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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Equilíbrios complicados

Tantas vezes ouvimos os outros queixarem-se da vida como se fossem os únicos a viver uma vida. Queixam-se e tomam a liberdade de aconselhar-nos pela sua vasta experiência. Pelas suas decisões, pelos resultados das mesmas. Pelas escolhas que fizeram, pelo resultado das mesmas. Pelo caminho que decidiram tomar, pelo resultado do mesmo.
 
Tantas vezes ouvimos e ouvimos e ouvimos e esquecemos e esquecemos e esquecemos na hora aquilo que nos disseram. Porque da nossa vida sabemos nós! Estaremos a ser prepotentes, incautos ou extremamente zelosos?

Dizem-nos coisas como:
se eu soubesse... teria dado prioridade a outras coisas...
trabalhei uma vida inteira e não dei a devida prioridade às coisas mais importantes...
tanto que me dediquei aos meus filhos e agora eles não me ligam nenhuma...
And so on...

Como é que se faz, por exemplo, este equilíbrio? Entre o deve e o haver de uma carreira profissional e da atenção que se deve dar às coisas realmente importantes? Aquelas essenciais, invisíveis aos olhos... (como nos ensinou uma extraordinária personagem da literatura). Como não dar 100% numa carreira profissional, no auge do seu desenvolvimento, no auge das nossas capacidades, mesmo que completamente conscientes dos efeitos colaterais disso, se a sociedade em que vivemos nos exige tanto, num tão curto espaço de tempo? Quando nos diz que a partir dos 35 anos já estamos velhos para iniciar uma carreira? Quando nos diz que 85% do sucesso é a imagem? Quando nos coloca à margem dos outros porque somos pais?

Como encontrar um equilíbrio entre um desempenho profissional de sucesso e não me refiro a sermos bons profissionais, mas sim a desafiarmo-nos todos os dias rumo à subida de todos os degraus com que nos deparamos e, ao mesmo tempo, estarmos presentes perante as tais prioridades, perante o essencial que é invisível aos olhos?

Conscientes! Sobretudo conscientes disto, das ausências em momentos importantes, do chegar tarde, do penalizarmos os que nos rodeiam com a nossa ausência, como poderemos encontrar este equilíbrio?

E quem é pai e mãe? Será que se deve substituir a si mesmo para poder garantir as necessidades básicas das crianças, enquanto acompanha mais este e aquele projecto que está a desenvolver? E o essencial? Aquele... invisível os olhos... como é que lhe respondemos? Se não estamos presentes?

Poderá haver lugar a um tempo para a parentalidade, enquanto eles são pequenos, e um tempo para a carreira profissional, quando eles estão mais crescidos? E o tempo que passou? De que nos serve relativamente à competição a que estamos sujeitos?

Tantos "ses", tantos "comos", tantos "porquês". Tantas incertezas que nos acompanham nestes cenários que nos conduzem a duvidarmos de nós próprios. Das nossas escolhas. Daquilo que sabemos ou pensamos ser importante. Daquilo que pensámos ser o melhor para todos. E depois? Depois... depois ouvimos os outros nos seus conselhos mascarados de desabafos, assim como quem não quer a coisa. E ficamos divididos.

Num destes dias um amigo nosso com mais idade que nós, pai de quatro filhos cujo mais novo tem 16 anos, dizia-nos que nunca esteve presente numa reunião de pais. Que faltou a muitos momentos importantes da vida dos filhos em função da sua carreira. Custa-nos ouvir isto, mas sabemos que é um bom pai. Sabemos que o fez para poder dar aos filhos uma vida boa. Que trabalhou imenso, em várias áreas. Que se dedicou à sua carreira profissional e que fez história. Aliás, faz parte da história do nosso país! É reconhecido publicamente. E em privado também. Mas lamentava-se assim. Desta forma. Como que reduzido a nada...

Como saber o que fazer? Como encontrar um equilíbrio? 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

As crianças não são adultos

Por isso não devemos ter algumas conversas à frente delas. Não entendem o que dizemos e, ao  esforçarem-se para isso, pode dar-se o caso de "crescerem" antes do tempo. Utilizando uma linguagem que desconhecem e da qual se apoderam como grandes entendedores.
 
