, é perigoso! Em que a vontade de viver cedo começa a desvanecer!

Não serão estes os velhos que sustentaram o nosso Estado durante anos a fio? Não serão estes os velhos que ajudam os novos a sobreviver? Não serão estes os velhos que, sem querer, são fundamentais para esta geração permanecer?

Quantos velhos, com as suas parcas reformas, sustentam filhos e netos que se viram sem pão pelo estado da nação? Quantos velhos contam feijões por se verem sem tostões? Quantos velhos, trapos esfarrapados, sem valor na sociedade, nos ensinam que a juventude não tem idade?
Imagem de Pedro Cruz
Este país não é para velhos! Pois não! Nem para jovens, nem para intermédios... é para homens sérios... que nos desgraçam a vida, o coração, e até a razão! É para homens sérios... sentados em ministérios, verdadeiros mistérios do coração!

As mãos que me sustentam

Quando se fala em embalar (de "embalo" e não de "embalagem"), rapidamente construímos a imagem de uma mãe com o seu bebé ao colo na hora de dormir. E para pessoas mais criativas (ou mais românticas), esta imagem ainda vem acompanhada de uma janela de fundo a completar o cenário da mãe sentada numa cadeira de baloiço.
 
Quando se fala em embalar, associamos a ideia à hora de dormir, a um acto a que se recorre para acalmar um bebé a chorar e, sempre, sempre, de cima para baixo, ou seja, dos pais para os filhos como se os pais não precisassem, também eles, de embalo...
 
E quando o assunto é este, muda a expressão no rosto das pessoas, o tom de voz e, até, a postura com que estão no momento. O embalo é algo que nos leva ao nosso passado, aos tempos de criança (que os de bebé não nos lembramos) e temos saudades disso. Aos que são pais, também a conversa pode levá-los aos momentos de embalo que passam com os seus filhos.
 
E será que deve resumir-se a isso, o embalo? Será que é só isso mesmo? Será que à medida que crescemos já não somos embalados por ninguém? Será que as mãos que nos sustentaram no sono, na birra, na irritação, no crescimento, desapareceram por completo? E será que serve apenas para isso, o embalo?
 
Fomos embalados até chegarmos à idade adulta. Tenho a certeza! Mas também tenho a certeza que somos embalados diariamente, porque o embalo é mais do que o colinho na hora de dormir. O embalo é o abraço na alegria e na tristeza. É a mão que nos ajuda a levantar. É o sorriso que nos conforta. É a mensagem de e-mail que nos desperta. É a chamada telefónica na hora H. É tudo o que nos faz bem! É tudo o que quisermos!
 
É a partilha, a amizade de alguém, as conquistas que nos acalentam (as dos filhos, as dos conjugues, as dos irmãos, as dos pais ou as dos amigos). É o amor que cresce, diariamente, quando estamos apaixonados. É o amor que nos incendeia quando estamos enamorados.
 
O embalo, são as mãos que nos sutentam. E as minhas, mal elas sabem, são estas que ao receber o meu embalo, embalam-me a alma! E, por isso, continuo a crescer... sem aquele colo, é certo, mas com o colinho que dou, com o colinho que sou, com o colinho que se gerou em cada gesto meu.
 
Adoro o colinho dela!
Adoro, mesmo, este colinho!
A idade (dela) já não me perdoa os excessos de colo que quero dar-lhe (ou receber!) e, por isso, tenho que manter a distância... Mas ela não imagina como me carrega ao colo com as suas conquistas, com o seu sorriso, com o seu desenvolvimento, sentido de justiça, sensibilidade, bondade e astúcia. É astuta, uma verdadeira senhorinha!
Uma mão que me sustenta...


Adoro o colinho dele!


E este embalo? Ele não faz ideia, sequer, do que me dá com o seu embalo. Não faz ideia de como me aviva a memória da primeira experiência. (Daquela que já quer pouco embalo...) Não faz ideia de como a sua traquinice veio dar vida às nossas vidas. Não sabe como o seu sorriso nos desarma e nos derrete a alma e nos enche de alegria. Não faz ideia de como me sustenta, diariamente e de como também ele, o petiz, faz a irmã feliz...
Esta, é outra mão que me sustenta...

Pensemos em como temos embalo. Imaginemo-nos ao colo das nossas mães, no lusco-fusco, numa cadeira de baloiço, com uma janela de fundo iluminada pelo luar. Pensemos nisso como uma recordação construída por alguém, mesmo que vivida, será sempre construída (não temos essa memória) e acreditemos que também connosco foi assim. Mas tenhamos consciência de que esse embalo transformou-se, não desapareceu! Transformou-se no modo de dar e receber. Figurativamente ele está presente!