As crianças não são adultos.
Por isso a eles o que lhes é devido na sua conta, peso e medida. Os ambientes que vivemos, os ambientes de adultos, nem sempre são os adequados para eles. Não podemos querer que nos acompanehm para todo o lado. Temos de fazer cedências. E, por vezes, dizer não. Aos outros adultos.
 
As crianças não são adultos.
Por isso não devem ver tudo o que dá na televisão. Começando pelos telejornais que lhes oferecem de bandeja temas intrigantes e de faca e alguidar. Que lhes alimentam medos e incertezas. E que os convidam a fazer filmes nas suas cabeças.
 
As crianças não são adultos.
Por isso devem vestir-se como tal. Sendo crianças, enquanto podem, até na roupa. Sem pressa de crescer. Por isso devem calçar-se como tal. E deixar as roupas e acessórios de adultos para quando lá chegarem.
 
As crianças não são adultos.
Por isso não podem fazer o que lhes dá na real gana. Não podem virar costas, nem sair porta fora. Devem pedir licença, pedir desculpa e dar um beijo ao levantar e outro ao deitar. Devem respeitar os pais e não sentirem que podem desafiá-los.
 
As crianças não são adultos.
Por isso devem ter horas para comer, para brincar, para trabalhar, para descansar. Devem comer à mesa, acompanhadas da família. E devem comer sopa todos os dias.
 
As crianças não são adultos.
Por isso, devemos falar-lhes como tal. Com paciência, para que nos entendam. Com paciência, para que nos consigamos fazer entender. Com espaço para a aprendizagem. Dentro dos seus mundos. Aqueles que conhecem.
 
As crianças não são adultos.
Por isso, não devemos arrastá-los connosco nos nossos hábitos. Eles aprendem com os exemplos. E nós devemos ser os primeiros a dar o exemplo.
 
As crianças não são adultos.
Serão, isso sim, os adultos de amanhã. São as sementes daquilo que plantarmos. Os herdeiros do mundo que deixarmos. Os alvos do nosso amor, desamor, impaciência, displicência. São aquilo que quisermos. Mas o que quisermos deverá ser sempre o melhor do mundo. Tal como elas são para nós. O melhor do mundo.

 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A educação é cara? Experimentem a ignorância.

Ainda não me tinha pronunciado sobre o estado de sítio em que se encontra o início deste ano lectivo. Apenas e só porque tenho o hábito de ser muito prudente ao comentar coisas sobre as quais não sei grande coisa. O que é o caso.
 
O que é que eu sei?
Sei que há concursos para colocação de professores. Sei que os professores devem apresentar as suas candidaturas segundo determinados critérios. Sei que há uma espécie de "hierarquia" na colocação dos mesmos que assenta na antiguidade, formação, créditos... Sei que os professores têm um determinado período de tempo para aceitarem a colocação que lhes foi atribuída. Sei que há uma bolsa de contratação. Sei que há casos de processos desaparecidos. E pouco mais. (perdoem-me os professores se estou a dizer alguma coisa mal e, por favor, esclareçam-me)
 
Como cidadã tenho cuidado para não emprenhar pelo ouvido. Não me deixo levar pela desinformação que a comunicação social pratica. Não me deixo levar pelos dramas de colocações a 400km de casa. Não me deixo enganar pelas péssimas condições de trabalho apregoadas aos sete ventos. E não! Os meus filhos não estudam no privado!
 
Tal como aconteceu comigo frequentam o ensino oficial. Pois eu não acredito num ensino diferenciado quando os professores saíram praticamente das mesmas escolas. Não acredito que um mau professor, sem perfil, sem vocação, consiga vir a ser um bom professor se leccionar numa escola privada. Também não acredito nas notas espectaculares que essa via de ensino apresenta. Pois quando uma empresa pode escolher o seu cliente o padrão que se cria vicia os resultados.
 
Acredito, isso sim, que a profissão de professor é muito mal tratada em Portugal. Que esses profissionais da instrução académica (pois a educação deve vir de casa) estão feridos de morte com a forma como, consecutivamente, são tratados. Ou melhor, destratados. Como o desrespeito pela figura do professor ganhou lugar à figura de referência do nosso desenvolvimento enquanto cidadãos. Como a falta de educação de uma geração veio a reflectir-se de forma tão negativa.
 
As aulas já começaram há cerca de um mês. A minha filha já começou a fazer os primeiros testes de avaliação, mas ainda lhe falta um professor. O de Educação Musical. E como mãe que sou, e apenas nesse papel, custa-me a compreender isto quando tenho uma grande amiga, professora de Educação Musical, desempregada. Sem colocação. Ah! E com muitos anos de carreira!
 
Oiço coisas sobre este assunto que me ferem os ouvidos. Oiço muitos treinadores de bancada, mestres na arte da elaboração de fórmulas mágicas e doutorados em resolver os problemas da nação à mesa de uma esplanada. E isso incomoda-me. Porque temos de saber do que falamos, de preferência, com conhecimento de causa. Como mãe, vejo o cenário que descrevi acima, mas como cidadã tenho a obrigação de tentar perceber como funciona o sistema. E colaborar para o seu funcionamento. Tenho de praticar o direito à democracia. Tenho de votar. E não posso reclamar quando fui a primeira a contribuir para a situação, através da abstenção.
 
Como cidadã tenho de perceber que sou eu a maior accionista do Estado. A maior interessada na sua boa gestão. A pessoa que deve pedir respostas, mas apenas e só com a consciência de ter feito alguma coisa por ele. Tenho de, antes de mais, perceber o seu valor. Não posso passar a vida a reclamar o tudo, já e agora, porque vivo insatisfeita. Não posso fazer-me valer dos meus direitos quando também tenho deveres.
 
Fico muito triste com o estado da educação. Porque valorizo-a. Porque é minha. Porque não consigo compreender como é que uma questão basilar das sociedades é tratada de forma tão despudorada. Porque também estudei. Porque o Estado investiu em mim e está a investir nos meus filhos. Fico triste porque não somos exímios em bons resultados, mas somo exímios em reclamar e exigir. Adoramos dizer que somos bons, mas não queremos ter trabalho. Porque tudo dá muito trabalho. Não temos números espactaculares de aproveitamento escolar, mas temos números espectaculares nas candidaturas a reality show's. Não temos dinheiro para pagar as propinas e os livros escolares são muito caros e o material pedido é exagerado e tudo, tudo, menos os concertos de música, os telemóveis e as roupas de marca, são um exagero de custos.

Quando ouço estas queixas, dá-me vontade de responder com todas as forças. Mas não o faço. Porque o tempo em que acreditava que iria mudar o mundo já lá vai. Deixo apenas um recado:

Acham que a educação é cara? Então experimentem a ignorância.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Peço desculpa!

Irritam-me algumas coisas. Poucas, mas as que me irritam, cansam-me.
Não gosto de estar cansada. Por isso, quando as coisas que me irritam podem deixar de fazê-lo se eu conseguir dar-lhes a volta, então é assim que procedo. Dou-lhes a volta.
 
Uma maneira de dar a volta ao que me irrita é reconhecer que a coisa pode irritar-me por minha causa. Porque, afinal, estava errada. Porque, afinal, o que me irrita é estar errada. Por isso, peço desculpa pelo que me tem irritado de há uns anos a esta parte. Peço desculpa a todos os que incomodei e que, com os seus comentários, atitudes ou linguagem corporal, me deram a entender que era eu que estava errada.
 
Peço desculpa porquê?
Por ensinar aos meus filhos que devem pedir licença para sair da mesa. Seja em casa, num restaurante ou em casa de alguém. Por não permitir que andem aos pinotes quando estamos a comer. Por não aceitar que se levantem quando querem. Seja onde for. Peço desculpa a quem incomodei com esta atitude antiquada.
 
Por exigir que os meus filhos não se deitem sem dar um beijo de boa noite aos pais e, também, às visitas que os pais têm em casa ou se dormirem em casa de alguém.
 
Por não deixar de querer um beijo, igualmente, de bom dia. E que cumprimentem todas as pessoas, mesmo que as vejam todos os dias.
 
Por obrigar a que peçam perdão por arrotarem à frente de alguém. E que não me ria perante essa situação. E que, ainda por cima, fale com eles sobre a forma de evitar que isso aconteça na presença de outras pessoas. Peço desculpa pela minha falta de humor.
 
Por ficar irada se derem um pum no meio da sala, à frente seja de quem for e contrariar a gargalhada geral. Por ensiná-los a retirarem-se quando têm essa necessidade. Por ensiná-los a não se rirem quando alguém faz isso. Tenho um olfacto e uma audição apuradas que, em conjunto, me tiram do sério nestas situações.
 