Cabe-nos a nós dar por isso!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

É simples! (E não é que é mesmo?)

Passei o fim de semana por casa com a família e amigos.
 
Passei o fim de semana com cheirinho a Inverno. Daqueles fins de semana de que gosto particularmente: as crianças bem dispostas (com os pais disponíveis a 200%), os pais a vislumbrarem dois dias de descanso (áparte as obrigações de sábado), os amigos de coração, a minha mana e os aromas típicos de uma tarde de chuva misturada com um forno que trabalhou sem parar. Só faltou, mesmo, a lareira acesa (apesar da vontade, o calor humano foi mais que suficiente para nos mantermos muito confortáveis).

Passei o fim de semana como gosto! E, do que mais gosto nestes dias é, sem dúvida, de pensar em como vou receber os meus amigos. O que vou cozinhar, como vou pôr a mesa, que velas aromatizadas vou usar, que toalhas vou pôr na casa de banho, que roupa vou vestir aos meninos, que lembrança terei para a filha dos meus amigos, que flores irei comprar (adoro ter flores nas jarras e faço questão de tê-las), entre outras mil e uma coisas de que me vou lembrando. Adoro receber e sentir que, me minha casa, todos gostam de estar! E adoro pensar que, assim, estou a construir memórias para o futuro dos meus filhos que, um dia, irão dizer: "este cheiro faz-me lembrar a casa dos meus pais..."

Passei um fim de semana como gosto!
 
E como gosto de partilhar o que me faz sentir bem, deixo-vos uma imagem apenas para ficarem com uma pequena ideia do cheirinho que invadiu a nossa casa:


É verdade! Pão com chouriço (e azeitonas)! Caseirinho!! É claro que tive ajuda para amassá-lo e enrolá-lo (e comê-lo), mas foi tudo feito à lá mano! E sabem de onde tirei a receita? Daqui! É um blog muito português de uma linda mulher (por acaso alentejana), mãe, trabalhadora, pintora e, também, psicóloga, médica, contadora de histórias, cozinheira, esposa, amiga, confidente, entre outras mil e uma profissões que têm as mulheres!!

A Mulher Portuguesa é um blogue que vale a pena conhecer! Tem dicas úteis que nos faciliam uma série de coisas. Tal como esta que acabei por transformar nisto:

 
Apetitoso, não é?
 
Espreitem e façam como eu: usei o mesmo ingrediente secreto em tudo. Conseguem adivinhar qual é? Claro que conseguem e quando pomos tudo o que temos no mínimo que fazemos, corre sempre bem.
 
 A Mulher Portuguesa diz que "É simples!" e eu acrescento "E não é que é mesmo?".

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O vale dos lençóis

Marieta era uma linda mulher que vivia apaixonada. Apaixonadíssima por tudo na vida. Por si, em primeiro lugar, pela família, pelos amigos, pelo que fazia, pelo que não fazia. Apaixonada pelas coisas mais banais, pelas coisas mais comuns, pelas coisas que também apaixonam poetas e românticos escritores. E, como todos os apaixonados, tinha paixões que não se explicavam...
Estava a iniciar uma nova fase da sua vida. Desapaixonara-se do seu marido, apaixonadamente. Como tudo o que fazia, fazia com paixão, quase parecia obsessão, tanta perfeição. A do marido, claro, que de paixão... pouco percebia e, por isso, não entendia o poder da discussão... (com paixão).

Marieta descobrira que durante muitos anos decidira, sozinha.
Marieta descobrira que durante muitos anos amara, sozinha.
Marieta descobrira que durante muitos anos vivera, sozinha.

Nesta nova fase da sua vida, tudo era motivo de paixão. Uma nova casa, uma nova rotina, uma nova cortina. Novos amigos, novos sarilhos, novos trapilhos. Andava em mudanças, mas com poucas esperanças de reaproveitar o que fazia parte da vida que agora acabava.
Instalara-se num pequeno apartamento que pintara de branco, com paixão. Tinha tudo espalhado pelo chão numa plena confusão! E, no meio dos caixotes, um coração...

Marieta sabia que a vida é mais que um ramo de sonhos expostos numa jarra. Marieta sabia... mas não queria... deixar de sonhar... E, quando parava para nisto pensar, logo encontrava uma forma de desanuviar.

Procurou de caixote em caixote, de saco em saco, de monte em monte algo que lhe despertasse a atenção e não é que encontrou?
Uma das suas paixões, motivo de discussões, eram os pequenos papéis que a levavam a consumir sem de nada precisar. Esses pequenos papéis que lhe enchiam a carteira e a mala e a pasta e as gavetas e, por eles, ficava sem cheta!