Peço desculpa por pedir aos meus filhos que se levantem para dar o lugar a alguém. E que não me compadeça com o coitadinho/a que ouço logo de seguida. Mas eu sou assim. Má.
 
Peço desculpa por os meus filhos faltarem a imensas festas de aniversário. Por não achar o máximo passar o fim de semana a fazer de motorista em função das suas agendas sociais. Por obrigá-los a escolher um entre dois ou mais convites. Em virtude de passarem algum tempo com os pais. Mas eu sou assim. Uma egoísta.
 
Peço desculpa por levantá-los a horas decentes ao sábado para irem comigo ao mercado. Por querer que aprendam o nome das coisas. Por parar na banca da peixeira e verem aquele horror de peixes mortos. Por parar na florista, onde converso sobre arranjos e lhes peço ajuda a escolher flores.
 
Por não admitir birras sem fundamento nenhum e ao primeiro abrir de olhos eles ficarem em sentido. Mas eu sou assim. Uma tirana.
 
Por querer que lavem os dentes logo a seguir à refeição, não permitindo que vão a correr brincar ou ver televisão. Por mais tempo que haja, se as coisas não são feitas na hora, passam. Uma e outra vez. Mas isso sou eu. Cheia de regras.
 
Por irritar as educadoras, os avós, os tios e os amigos ao não querer que os alimentem de bolachas, chocolates, pastilhas, gomas, whatever. Que percebam que o amor que sentem por eles não deve ser proporcional à quantidade de excessos alimentares que insistem em cometer. Pois onde é que já se viu isso? Em lado nenhum. Eu é que sou assim. Esquisita.
 
Por querer que andem sempre com as cadeiras auto e os cintos bem postos. Sim, há quem não o faça. E eu sei que irrito quem não o faz.
 
Peço desculpa, também, aos meus filhos por ser tão chata. Por não permitir que metam um pé na varanda ou o nariz na janela. Por não permitir que joguem no tablet ou vejam desenhos animados depois do jantar. Por querer que leiam livros e me acompanhem em algumas tarefas. Por dobrarem as meias e as cuecas. Por arrumarem os talheres lavados. Por porem na máquina a loiça que sujam. Por porem na máquina a roupa que sujam. Por terem de arrumar o que desarrumam. Por terem de fazer as suas camas. Por terem de pôr a mesa. Por terem de levantar a mesa.
 
Mas não peço desculpa pelo amor que lhes tenho. Porque amar, também é saber dizer não. E, sobretudo, ter consciência que esse amor incondicional que lhes temos não nos pode cegar. Os homens e as mulheres que serão amanhã devem ter a sua formação agora. E nós, e eu, não viveremos para sempre...

Não peço desculpa aos meus filhos pela esquisitisse de que me acusam. Não me julgo melhor mãe. Nem melhor pessoa. Apenas me dou ao trabalho para pôr em prática aquilo em que acredito.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

63%?!? Não me espanta!

Saíram ontem os resultados dos exames dos professores. Dos tão contestados exames de avaliação. E os resultados foram, simplesmente, desastrosos. Por um lado, eu já os esperava. Por outro, entristece-me ver assim plasmado num gráfico a miséria de ensino a que estiveram sujeitos os professores e a miséria de ensino a que estão sujeitos os nossos filhos.
 
Há uns anos atrás dei aulas na Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras. Dei aulas a alunos licenciados num curso de pós-graduação. Era muito nova e, por isso mesmo, mais nova que todos os meus alunos. Tinha uma turma de 20 alunos em horário pós-laboral. E uma vez tratar-se de uma especialização tinha alguns alunos que já trabalhavam na área em questão, mas que tinham decidido regressar à faculdade para aperfeiçoarem conhecimentos ou, pura e simplesmente, para obterem mais um canudo que lhes permitisse uma progressão profissional. Depois, tinha um grande conjunto de alunos que andavam nisto (isto de estudar, de coleccionar cursos) por falta de emprego. Por falta, também, de objectivos específicos. Por não se identificarem com nada. Tinham mais que uma licenciatura. Mais que uma especialização. E disparavam em todas as direcções para tentarem a sua sorte. Não lhes tirei o mérito, isso não! Mas não também não lhes tirei o chapéu.
 
Na vida é difícil acertarmos à primeira nesta coisa que é virmos a ser futuros cidadãos que trabalham. Pedem-nos com 15 anos de idade que escolhamos uma área de estudo em função do que queremos ser no futuro. Depois, aos 18, a escolha do curso superior que vai garantir-nos o futuro brilhante que os nossos pais sonharam para nós e que está ali, algures no destino, à nossa espera. E quando termina o tão ansiado percurso da licenciatura esperamos que o emprego nos venha buscar à porta da faculdade. É que é mesmo esta a história que nos vendem.
 
Pois, mas essa história já é velha. Já foi chão que deu uvas. Agora não é assim. E há uns anos atrás também já não era assim. Mas uma coisa já era como é hoje: a falta de preparação com que os alunos iam para a faculdade. A falta de estrutura. Os erros ortográficos. A má interpretação. A dificuldade em escrever. A impertinência de quem dourava a pílula do seu currículo académico e, depois, percebia-se num estalar de dedos que era muita parra e pouca uva. A desconfiança por uma professora tão jovem quanto eu era.
 
Os erros ortográficos deixavam-me louca. A pontuação. A má interpretação. Não fosse eu uma pessoa de letras. Não tivesse tido eu uma professora primária daquelas que nos marcam para a vida. Tanto pelas reguadas como pelos abraços que me deu. Com uma prótese no braço direito que a impedia de escrever e de bater. Mas o braço esquerdo chegava-lhe para tudo. A minha professora Maria de Jesus. A quem devo as minhas bases. E os erros ortográficos para ela eram, também, algo que a deixava irada.
 
Estes resultados não me espantam. A democratização do acesso ao ensino nas últimas décadas levou a isto mesmo. Entre outras coisas. À descida do nível de exigência. À descida das médias para a entrada na faculdade. Ao aumento das estatísticas apelativas e atractivas que um país da União Europeia que se preze deve apresentar.
 
Não se exige. Facilita-se.
 
Vi os exames que os professores fizeram. Qualquer professor devia fazê-lo com uma perna às costas. Não se esqueçam que também eu dei aulas. E sei a responsabilidade que um professor tem. O peso com que se exerce a profissão de estarmos a formar ou a instruir num determinado sentido que deve ser o mais abrangente e útil e exigente possível para que os resultados atinjam determinada fasquia. É das profissões mais exigentes e das mais nobres também.
 
Quem não tem memórias de um professor? Quem não se lembra da sua professora ou professor da primária? Quem não gostou de andar na escola?
 
Hoje somos adultos. Criamos os nossos filhos com base na aprendizagem adquirida ao longo dos anos. Ao longo do que acumulámos como saber de experiência feito. Já fomos alunos. Alguns de nós professores. Outros, outra coisa qualquer. Com a certeza de que todos somos importantes para a nossa sociedade. Com a certeza de que queremos dar a liberdade necessária aos nossos filhos para escolherem o que quiserem ser. Com uma condição: serem os melhores no que vierem a fazer. E, por isso, todos os exemplos servem. Não podemos ter professores que não sabem até onde estão preparados para darem aulas. Que, muito provavelmente, estão a dar aulas porque não tiveram outra alternativa. Muito provavelmente para alguns deles estes resultados foram uma revelação. Que os levou a uma resolução: eu não sirvo para isto!
 
Ao longo dos últimos anos, em Portugal, um professor passou de uma espécie de autoridade para uma espécie de serviçal. Se a família respeitava a palavra do professor, começou a sobrevaloriza-la. E quis que este passasse a educar os seus filhos. Quis que se responsabilizassem pelos erros dos seus filhos. O estatuto do aluno e outros demais diplomas vieram retirar-lhes autoridade. Importância na sociedade.
 
Os professores passaram a ser avaliados em função dos resultados dos alunos. Qual é o professor que quer dizer ao mundo que os seus alunos, que até ali foram levados ao colo, com ele não têm aproveitamento? E, assim, penalizar-se profissionalmente?
 
A verdade é que a nossa sociedade, a sociedade portuguesa, também não é pródiga em valorização pessoal e profissional. Ser mãe é sinónimo de incapacidades várias. Ser mulher, em alguns casos, também. Mas ser mãe e ser mulher não basta para abdicar de uma carreira em prol da família. As contas ficam por pagar. E a realização pessoal também.
 