Pensou "bolsa leve, coração pesado" e foi nesse estado e de bom grado que saiu de casa. Tinha encontrado o vale, há muito guardado, que lhe dava desconto na compra de uns lençóis. Depois de vários brióis numa cama sem chama, lá foi Marieta, sem cheta, antes do virar da ampulheta. E, dentro dela, parecia tocar uma corneta!

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Não tem mensagens novas!

No dias que correm, não conheço ninguém que viva sem telemóvel. Sem computador. Sem qualquer dispositivo electrónico que lhe permita estar em constante contacto com o mundo virtual! Esse tão criticado mundo de contactos, reservado apenas aos anti-sociais e outros que tais! (não tenho paciência para estes clichés)

Nos dias que correm stressar por estar sem telemóvel, ou porque a bateria pode acabar, ou porque pode ficar sem rede, ou porque pode ficar sem saldo e, assim, incontactável, é já considerado uma doença: nomofobia (advém do inglês "no mobile").
As pessoas sofrem com isto, pois é o telemóvel uma companhia, um barómetro de popularidade (através do número de mensagens ou chamadas que recebem), uma questão de status (sobretudo se tiverem o modelo XPTO, o topo de gama) ou, muito simplesmente, uma prova de que têm pouco que fazer (com o telemóvel ligado, as pessoas sentem-se acompanhadas)!

Já repararam na quantidade de vezes em que, quando estão com amigos, familiares, conhecidos ou colegas de trabalho, muito discretamente alguém deita um olho ao telemóvel para ver se tem alguma mensagem? Primeiro que tudo: quando as pessoas se juntam, juntam-se também os belos dos telemóveis! Em cima da mesa, ao lado uns dos outros, como se estivessem também eles em reunião. Depois, quem tem ainda o pudor de o manter no bolso do casaco ou no bolso da mala, a determinada altura lá vai com a mãozinha pegar no dito, só para ter a certeza de que não está a tremelicar! E, quando a ansiedade já não aguenta mais, lá vai uma espreitadela (a modos que ninguém reparou)!

Isto é, de facto, a realidade em que vivemos!

Ainda me lembro de quando foi instalado o telefone fixo lá de casa. Um acontecimento digno de bandeirinhas a enfeitar as ruas e da fanfarra dos bombeiros a tocar! Primeiro, arrumar a casa para receber os técnicos da PT! Depois, discutir o melhor sítio para que o telefone ficasse exposto (qual peça de museu). Por norma, logo na entrada, para que as visitas ficassem logo informadas sobre a modernidade do lar! Por fim, e depois de instalado o bicharoco, a derradeira experiência: todos tivemos ocasião de levantar o auscultador para ter a certeza de que lá estava o "piiiiiiiiiiiiiiiii"! Até arrepiava!

Quando tocava, o que acontecia raramento (numa primeira fase), era um ver se te avias para atender a chamada! Como se do outro lado pudesse estar o Presidente da República para dar os bons dias! Mas atenção!! As crianças estavam proibidas de se aproximarem, não fosse aquilo causar-lhes uma doença rara (assim do género: ficar com falta de vista por estar perto da televisão. Quem sabe, ficaríamos com falta de audição!)

Bom, mas isto para dizer que um destes dias (fruto de estar fartinha destas cenas dos telemóveis), estando eu num agradável serão com amigos, mais os seus amigos telemóveis, comecei a ficar irritada com um que não parava de enviar e receber mensagens, esforçando-se por se mostrar atento à nossa conversa, outro que de vez em quando lá punha a mão no bolso do casaco e outro ainda, mais estúpido ainda, que carregava no visor para ter a certeza de que não tinha recebido nenhum envelope (tinha o telemóvel mesmo à frente dos olhos!).

O que é que eu fiz para parar com isso? Retirei-me, fui buscar o meu telemóvel e enviei uma mensagem para cada um dos presentes, a seguinte: Não tem mensagens novas!

Ficou provado aquilo que todos sabemos!

Primeiro: os telemóveis estavam a funcionar!
Segundo: sempre que recebem mensagem, o telemóvel toca, a luz acende e alguns ainda tremem!
Terceiro: estava tudo atento ao telemóvel!
Quarto: quando o telemóvel dá sinal, pára tudo!
Quinto: a ansiedade é tão grande que nem repararam que estavam a receber mensagens ao mesmo tempo!
Sexto: ainda é possível ter serões agradáveis com amigos. Depois da brincadeira, arrumaram todos os ditos, qual pacto de sangue, e cumpriram com a palavra: até ao final da noite, só se tocasse é que se daria atenção ao aparelho!

E assim foi!

Fica a dica, para quem sentir o mesmo que eu!