Não me espantam estes resultados. Entristecem-me.
E também me entristece saber que há uma séria hipótese dos meus filhos apanharem essa leva de facilitismo. E os verdadeiros resultados estarem camuflados. Em virtude dos resultados que o sistema exige. Preocupa-me pensar no conceito bom professor ou mau professor. Não deveriam haver, apenas, professores? Eu não posso ser uma má profissional, certo? Não será o ensino um assunto demasiado sério para que os seus principais intervenientes se incluam numa escala de zero a dez no que toca à sua eficiência? Não estará este país podre de valores quando a educação deve passar por uma triagem destas? Não deveria essa triagem ser feita dentro de portas? Nas faculdades que os formam?
 
Não me  chocaram os exames. Apenas a necessidade de se fazerem. Como se só agora se começassem a ver os resultados das inúmeras más políticas e reformas e profundas alterações que este ministério sofreu. Ou como se fosse necessário encontrar alguém a quem imputar o ónus dessas decisões danosas.
 
E agora? Despedem-se os professores? Não se contratam professores que deram erros ortográficos? Não se contratam professores com um aproveitamento na linha de água dos 50%? Mas foi só isso que lhes exigiram! Para entrar na faculdade e para sair da faculdade!! Porque é que agora não servem? Não será este um GRANDE problema de raíz? E outra pergunta: quem é que corrigiu os exames? Foram professores da velha guarda? Os que estão nos quadros há anos e anos e anos sem renovarem e adequarem os seus métodos de ensino? E outra pergunta: porque é que os professores triados foram apenas os contratados? E outra pergunta: porque é que este país não consegue ser JUSTO com ninguém??

terça-feira, 22 de julho de 2014

O essencial é invisível aos olhos

De vez em quando gosto de reler livros que me marcaram. Tenho a ideia de que os interpretamos de forma diferente de acordo com a idade com que os lemos e, consequentemente, a experíência de vida que acumulamos. Lembro-me sempre do Sidarta, de Hermann Hesse (por acaso já não o leio há algum tempo), do Admirável mundo novo, de Aldous Huxley e até d'Uma família inglesa, de Júlio Dinis. Não há relação entre eles, apenas são livros que me marcaram. E sempre que os releio dou-lhes um novo sentido. Ou eles a mim.
 
O Principezinho, de Saint-Exupéry, também é um clássico. Gosto de relê-lo. E a sua tão poderosa mensagem, incrivelmente, afecta-me sempre da mesma forma. O essencial é invisível aos olhos. Quem não concorda com este menino que vive de forma simples e descomplicada no planeta B qualquer coisa?

 
Decidi comprar um novo e oferecê-lo à minha filha. Começou a lê-lo ontem. E mal posso esperar para saber o que vai dizer, depois de acabar de lê-lo. Pois também ela está na idade de querer voar, ultrapassar os seus limites e descobrir algo único em cada pessoa com quem se cruza. Como o pequeno príncipe que tinha como missão tratar de uma flor com três picos e varrer os vulcões inactivos e, por isso, era e continua a ser... único!
 
Para quem nunca leu, deixo-vos a dedicatória do autor ao seu melhor amigo.
 
Os meninos que me perdoem por dedicar este livro a uma pessoa grande.
Mas tenho uma desculpa de peso: essa pessoa grande é o melhor
amigo que eu tenho no mundo inteiro. E tenho outra desculpa:
essa pessoa grande é capaz de perceber tudo, mesmo os livros para crianças.
E tenho outra desculpa, a terceira:
essa pessoa grande mora em França e em França passa fome e passa frio.
Bem precisa de ser consolada.
Mas se todas estas desculpas não chegarem, então,
gostava de dedicar este livro à criança que essa pessoa grande já foi.
Porque todas as pessoas grandes já foram crianças.
(Há é poucas que se lembram disso)
Por isso a minha dedicatório vai ser assim:
 
Para Léon Werth quando ele era pequeno
 
Digam lá que não aguça a curiosidade?
Recomendo. Vivamente. Que o leiam com os vossos filhos.
 
E já agora, dedico este post a uma amiga apaixonada por este personagem da literatura. Uma boa amiga. Portanto, uma princesinha! :) (ela não vai gostar nada disto)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

As crianças e os exames

Hoje é dia de prova de aferição de matemática. Lá em casa andamos nestas andanças há cerca de uma semana. Primeiro, a prova de Língua Portuguesa. Na 2.ª feira. Segundo, a prova de hoje.
 
Sem stresses. Sem  pressões. Sem pressas.
 
Uma logística imensa. A caneta X, o cartão do cidadão, o compasso Y, a régua H, a borracha e o lápis. Visitámos a escola sede na semana passada. As listas de colocação foram afixadas. Os professores que vigiam. Os professores que corrigem. E a polícia. Sim, o aparato policial na escola sede era imenso!
 
E o que dizer sobre estas avaliações? Tenho ouvido de tudo, claro! Que é uma exigência, que é um exagero, que é demais. Outros que tais, ficam indiferentes. E há quem ache tudo muito bem. Que é de pequenino que se torce o pé ao pepino.
 
E eu? O que é que eu acho?
Acho que a avaliação que os pais fazem depende (e muito) do aproveitamento dos filhos. Acho que os pais que investem diariamente na formação dos seus filhos e cujo aproveitamento é positivo, ficam descansados com esta avaliação. Ao contrário dos pais cujo investimento diário é visto como trabalho, obrigação, uma chatice. Para estes, esta prova é uma patetice. Coitadas das crianças que começam logo a fazer exames!
 
Porque dá trabalho. Porque obriga à alteração de rotinas. Porque é preciso estudar com eles. E como é que nós sabemos o que é que vai sair? Porque há sempre alunos que ficam sem aulas. E o que é que fazemos aos nosso filhos que não têm aulas por causa dos exames? Porque não há autocarro para levá-los à escola sede? Então como é que é? Por mil e uma razões que não me passam pela cabeça serem um problema.
 
Dá trabalho? Dá!
Mas porque não ver isso como um investimento? Uma semana pelo resto da vida.
 
Alteração de rotinas? Sim!
E então? Já sabemos desde o ano anterior que, no ano a seguir, há exames.
 
Não sabemos o que vai sair? Sabemos!
Se tivermos acompanhado as crianças durante todo o ano lectivo.
Além disso, os professores fornecem uma matriz.
 
A escola não disponibiliza autocarro? Não! Não tem dinheiro...
Mas para as festas com os amigos os pais arranjam sempre uma maneira.
 
Há alunos que ficam sem aulas? Há!
Os mais velhos. Que já ficam em casa sozinhos ou com amigos ou em ATL's ou com os avós ou com vizinhos ou vão com os pais para o trabalho ou n situações possíveis e que não acontecem pela primeira vez.
 
No nosso caso foi uma questão de relembrar a matéria. Tirei da net os exames dos anos anteriores e as matrizes de avaliação/correcção para que a mesma fosse o mais fiel possível. Não nos preocupámos em seguir os livros utilizados nas aulas. Mas em manter a mente ocupada.
 
Algumas dicas do que serviu para nós:
- no caso da língua portuguesa comecei já há umas semanas a pedir à minha filha um resumo de cada livro lido. Tenho resumos das Gémeas de Santa Clara, do Diário de um banana, de Uma aventura e do Gerónimo Stilton. Treina a capacidade de compreensão, de síntese, de raciocínio e construção lógica de texto. Além da ortografia e da aquisição de novos vocabulários;
 
- estudámos os tempos verbais de forma descontraída. Num diálogo comum, pedia-lhe para me dizer o tempo verbal da frase. Sem ela esperar pedia-lhe um sujeito, o radial, um pronome ou um adjectivo. E fazia o exercício contrário. Em vez de lhe dar uma frase para analisar morfológicamente, pedia-lhe que construísse uma frase com, por exemplo, um adjectivo, um substantivo, um pronome pessoal, etc., etc.;
 
- no caso da matemática comecei há algum tempo a incentivá-la a fazer trocos com dinheiro. Participámos em feiras de venda de usados e, aí, atribuí-lhe a responsabilidade de dar o troco aos clientes. Quando fiz alguma receita com medidas foi a ela que pedi que medisse e fazia questão de pô-la a pensar na duplicação da receita ou no corte. Como o irmão mais novo anda a aprender as formas básicas, instruí-a no sentido de ser a professora lá de casa. Ao que ía acrescentando alguns pedidos mais exigentes. Com as meias que ela dobra também fui fazendo alguns jogos de pares, do género: há dois pares de meias perdidos na gaveta do mano. Aqui tenho 32 meias individuais. Quantos pares é que estão por dobrar? Etc., etc.;
 
- também utilizámos daqueles livros pequenos quebra-cabeças. Os Train your brain;
 
Não guardámos tudo para o fim. Com a prática diária torna-se mais fácil a compreensão das coisas. Também não alimentámos o stresse de uma avaliação ou da saída para a escola sede. Um dia igual aos outros.
 
E foi assim que ela agiu. De forma descontraída. E já saiu do exame. E só me disse:
- Não saiu nada que não tivessemos estudado.
 
Ainda bem, filha!
Ainda bem.
 
Agora é esperar pelo dia 12 de Junho. O dia em que nos telejornais será anunciado o desempenho dos alunos portugueses. As médias em relação ao ano passado. O ranking das melhores escolas. Mas não nos esqueçamos que sobre isso... há muito a dizer... Fica para outras núpcias.
 
 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Uma pergunta fácil de responder

Sobretudo desde que nasceu o mais novo, o que coincidiu com a entrada dela na escola primária, tentei reservar um espaço semanal apenas para nós duas. Sem o irmão. Sem o pai. Nós duas e mais ninguém. Por norma vamos lanchar num sítio giro. Ficamos a conversar durante algum tempo.

Actualizo-me sobre os encontros e desencontros próprios da sua idade. Conta-me coisas que escapam aos relatos diários. Por vezes, tece considerações sobre determinados episódios. Por vezes, surpreende-me. E é tão bom vê-la crescer. Com tempo para ela. Só para ela.

Na última vez que saímos sentou-se connosco à mesa uma daquelas perguntas porque não esperamos.
- Mãe, porque é que decidiste que eu devia nascer?
- Como? (pensei que não tinha ouvido bem)
E ela repetiu com as mesmas vírgulas, os mesmos espaços e a mesma entoação.

Não fiquei atrapalhada. Sem saber o que responder. Fiquei surpreendida com o grau de exigência que a formulação de uma pergunta destas requer. Com a inocência que lhe reconheci. Com o seu ar seguro, de gente grande.

Disse-lhe, apenas, que se soubesse que ao decidir ter um filho seria ela a nascer, teria tomado essa decisão há muito mais tempo. E ela percebeu. Vi nos seus olhos. No leve esgar dos seus lábios. No ajeitar-se na cadeira, endireitando as costas e cruzando a perna. Como gente grande.

Não lhe disse tudo o que vai cá dentro. Era impossível. 
Não lhe disse que decidi ser mãe porque tenho esperança num futuro melhor. Que ao ter decidido dar esse passo, consciencializei-me que um filho não pode ser a tentativa de um pai ou de uma mãe remediar o que não fez e devia ter feito. Não lhe disse que quero educá-la para ser a melhor. Para fazer o que quiser. Mas para ser a melhor no que vier a fazer.

Não lhe disse que espero que venha a ser uma cidadã activa, que faça a diferença. Que tenho a esperança num mundo melhor depositada na sua sensibilidade. Que tenho medo. E que ela faz parte dele. 

Não lhe disse que todos os dias luto por um equilíbrio entre o deve e o haver neste difícil tarefa que é a educação. Omiti-lhe as minhas fraquezas. As minhas inseguranças. A minha dificuldade em engravidar. Também não lhe disse que foi ela o meu primeiro amor. Que se a repreendo, é porque a amo. Que o seu nascimento fez de mim uma pessoa melhor. 

Não lhe disse que nada sabia sobre a maternidade. Que me ensinou mais do que alguma vez possa pensar. Que foi tão importante para mim a dádiva que me foi concedida, que decidi repetir. E, por isso, é que ela tem um irmão.

Nunca irá perceber que é a culpada pelo nascimento do seu irmão. Nunca. E eu não lhe disse isso.

Talvez um dia me diga:
- Mãe, já percebi porque é que decidiste que eu nascesse.

Mas dificilmente esta vida veloz, dura e cruel conceder-me-é o tempo necessário para esperar por isso.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Children see. Children do.

De vez em quando tropeço neste espectacular vídeo. E de todas as vezes gosto de vê-lo do princípio ao fim. E de todas as vezes sinto-me consternada com a mensagem. E de todas as vezes fico a pensar naquilo que os meus filhos vêem em mim e que podem vir a fazer...



Era só isto...